«No passado, as crianças escutavam mais e aceitavam melhor»
Serviu no Brasil, Peru e Taiwan, antes de assumir uma nova missão em Macau. No território, foi incumbida de trabalhar com a comunidade católica de língua portuguesa da paróquia de Nossa Senhora do Carmo, onde assume um papel fundamental na transmissão da Palavra de Deus aos mais novos. Ser catequista, reconhece, é hoje mais exigente do que no passado, dada a facilidade com que as crianças se distraem. Em Agosto, a Irmã Maria Mãe da Igreja vai juntar-se ao grupo de jovens de Macau que parte em missão para Angola. A missionária do Instituto das Servidoras do Senhor e da Virgem de Matará em entrevista a’O CLARIM.
O CLARIM – Tem tido um papel muito importante na Catequese da paróquia de Nossa Senhora do Carmo ao longo dos últimos anos. Tem sido fácil esta missão de que foi incumbida, numa altura em que as crianças crescem com inúmeras distracções e tentações?
IRMÃ MARIA MÃE DA IGREJA – Bom, eu cheguei a Macau depois de uma missão, na Ásia, a que dediquei mais de dez anos. A minha experiência em termos de Catequese foi moldada por esta experiência com os católicos asiáticos, depois de muitos anos de missão no Brasil e no Peru. Quando me foi confiada esta missão na Taipa fiquei muito feliz, antes de mais, por poder trabalhar na minha própria língua. Trabalhar em Português é muito mais fácil. No entanto, encontrei também algumas diferenças. Eu trabalhava com asiáticos e a educação asiática é muito diferente. Na Taipa, deparei-me com dificuldades que, creio, são transversais a todas as culturas: as crianças estão muito mais distraídas. Graças a Deus, as famílias portuguesas são comprometidas, trazem os miúdos para a Catequese e isso ajuda. O horário da Catequese é muito curto. As sessões decorrem depois da Missa, até à uma da tarde e não chega, por vezes, a ser uma hora de Catequese. Essa hora, porém, parece por vezes demasiado longa, porque nem sempre é fácil garantir que permanecem concentrados na aula. Tenho que ser bastante criativa: com desenhos, com jogos, com movimentos. As crianças distraem-se muito facilmente. Mas é uma missão muito linda. Graças a Deus, organizamo-nos muito bem com o padre Eduardo [Emilio Agüero, SCJ]. As crianças estão divididas por idades e isso também ajuda um pouco mais. Temos também jovens comprometidos, que nos ajudam com as lições. Creio que estamos a fazer um bom trabalho.
CL – Referia que tem de ser bastante criativa. É hoje mais fácil ou mais difícil transmitir a mensagem de Deus aos mais novos? Ou será necessário adaptar a mensagem de Deus àquilo que são os tempos actuais?
I.M.M.I. – É claro que é muito mais difícil. As crianças agora recebem muito mais informação, seja em casa ou na escola. As crianças passam muito mais tempo fora de casa e passam também muito tempo expostas a diferentes fluxos de informação. No passado, as crianças trabalhavam muito com os pais e já vinham mais ou menos formadas de casa, com a ajuda também da escola. Hoje em dia é muito diferente. Os pais são, por vezes, um pouco mais liberais, a escola é totalmente liberal e quando as crianças chegam para ouvir a Catequese, a tarefa é mais exigente para o catequista. As crianças fazem muito mais perguntas do que faziam antes. No passado, as crianças escutavam mais e aceitavam melhor. Agora, as crianças debatem mais. Contestam e dizem: “Isso não é bem assim. A minha professora disse outra coisa. Eu vi na Internet e é assim”. É mais desafiante!
CL – Vai participar na Missão Juvenil a Angola. É uma outra forma de evangelização? Que expectativas leva para esta missão?
I.M.M.I. – Temos muitas expectativas. Como dizia, trata-se de outra realidade. Eu, pessoalmente, não conheço nada de África. Estou a estudar para procurar perceber como é a realidade em Angola. Depois, tendo em conta as informações que nos enviam de lá, há muito trabalho a fazer: nas escolas, em orfanatos, na paróquia, nas aldeias ou nas comunidades. Há muito para fazer porque também há muita pobreza e muita necessidade. Vai ser algo muito novo para os nossos jovens. Em Macau, a vida, em termos gerais, é muito cómoda e é muito fácil. Estes jovens têm tudo à mão de semear e levá-los a esta outra realidade, creio que é algo que lhes vai abrir os olhos. Esperamos que eles consigam fazer uso dessa experiência para mudarem um pouco a visão que têm da vida quotidiana em Macau.
CL – Prestou serviço como missionária em Taiwan, no Peru e no Brasil. Como surgiu a vocação religiosa?
I.M.M.I. – Eu nasci e cresci numa família católica. Participava na Missa Dominical e recebi os Sacramentos, como numa família normal. Não cresci num ambiente com religiosas. Na minha cidade não havia Irmãs, mas quando recebi a Primeira Comunhão senti o desejo de me consagrar a Deus. Foi um impulso que deixei cair no esquecimento até aos meus quinze anos, quando no âmbito de uma missão veio um grupo de irmãs e de sacerdotes à minha paróquia, e convidaram os jovens para algumas actividades. Aceitámos o desafio movidos pela curiosidade, mas ao ver pela primeira vez este hábito que uso e ao ver como eram felizes as Irmãs que o envergavam e que eram normais, como qualquer outra pessoa, senti, quase do nada, o desejo de me oferecer e de ser como elas. Poderia dizer que no meu caso não foi nada como outros: não tive visões, não me apareceram anjos. O que me fez optar pela vida religiosa foi o exemplo daquelas Irmãs, que viviam uma vida religiosa com alegria e com entrega. Foi isso que me deixou entusiasmada e me levou a querer fazer igual.
CL – Porquê as Servidoras do Senhor e da Virgem de Matará?
I.M.M.I. – Porque nelas encontrei as seguintes características: o hábito, a alegria, a dádiva e muita oração. A nossa atenção está centrada na Missa, na Eucaristia, no amor a Maria, e depois no respeito e no amor a todas as idades – dos miúdos, aos jovens e aos adultos. Esta dimensão, onde nos podemos oferecer, é muito importante e é muito lindo para o serviço.
CL – Em Macau, a Irmã trabalha na perspectiva da Evangelização dos mais novos. Que outro trabalho pastoral é desenvolvido pelas Servidoras do Senhor e da Virgem de Matará aqui no território?
I.M.M.I. – Vim para Macau com o propósito muito concreto de ajudar a comunidade portuguesa na Taipa. Também servimos de outras formas, ajudando em vários dos apostolados da Diocese. No meu caso, continuo a ajudar no Colégio de Santa Rosa de Lima, na Secção de Língua Inglesa, e também faço trabalho de natureza pastoral.
CL – Quantas Irmãs das Servidoras do Senhor estão em Macau, neste momento?
I.M.M.I. – Actualmente, somos cinco Irmãs da nossa comunidade em Macau: duas Irmãs de Hong Kong, uma brasileira, uma peruana e uma argentina.
Marco Carvalho

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