«Os nossos estatutos dizem que temos de ajudar os mais necessitados»
É uma das mais antigas Irmandades católicas de Macau ainda no activo, mas chegou a ter apenas sete irmãos e a estar na iminência de desaparecer. A actualização e reorganização dos estatutos trouxe um novo fôlego a uma confraria que mantém viva a multisecular devoção a Santo António em Macau. Entre as alterações aprovadas, está a atribuição do direito de voto às mulheres, fazendo delas parte activa nos processos de decisão. Frederico Eusébio Cordeiro, presidente da Irmandade de Santo António, em entrevista a’O CLARIM.
O CLARIM – A Irmandade de Santo António tem bem mais de um século de história. É uma Irmandade profundamente ligada à própria comunidade macaense. Como se encontra actualmente?
FREDERICO CORDEIRO – Antes de ser eleito presidente da Irmandade de Santo António, só tínhamos sete irmãos e os estatutos da Irmandade estavam profundamente desactualizados. Tive de os actualizar. Falei com o nosso padre, falei com o doutor Miguel de Senna Fernandes, e estivemos reunidos por várias ocasiões para alterar os estatutos, porque os anteriores já não respondiam às necessidades actuais. Um dos pontos que precisava de alteração era a forma como eram vistas as mulheres. As mulheres podiam assistir às reuniões, mas não tinham voto na matéria. Este era um dos aspectos que estavam desactualizados. Quando assumi a presidência disse que não podia continuar a ser assim. A sociedade mudou muito e a mulher tem que ser parte activa na vida da Irmandade: tem que participar nas reuniões, dar a sua opinião e votar. O estatuto que regulava a participação das mulheres foi alterado. Mas houve várias alterações. Também a relação com a Igreja foi revista. Antigamente, para se ser parte da Irmandade, era necessário fazer entrar uma certa quantidade de dinheiro no cofre. Estas obrigações foram todas eliminadas. Felizmente, temos um orçamento na Irmandade de Santo António com um certo desafogo, mas este dinheiro deve ser gerido de forma ponderada. Não podemos andar a desperdiçar o dinheiro “a torto e a direito”. Felizmente, temos um orçamento com alguma largueza de meios. Eu dirijo a Irmandade, mas também sou responsável por controlar os gastos.
CL – A mudança dos estatutos ajudou a revitalizar a Irmandade? Suscitou um novo interesse e ajudou a trazer novas pessoas?
F.C. – Como acabei de lhe dizer, até então tínhamos apenas sete irmãos. Depois de tomar posse, uma das minhas maiores preocupações foi regularizar tudo isto. Houve a necessidade de regularizar o funcionamento da Irmandade e fomos, pouco a pouco, admitindo novos membros. Neste momento, temos 69 membros.
CL – É um número considerável…
F.C. – Sim, temos 69 irmãos. Temos as nossas actividades anuais. Celebramos, anualmente, o aniversário da fundação da Irmandade. Fizemos este ano 135 anos, salvo erro. No ano passado, organizámos uma excursão a Hong Kong e almoços para os nossos associados. Estas são algumas das coisas que vamos fazendo.
CL – São também uma parte decisiva na organização da Festa e Procissão de Santo António. São os irmãos que carregam o andor de Santo António, por exemplo…
F.C. – Exactamente! Ajudamos a organizar a Festa de Santo António. Uns meses antes da Procissão, reunimo-nos para organizar a parte do cortejo religioso. Organizamos a parte da Irmandade, que acertamos com a igreja. Esta reunião serve para preparar várias coisas. Nós somos, em grande medida, uma entidade anexa à paróquia de Santo António. A Paróquia também depende de nós. A Irmandade participa nas suas reuniões. Uma ou duas vezes por mês, a Paróquia organiza reuniões e eu sou convocado. São estas pequenas coisas que nós organizamos, sempre dentro das nossas possibilidades.
CL – Dizia, à margem desta entrevista, que a imagem que sai na Procissão pertence à Irmandade de Santo António…
F.C. – Pertence à Irmandade de Santo António, sim. Numa capela lateral está uma imagem de Santo António que foi oferecida por Pedro José Lobo. Ele ofereceu essa imagem à paróquia de Santo António, que a serviu durante muitos e muitos anos. Já a imagem a que se refere, é a que todos os anos sai com a Procissão e essa é pertença da Irmandade.
CL – Quando a Irmandade foi fundada, no final do Século XIX, tinha uma componente assistencial muito vincada. Ajudava, por exemplo, a sepultar quem não tivesse meios para isso e na assistência às viúvas. Ainda se mantém este tipo de cuidado?
F.C. – Salvo erro, a Irmandade de Santo António nunca teve essa componente. O que fazemos – e a antiga direcção também o fazia – é dar alguma ajuda às pessoas mais necessitadas. Quando há pessoas que vêm ter connosco e nos dizem: “Olhe, eu preciso de alguma ajuda, porque perdi o emprego”, ou algo que se pareça, nós oferecemos alguma ajuda. Não podemos contribuir de forma continuada e durante muito tempo, mas damos uma pequena esmola. Não damos na perspectiva de fazer forçosamente caridade. O que fazemos são coisas pontuais.
CL – A Irmandade mantém, no entanto, essa capacidade? Mantém essa perspectiva?
F.C. – Sim! Os nossos estatutos dizem que temos de ajudar os mais necessitados. É algo que se aplica aos próprios irmãos. Se os irmãos tiverem alguma dificuldade, também podem contar connosco. Felizmente, dos 69 irmãos que actualmente fazem parte da Irmandade, nenhum está com muitas dificuldades.
CL – Dizia que quando assumiu a presidência da Irmandade, esta tinha apenas sete irmãos e estava em risco de desaparecer. Neste momento, está a Irmandade virada para o futuro? Têm irmãos mais jovens?
F.C. – Tenho tentado convocar e mobilizar o maior número possível de jovens. Dos tais 69, diria que cerca de oitenta por cento têm uma certa idade. Muitas vezes convoco as pessoas para ajudar com certas coisas e, dentro desses 69, há muitos que até querem ajudar, mas não têm tempo, ora porque precisam de tomar conta dos netos, ora porque têm os seus afazeres. São várias as razões que fazem com que, por vezes, nós não possamos exigir muito das pessoas. Na Irmandade é tudo feito de forma voluntária, ninguém é pago pelo que faz. Portanto, estamos a caminhar conforme as necessidades que nos vão aparecendo pela frente.
CL – A comunidade chinesa também nutre forte devoção a Santo António?
F.C. – Há uma devoção muito forte entre a comunidade chinesa. E é muito interessante, porque não é só entre a comunidade chinesa. Há muitos coreanos aqui em Macau e para esses, de vez em quando, é celebrada Missa na igreja de Santo António.
Marco Carvalho

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