«O sim a Maria foi determinante para Macau»
A igreja do Seminário de São José acolhe, na próxima quarta-feira, 25 de Março, uma Eucaristia comemorativa dos trinta anos da construção, no Largo de Santo Agostinho, de um monumento ao Imaculado Coração de Maria. A imagem é retirada do nicho todos os anos na Solenidade da Anunciação do Senhor e levada em procissão. Anabela Ritchie, impulsionadora da Comissão Local do Grupo da Imaculada de Portugal, explica de que forma a devoção ao Imaculado Coração de Maria se enraizou em Macau. A antiga presidente da Assembleia Legislativa, em entrevista a’O CLARIM.
O CLARIM – Que história esconde a imagem do Imaculado Coração de Maria que se encontra à entrada do Seminário de São José?
ANABELA RITCHIE – Na segunda metade de 1995, Macau começou a ser contactada pelo Grupo da Imaculada [de Portugal], um movimento de leigos sedeado em Fátima, criado por um grupo de pessoas de vários quadrantes, sendo presidente a doutora Maria das Candeias. Ela acaba por vir a Macau com um grupo de fiéis e aqui foi muito bem acolhida. O que é o Grupo da Imaculada? É um movimento que agora está espalhado por todo o mundo. Este movimento teve a ideia de construir um pequeno monumento, como aquele que está à porta do Seminário. Este monumento, ao longo dos quarenta anos de existência da Fundação Imaculado Coração de Maria e do Movimento do Imaculado Coração de Maria, espalhou-se por todo o planeta. Em todos os continentes há monumentos como este. Macau foi abordada pelo Grupo da Imaculada, que procurou perceber se havia interesse em o trazer para aqui. Na altura, a ideia foi acolhida com muito entusiasmo. O bispo D. Domingos Lam, o padre João Lourenço e o já falecido cónego Luís Xavier mostraram muito interesse pela ideia e um grupo de senhoras de Macau quis, desde a primeira hora, associar-se à iniciativa. O general Vasco Rocha Vieira, a esposa, as esposas de muitos altos funcionários da Administração de Macau interessaram-se pelo projecto, que viam como uma coisa boa. Estávamos em 1995 e decidimos construir este monumento, que tem um modelo que é igual em todo o mundo. Em todo o mundo, o monumento tem a mesma aparência e a mesma dimensão. Na altura de escolher o local, todos acharam que aquele, à porta do Seminário, seria perfeito para receber a imagem, com as dimensões que tinha. Entre o final de 1995 e o início de 1996, construiu-se o monumento, de acordo com o modelo fornecido pelo Grupo da Imaculada. A primeira actividade que desenvolvemos foi no dia 25 de Março de 1996.
CL – Ou seja, a data que vai ser agora assinalada…
A.R. – Vamos assinalar agora trinta anos, mas sempre celebramos a data de 25 de Março, que como sabe é a Solenidade da Anunciação do Senhor. A primeira vez que promovemos uma actividade foi exactamente nos moldes em que vamos celebrar agora e nos quais celebrámos ao longo dos últimos trinta anos. Quando deixámos de fazer a actividade na igreja de Santo Agostinho, passámos a organizá-la na igreja do Seminário de São José. A imagem é colocada de manhã na igreja, celebramos Missa, rezamos o Terço e depois a imagem sai em procissão; passa pelo jardim do Seminário, onde acabamos de rezar o Terço e a imagem é colocada de novo no monumento. Antes disso, porém, há a consagração de Macau ao Imaculado Coração de Maria, uma oração que rezamos há trinta anos. Esta oração foi escrita pelo então bispo, D. Domingos Lam. Rezamos e quem oficia dá a bênção final.
CL – Este ano, quem vai celebrar a Eucaristia?
A.R. – O padre Daniel Ribeiro já aceitou o convite que lhe endereçámos. O Senhor Bispo sabe que esta celebração se realiza. Todos os anos pedimos autorização para usar a igreja do Seminário. Pode ser que ele também apareça, mas não lhe sei dizer ao certo. Falámos no Domingo, tem uma agenda sobrecarregadíssima. Na Sé, na véspera, há Missa dedicada ao Imaculado Coração de Maria. Será bilíngue e presidida por D. Stephen Lee. Não sei se no dia seguinte, ele terá disponibilidade ou não.
CL – A Missa na igreja do Seminário de São José será celebrada em que língua?
A.R. – A Eucaristia, no Seminário de São José, será celebrada nas duas línguas [Chinês e Português]. E o Terço também é rezado nas duas línguas. Na sequência do pedido feito pelo Santo Padre, a nossa actividade este ano será principalmente uma jornada de oração pelo desarmamento e pela paz no mundo, pelo reforço do nosso sentido de união, esperança e solidariedade e, finalmente, por Macau, pelas nossas famílias e pelas nossas intenções pessoais.
CL – A proposta, dizia, é feita em 1995. A primeira cerimónia é realizada em 1996, três anos antes da transferência de Administração de Macau para a China. Foi importante deixar este legado a Macau? Trinta anos depois, ainda teria escolhido o Largo de Santo Agostinho para instalar o monumento?
A.R. – Foi e é uma boa escolha. Todos os monumentos do Grupo da Imaculada estão ao ar livre. Todos eles! É uma imagem que está sempre exposta e que nos convida à oração, que nos convida a meditar. O sim a Maria foi determinante para Macau e para tudo o mais que se seguiu. Até esta escolha da Festa da Anunciação do Senhor para celebrarmos a vinda do Imaculado Coração de Maria para Macau, penso que foi uma escolha muito feliz. O Grupo da Imaculada também promove a oração no primeiro sábado de cada mês. O Grupo foi, entretanto, reconstituído…, reunimo-nos ao redor da imagem, rezamos o Terço e fazemos a nossa própria consagração ao Imaculado Coração de Maria. No dia 25 de Março, quando celebramos esta efeméride na igreja, nos moldes que descrevi, rezamos a oração de consagração de Macau a Nossa Senhora, escrita pelo bispo D. Domingos Lam.
CL – O monumento não está propriamente esquecido…
A.R. – Não está! Todos os meses nos mobilizamos. E não somos só nós. Quem passar por lá pode ver que aquele monumento está sempre cheio de flores. Há um grupo da comunidade chinesa que também ali vai rezar o Terço em Chinês. Há um aspecto curioso que também posso mencionar. Ao pé do monumento, na descida, há uma esquadra de polícia. Macau, antes da transição, passou por um período muito mau, devido ao crime organizado. Na altura, os próprios polícias iam lá rezar. Havia um, que eu depois passei a reconhecer, que tirava o boné, rezava e depois ia embora. É muito comovente, não é?
CL – Macau é uma cidade eminentemente mariana. O monumento reforçou esse estatuto?
A.R. – Não tenho dúvidas. Esta imagem veio directamente de Portugal e as pessoas têm-lhe muita devoção. Estou convencida que celebraremos mais trinta e mais trinta e mais trinta anos de devoção, porque há sempre gente dedicada, felizmente, ao culto mariano em Macau.
Marco Carvalho

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