ALESSIO HECKLER, IRMÃO MARISTA E MISSIONÁRIO EM BAUCAU

ALESSIO HECKLER, IRMÃO MARISTA E MISSIONÁRIO EM BAUCAU

«A vocação tem de ser purificada em Timor-Leste»

Alessio Heckler passou os últimos doze anos e seis meses na segunda maior cidade de Timor-Leste, Baucau. Ali descobriu, alimentou e purificou vocações sacerdotais. Nascido no Rio Grande do Sul, no Brasil, o leigo do Instituto dos Irmãos Maristas ajudou, em Timor-Leste, a encaminhar cerca de meia centena de jovens para a via do Sacerdócio, num processo onde a educação e o discernimento são importantes, mas não a única preocupação. Numa nação em que o Sacerdócio ainda funciona como um mecanismo de ascensão social, é fundamental purificar vocações, defende. De passagem por Macau, o irmão Alessio Heckler abordou alguns dos desafios da Igreja Católica em Macau, em entrevista a’O CLARIM.

O CLARIM – Que trabalho desenvolveu ao longo dos últimos doze anos em Timor-Leste? Em que estado se encontra e Igreja Católica na mais jovem nação do Continente Asiático? E como é que o seu trabalho ajudou a Igreja a crescer mais ainda?

IRMÃO ALESSIO HECKLER – Trabalhei durante doze anos e meio em Timor-Leste. Sou do Brasil. Em relação à Igreja, é muito aberta e muito participada. Noventa e cinco por cento da população é católica. Em termos percentuais, creio que é o país que mais católicos tem no mundo. Há muita juventude e as igrejas estão cheias. Aos Domingos, é habitual serem celebradas três missas, que estão sempre cheias. Durante a semana também há Missa e o povo é bastante participativo. Quase todas as paróquias têm vários coros e, normalmente, em cada missa há um coro diferente a acompanhar a celebração. Os coros atraem crianças, jovens, todos os tipos de pessoas. A Congregação Salesiana tem uma presença muito forte em Timor-Leste e faz um trabalho maravilhoso. Eu sou um irmão marista. Os Maristas têm uma escola para formar professores. Oferecemos o nosso próprio contributo ao povo timorense. Timor-Leste tornou-se independente depois de muitos anos de ocupação indonésia. Quando o País se tornou independente, surgiu um problema: “quem iria educar os nossos filhos?”. O Presidente timorense e o Bispo de Baucau ouviram falar da nossa missão e do trabalho que fazíamos com a Educação. Foram falar com o nosso provincial na Austrália e eles prontamente enviaram para Timor-Leste dois irmãos da Austrália e um de Portugal, por causa da língua portuguesa. Os três irmãos começaram a trabalhar em Timor-Leste e em 2002 formaram a primeira turma. Ou seja, já celebramos 25 anos de presença marista em Timor-Leste. O nosso contributo também passa pela gestão de algumas escolas.

CL – Que trabalho realizam os irmãos maristas nessas escolas? É um trabalho que se limita à Educação formal?

I.A.H. – Em Timor-Leste há muitas vocações. Há muitos jovens que querem ser religiosos. O meu trabalho principal é alimentar essas vocações, sendo que depois trabalho na primeira etapa da sua formação, juntamente com outros irmãos. Estes, são todos australianos! A língua portuguesa sofre um pouco, por razões óbvias. Como Timor-Leste fica um algo isolado em relação aos restantes países de língua portuguesa, na escola aprende-se Português, mas poucos o praticam. Entre os jovens, poucos falam Português. Os de mais idade, com 55 ou 60 anos para cima, falam Português. De certo modo, recuperaram a capacidade para falar a língua.

CL – Enquanto professor, ensina em Português, Inglês e Tétum? Qual é a língua que mais utiliza?

I.A.H. – Tétum! O ensino é todo feito em Tétum: na Universidade, nas escolas, é tudo leccionado em Tétum. Os alunos têm que aprender Português, mas em termos concretos têm muitas dificuldades em conseguir falar. Têm que tirar um curso mais aprofundado, se quiserem mesmo aprender a língua. Mas a formação, no dia-a-dia, é feita em Tétum. Os nossos meninos, os que se querem preparar para ingressar nos Maristas, têm que aprender Inglês, até porque depois têm necessariamente que ir para outros países e irão encontrar jovens de outras nações onde se fala Inglês.

CL – Quantos alunos tem o vosso centro de formação neste momento? Quantos jovens, quantas pessoas, ajudaram a preparar ao longo dos últimos 25 anos?

I.A.H. – Cheguei a Timor-Leste há quase treze anos. À época, não havia promoção vocacional. Depois de ter lá chegado, começámos a fazer algum trabalho nesse sentido e ao fim destes doze anos e meio temos 35 irmãos já professores; temos um bom grupo no Noviciado e um terceiro grupo bastante significativo que vai para o Noviciado. Ao todo, são mais ou menos cinquenta os jovens que passaram pela nossa formação em Timor-Leste. O nosso fundador, Marcellin Champagnat, é francês, mas às vezes brincamos e dizemos que tivemos um papel refundador em Timor-Leste, devido ao trabalho que temos vindo a fazer. A vocação tem de ser purificada em Timor-Leste. Muitos destes jovens chegam até nós à procura de uma oportunidade, mas entre eles há muitos que perseveram. Durante a formação trocam opiniões entre eles. Alguns procuram-nos porque não conseguem entrar na Universidade, porque a família não tem dinheiro. Por aqueles que entram nos Maristas, a família não precisa de pagar. É a Congregação que paga por eles. Este elemento é muito apelativo. De qualquer forma, não deixa de ser verdade que temos bastantes vocações em Timor-Leste. Os Seminários têm muitas vocações. Os Salesianos e os Jesuítas que lá estão conseguiram promover bastante as vocações.

Marco Carvalho

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