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Os papagaios de Deus

Os papagaios de Deus

O Papa Francisco no Chile e no Peru. Mais uma etapa, muito significativa, do grande caminheiro.

Referir-me-ei aqui apenas ao Chile. Em Santiago, Francisco falou da Igreja, à Igreja. E apelou ao não-clericanismo, tendo insistido, no encontro com os bispos, na necessária recusa duma concepção dos leigos como pertença de bispos e padres, ou seus empregados. E foi mesmo mais ousado, dizendo que os leigos não são papagaios (sic), mas pessoas livres de se exprimirem.

Foi a manifestação ousada de uma pequena revolução no interior da Igreja. Que parece tentar manter cativa uma sociedade que manifestamente lhe escapa. O Papa sabe disso. Por isso apelou aos mais novos, no encontro com a juventude, a que fossem a face visível da Fé. E aos bispos e presbíteros, incentivou-os a que não prescindissem do sonho. O da sua vocação.

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Pergunto-me o que me fascina nas visitas do Santo Padre aos diferentes países. Acompanho tais viagens com algum pormenor. E tento impregnar-me da atmosfera dos momentos e dos lugares. E a resposta à pergunta acima auto-formulada – por que me fascinam tais viagens – começa a surgir-me como óbvia logo que examino, e ponho de parte, certas explicações, aparentemente mais imediatas.

Não é, certamente, o espectáculo do protocolo. Nem a dos banhos de multidão que perseguem por toda a parte.

Não é a carpete vermelha, a definir fronteiras que facilmente Francisco transgride, para beijar uma criança, acariciar um idoso, abençoar um doente.

Nem o pequeno automóvel, despretensioso, em que se desloca – o primeiro sinal exterior diferente, de um líder diferente.

Nem são as bandas militares que tocam o hino do Vaticano e os outros hinos nacionais, no estilo usualmente “guerreiro”, nos antípodas da simbologia dominante das visitas pontifícias.

Nem são os cumprimentos formais às autoridades anfitriãs que impressionam. Ou antes, sim, esses sim, porque vêm da parte de um homem que não faz pose nem compõe sorrisos de circunstância.

Este Papa, quando cumprimenta, como que abraça. Ninguém, como Francisco, sabe ultrapassar a solenidade e o formalismo com o sorriso e a espontaneidade desarmantes da sua presença. E que assim facilmente subverte as regras, conferindo aos seus contactos, mesmo os mais formais, mesmo os mais oficiais, a dimensão humana, verdadeira, de simples encontros entre pessoas. O que surpreende e encanta. É que a vida política, sabe-se, tem os seus rituais, as instituições humanas têm a sua coreografia, o modo de actuação dos responsáveis assume invariavelmente uma dimensão cénica.

 

Francisco e as armadilhas da função

Mas o Papa sai ileso dessas múltiplas armadilhas, com que o teatro da vida aprisiona os actores. Como o consegue?

Sendo ele próprio – e não um Eu soberbo, escondido por dentro das vestes brancas. Esse Eu que domina tantas personagens públicas, como vemos em alguns exemplos de pura caricatura, de recém-vindos ao palco do mundo.

Não são também os banhos de multidão que me impressionam, essa contínua e quão cansativa glorificação do personagem, a quem se toca, de quem se exige atenção, a quem se dá a carta com pedido particular, ou o ramo de flores ou outra lembrança, a quem quase se atira o filho de colo, para ser abençoado…

A todos responde Francisco com um olhar directo, olhos nos olhos, o que torna cada rosto a expressão individualizada de uma pessoa, e não um simples vulto, depressa esquecido, no progredir inexorável do Papamóvel.

O sucesso de Francisco não é principalmente mediático. Ou se o é, é porque é antecedido de um outro sentimento, bem mais profundo do que o da mera adesão ao espectáculo televisivo ou ao diz-se que diz-se das redes sociais.

O Papa toca no âmago de quem o procura e lhe pede mais do que a casa, a escola, o hospital ou o trabalho que não tem. Pede-lhe um sentido de vida. E é por ser portador de um sentido de vida que, na agenda única do Pontífice, nos países e comunidades que visita, está a vida. A dos países, a das sociedades com os seus desafios culturais, das economias e seus desequilíbrios – e das interrogações que tudo isso suscita.

As visitas ao Chile e ao Peru foram magníficas conversas sobre a vida, com irmãos tornados próximos pelo “milagre” da tecnologia digital. Seguir passo a passo tais conversas foi e é sempre profundamente enriquecedor.

 

Falar das pessoas, falar da Igreja

Porque os momentos fortes das suas deslocações são, naturalmente, para além dos simples gestos de afecto e proximidade, as homilias e as suas outras intervenções.

No discurso inicial de saudação à “Presidenta” Michelle Bachelet, o Papa não evitou pronunciar-se, antes abordou com humildade a questão do abuso sexual de adolescentes por sacerdotes, e com algumas das vítimas reuniu-se em privado. “E o Papa chorou com eles ”, descreveram os media, alguns mudando o tom da narrativa em questão tão penosa, e sublinhando, em vez do escândalo, apenas o escândalo – a sensibilidade do Pontífice para com as múltiplas ramificações humanas e psicológicas de tais abusos.

Tendo como pano de fundo as realidades histórica e social chilenas, as bem-aventuranças seriam o tema da homilia da primeira missa em Santiago. E perante o tão conhecido Sermão da Montanha, o Papa como que o converteu, de um belo texto literário, numa mensagem directa àquelas pessoas concretas, à sua frente, que merecem a misericórdia do Alto pelo sofrimento incorporado no quotidiano das suas vidas. Estava ali, naquele momento – as palavras de Francisco criaram tal sensação – o “mesmo” povo a que Jesus se dirigiu.

 

Outros temas fortes

Na visita à cadeia de mulheres de Santiago, o Papa falou longamente da dignidade de cada pessoa detida, afirmando repetidamente, perante a presidente e membros do Governo presentes, que o objectivo último das penas é reintegrar socialmente. Na privação da liberdade tem de haver esperança, recordou. E os presos não são meros números do registo, mas Pessoas.

E foi com essa mesma ideia dominante que falou dos direitos dos povos indígenas, incentivando-os todavia a não recorrer à violência para os reivindicar – porque a violência, lembrou, gera mais violência.

Na Pontifícia Universidade Católica do Chile o Papa falou da cultura do diálogo nacional. Contra a fragmentação e a ruptura social. A Universidade tem de ser o espaço onde se assegura a alfabetização da integralidade do homem para o diálogo nacional.

A estes temas voltarei na próxima crónica.

Carlos Frota 

Universidade de São José

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