O Nosso Tempo

À procura da resposta

À procura da resposta

Ainda a imensa tragédia de Pedrógão Grande. E, uns dias antes, o incêndio numa torre residencial, mesmo no coração de Londres.

O simples transitar ou um mero passeio na floresta converteram-se num fim definitivo, o mais horrível.

Uma noite tranquila, entre familiares, ou um princípio de sono reparador, no centro de uma capital sofisticada, de país rico, transformou-se no inferno dantesco dos nossos piores pesadelos.

É sobre tudo isto que, interrogativo como toda a gente, ponho-me a conversar comigo mesmo.

 

Há as conversas com os outros…

…e as conversas connosco mesmo. Há as conversas na Praça Pública. E aquelas que mantemos com esse interlocutor invisível que é a projecção de nós mesmos, no íntimo de cada um.

Há as razões que trocamos nas conferências, nas salas de aula, nos corredores dos supermercados, nos átrios dos cinemas. E as razões “só para nós”, meditadas no sofá da sala, na penumbra do quarto, à secretária do estudo, no passeio solitário, ou por entre as conversas de grupo, em família, com amigos, de que nos alheamos por instantes.

E podemos conversar connosco, só connosco, por exemplo, assim:

Vivemos na segunda década do século XXI, a pouco mais de dois anos do início da terceira, e nunca a humanidade fez tantos progressos em variadíssimos campos da Ciência e da técnica.

Em cada geração exultamos com as descobertas de novos medicamentos para tratar doenças julgadas incuráveis. E regozijamo-nos com os meios de transporte, cada vez mais rápidos, mais económicos no consumo de energia, mais limpos, no plano ambiental, mais silenciosos, por entre as nossas cidades ruidosas.

Os aviões conduzem-nos, em poucas horas, aos confins do mundo. Os comboios de alta velocidade distorcem as paisagens no afã louco de nos levar cada vez mais depressa ao nosso destino.

Ah as janelas dos comboios vagarosos, que nos proporcionavam a sucessão inigualável de quadros de paisagens ou de vidas humanas!

 

O insaciável desejo de saber

Cada passo que damos é, pensamos, um salto de gigante, para nos libertarmos das limitações físicas da nossa condição humana, das fragilidades do nosso corpo, das circunstâncias impeditivas de voar, no sentido físico e mental.

E a Cultura, cada vez mais acessível, à distância curtíssima de um premir de tecla, ampara-nos, reconforta-nos, nesse desejo de roubarmos as asas de Ícaro e de voarmos nos nossos próprios céus.

Com a melhor compreensão do universo, através da Ciência, julgamos ter chegado ao limiar daquele mundo novo, onde tudo será explicado – porque tudo é explicável: pela Física, pela Química, pela Biologia, pela Astronomia, pela Matemática…

E com mais fácil acesso à Cultura, julgamo-nos capazes de compreender melhor o homem, isto é, nós próprios, no nosso universo interior, pela Psicologia; na nossa inserção em grupos, pela Sociologia; na organização das nossas sociedades, pela Ciência Política e pelo Direito; no modo como os países convivem, ou não, pelas Relações Internacionais; e pelo longo caminhar através do tempo, com o retrato de nós próprios em movimento – que nos dá a História.

Em cada geração temos a pretensão de ganhar em racionalidade o que fazemos recuar no plano da superstição e de tudo o mais que não é detectável pela Ciência.

A Fé convertida em crendice. A Arte, o belo, lançados para o patamar subalterno da simples emoção. A Literatura, como exercício inútil de auto-ilusão. A Poesia, uma diversão pueril de gente lunática, alienada, uma espécie rara de extra-terrestres que nunca assimilou as regras básicas do mundo… prosaico.

Temos a pretensão, sublinho, de criar filósofos desempregados, porque inúteis, caladas as suas bocas – de crianças grandes! – por termos dado todas as respostas às suas perguntas inoportunas, desnecessárias.

E àqueles que vêm recordar utopias de ternura e afecto, para além do azul frio das estrelas, com deuses a acenar-nos para acolhedoras moradas eternas, ou pomo-los em manicómios, ou desertamos-lhes os templos, deixando-os a falar só com as paredes.

Há pouco mais de trinta anos, então, um instrumento poderosíssimo (e não menos ilusório) veio construir pontes inimagináveis entre todos; veio criar a aparência enganosa de que somos todos cópias, pouco originais afinal, de um modelo único; veio encurtar distâncias de maneira nunca vista, e caímos na tentação de pensar que, agora si, podíamos converter-nos todos em autênticos vizinhos de prédio ou de bairro, numa única cidade planetária.

Refiro-me claro à Internet e às suas aplicações, desde o “tablet” ao “smartphone”… Cada portador de telemóvel “inteligente” é hoje um potencial dono do mundo. Daí o engano de pensar que o domina, porque o compreende…

 

No princípio eram a água e o fogo

Com a água se mata a sede. Se dá de beber ao gado. Se rega os campos. Se limpa o corpo e, ritualmente, também a alma. Com o fogo aquece-se a casa, cozinha-se o pão, ateia-se a vela que ilumina a noite.

Mas com a água surgiu o dilúvio. E com o fogo a maldição dos deuses.

Penso em todos aqueles que interromperam abruptamente a sua caminhada no inferno de Pedrógão Grande. Penso na torre de Londres, convertida em tocha viva. Penso na infinidade das situações em que drama se escreve com “D” grande, que é também a letra inicial de desespero e dor.

 

À procura do sentido

Não se procura o sentido disto tudo nos laboratórios, eu sei. Nem nas bibliotecas, sei também.

Não se procura o sentido disto tudo no ruído dos clubes nocturnos, ou no meio das multidões dos estádios de futebol, ou diante dos ecrãs de televisão, a ver um programa ritmado por muitos decibéis…

…Não sei se as minhas lucubrações anteriores fazem algum sentido (para outros) como prólogo ao que tenciono escrever a seguir. Para mim fazem.

Constituímos todos um mundo de falsos senhores do nosso próprio destino. Criamos cidadelas de ilusão, em homenagem à nossa auto-suficiência. E de súbito ficamos estarrecidos. Porque não compreendemos.

Não compreendemos por que se matam três mil pessoas nas torres gémeas de Nova Iorque.

Não compreendemos por que se aceita a auto-imolação suicida, ao serviço de vaguíssimas utopias, fabricadas por monstros.

Não compreendemos a fingida imortalidade das ideologias, e das hecatombes que originam, como as da Europa do século XX, e do preço que a Humanidade paga sempre por elas.

Não se compreende tanta coisa que as Ciências exactas não explicam, nem a História, nem qualquer outro ramo de saber organizado.

Perante as imensas desgraças, o sofrimento sem medida, recolho-me ao íntimo de mim mesmo.

E é aí que faço todas as perguntas, na esperança de escutar um dia todas as respostas.

Carlos Frota 

Universidade de São José

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