Filosofia, uma dentada de cada vez (7)

Que são as Operações do Intelecto?

Que são as Operações do Intelecto?

As três formas pela qual obtemos conhecimento (através dos sentidos, pelo raciocínio e por testemunho) mostram-nos que não temos ideias inatas/congénitas.

Tudo o que sabemos, de alguma maneira, vem do exterior da nossa mente. Aristóteles, no seu ensaio “De anima” – “Sobre a Alma”, diz-nos que quando nascemos a mente é como uma folha de papel em branco – “tamquam tabula rasa” – como uma superfície limpa, na qual ainda ninguém escreveu nada.

As três formas como adquirimos conhecimento também nos mostram que tudo o que conhecemos, de alguma maneira, passa através dos nossos sentidos antes de chegar ao nosso intelecto. “Nihil est in intellectu, nisi prius fuerit in sensu”, diz-nos São Tomás de Aquino, seguindo as doutrinas de Aristóteles.

Agora deixem-nos examinar a nossa experiência para vermos como o nosso intelecto (ou mente) trata os dados que recebe.

Os lógicos, tipicamente, dividem as operações do intelecto em três: a apreensão simples, o julgamento e o raciocínio.

A apreensão simples é a forma pela qual um bebé aprende o que é uma maçã, depois de lhe terem mostrado o fruto (e talvez ter provado) em muitas ocasiões. Reconhece a maçã sempre que ele/ela vê uma maçã.

Do ponto de vista filosófico acontece o seguinte: os sentidos apercebem-se da maçã e formam uma imagem. Então o intelecto/mente actua (descodifica) sobre essa imagem e examina-a separando o que é essencial do que não é. O intelecto está interessado apenas em saber o que é a maçã. Digamos que o intelecto abstrai a essência da maçã da imagem. Assim, esta operação envolve abstração no seu primeiro passo.

Mas existe um segundo passo. Assim que o intelecto tenha abstraído a essência, produz, ou formula, uma ideia ou conceito, ou noção da maçã. São Tomás de Aquino chamou a este conceito de “verbum mentis” – “a palavra da mente” e usava-a para explicar a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade (a Palavra Divina).

No entanto, a “apreensão simples” não acaba aqui. Só poderemos dizer que o bebé na realidade sabe o que é uma maçã, se ele puder reconhecer correctamente uma maçã na próxima vez que vir uma. Se o bebé não puder associar a sua ideia/conceito/noção com o objecto real quando o vir, então ele ainda não o conhece. Este retorno aos casos específicos através de imagens é chamado de “conversio ad phantasmata” (“voltar para as imagens”).

Na vida do dia a dia encontramos muitas pessoas com bastantes ideias, sobre as quais falam amiúde. Mas se por vezes lhes perguntarem: “Poderia fornecer-nos um exemplo concreto de como fazer o que diz?”, não fornecerão nenhum. Eles não sabem do que estão a falar, não é verdade?

Deixem-nos passar à próxima operação: julgamento. Expressamos os conceitos por intermédio de palavras, mas não falamos com palavras soltas e desconexas. “Eu”, “Fome”, “Bolo”, “Saboroso”. A nossa mente liga os conceitos: “O bolo é saboroso”, “tenho fome” e assim por diante.

Com os conceitos fazemos julgamentos. Esta é a segunda operação do intelecto onde “afirmamos” ou “declinamos” (Aristóteles e São Tomás de Aquino também usaram os termos “compor” e “dividir”). Mas o intelecto vai mais longe. Também conecta dois julgamentos para formar um terceiro julgamento (a conclusão). Esta operação é chamada de raciocínio.

Quando raciocinamos verificamos algo de comum entre os dois julgamentos anteriores. Este elemento comum é chamado “meio termo”. É o meio termo que nos permite chegar a uma conclusão

Por exemplo: “Todos os humanos cometem erros. Sou humano, logo cometo erros”. Onde está o meio termo? “Humano”. Ele permite-nos ligar o “Eu” e “cometo erros”.

Deixem-nos terminar com um pequeno exercício de raciocínio: A mãe da Maria teve quatro filhos. O primeiro chamava-se Abril, o segundo Maio e o terceiro Junho. Qual era o nome da quarta criança?

Pe. José Mario Mandía

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