Cartas do Bornéu – 32

Totens e o basto dos daiaques

Totens e o basto dos daiaques

Povoam, aqui e ali, a área da aldeia cultural de Santubong, com lago ao centro, uns intrigantes toros de madeira totalmente esculpidos com figuras geométricas, ou de animais, que ao contrário dos seus imensamente coloridos contrapartes dos povos nativos do Canadá – os designados First Nation – primam pela ausência de cor. São tão escuros que à distância difícil se torna identificar as figuras neles esculpidas. Uma das razões de ser da sua existência é, afinal, e quem diria, de carácter funerário. Na realidade, o dito totem pode não passar de uma simples urna erigida no solo. Numa das salas dos vários museus de Kuching que visitei (já não me lembro qual) encontrei a explicação de como a coisa se passa. O corpo do falecido é colocado de cócoras com a cabeça e os braços amarrados às pernas e posteriormente enfiado num pote de cerâmica cuja parte superior foi previamente seccionada. Uma vez o corpo decomposto, os ossos são transferidos para um vaso de menor dimensão que é incorporado na parte superior do poste totémico. Só nessa altura ele é erguido no solo onde permanecerá a lembrar o indivíduo ali sepultado. É claro que no Bornéu, como noutras partes do mundo, estas esculturas podem também simbolizar ou comemorar crenças culturais que imortalizam lendas familiares, linhagens de clãs ou eventos extraordinários. Os postes totémicos também podem servir de sinal de boas-vindas para os visitantes da aldeia ou até como um método original para ridicularizar alguém. Incorporam frequentemente narrativas históricas com particular significado para as pessoas que os entalham e instalam. Os totens usados para ridicularizar alguém costumam ser chamados de “postes da vergonha”, e foram criados para envergonhar indivíduos ou grupos que tenham dívidas não pagas ou que tenham feito algo de errado. São frequentemente colocados em locais proeminentes e removidos após a dívida saldada ou o erro corrigido.

Ao fim da tarde, a culminar a visita à aldeia cultural, assisti a um espectáculo de dança e música que ficou, quanto a mim, bastante aquém das expectativas. Encerrou o dito cujo o habitual joget (de origem portuguesa, como já aqui tive oportunidade de dizer) e o convite ao público para que dançasse ao som do acordeão e da versão malaia do nosso cavaquinho. O momento alto de todo o espectáculo seria, porém, a dança de um iban com vistosas penas de diversas aves na cabeça e um escudo a preceito, movimentado zarabatanas e lanças, fazendo inclusive uns truques com elas.

No domínio recreativo puro e duro, além do museu etnográfico ao ar livre acabado de visitar, há ainda os aldeamentos turísticos de Damai e Permai Rainforest, o primeiro dos quais com sinais de alerta para a possibilidade de agueiros. Verdade seja dita, convidam mais as diferentes piscinas à disposição do que o mar propriamente dito que bate demasiado junto à pedregosa costa e me pareceu algo traiçoeiro. Também por aqui perto tem propriedades o rico sultão do Brunei. «– Toda essa extensão de terreno pertence-lhes», dizia, apontado com largos gestos para as copas dos coqueiros, o condutor da furgoneta que em permanência transportava os hóspedes da parte de baixo do aldeamento para a parte de cima onde os bangalós imitam as casas cónicas dos bidayuh, embora com todos os apetrechos asseguradores a esperada comodidade.

Como nota final recordo a visão de umas alminhas taoistas no meio da floresta, indício metafórico da omnipresença chinesa por estas paragens, e deixo o aviso de que os daiaques, como os habitantes das terras d’aquém Marão, têm também o seu basto. A barretina, os calções e as meias desportivas são idênticas à do de Refojos, concelho de Cabeceiras de Basto, só que no caso de Sarawak a construção é recente e não simples adenda a um torso de guerreiro lusitano, como tantos outras no norte de Portugal e Galiza, a quem os Setecentistas de 1621 gravaram uns dizeres no escudo, e os Novecentistas de 1891 colaram um rosto com bigodaça a condizer com a época. O “basto” de Kuching difere na sua postura militar, assim como no tipo de armamento utilizado. Sentado num elefante, como quem vai montado numa motocicleta, dispara uma arma de cano duplo, mais metralhadora do que espingarda, e acompanham-no indígenas com panos à volta da cintura. Não temos aqui o escudo proto-histórico dos homens de Viriato, antes um colorido colar tribal em redor do pescoço. Curiosamente, as cores são muito nossas. Predominam o vermelho, o verde e o amarelo nesta representação algo ingénua do bicho militar, o “basto” dos daiaques.

Uma última palavra para James Brooke, o rajá branco, ele próprio um estudioso (era um dos objectivos da sua viagem) que patrocinaria a vinda do naturalista Russel Wallace, co-autor da teoria da evolução das espécies. Ao aceitar o convite, Wallace elegia o arquipélago malaio para uma expedição que duraria oito anos e o consolidaria como um dos principais intelectuais e naturalistas vitorianos daquela época.

Joaquim Magalhães de Castro

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