Cartas do Bornéu – 30

Piões e sopa de ninhos-de-andorinha

Piões e sopa de ninhos-de-andorinha

Em Kuching, a dita “cidade dos gatos”, cabeça do Bornéu, o clima é quente e húmido e os duriões degustam-se no exterior e jamais dentro dos carros de aluguer, pois há um custo acrescido, para limpeza do veículo, aplicável aos prevaricadores. Embora pareça exigência exagerada, a verdade é que o odor desse fruto é de tal forma pungente que durante vários dias, semanas até, se mantém impregnado nos estofos, no tabliê e até na bagageira, sítio onde muito provavelmente o incauto condutor decidirá arrecadar tão espinhoso fruto pensando poder, desse modo, ver-se livre do pivete. Cientes da problemática, os negociantes de duriões de berma de estrada precavêm-se com mesas e bancos corridos para que os apreciadores, e são imensos nestes domínios malaios, possam deliciar-se, à sombra do arvoredo, que assim não incomodam terceiros, com esse nutritivo alimento considerado iguaria sem par.

A estrada rumo à península de Santubong, cujo cume se avista logo à saída de Kuching, é um verdadeiro deleite que a sombra de generosas árvores de copa larga prolonga. Além da praia e dos resorts ao alcance das famílias mais remediadas – bendigam as oportunas promoções! – a grande razão de ser de uma deslocação a tal paragem é a mui divulgada “aldeia cultural”, onde anualmente, e desde 1998, decorre o Rainforest Festival, evento de música do mundo inspirado na selva e nas matas tropicais.

A fórmula “aldeia cultural” é conhecida e há muitos anos aplicada no Norte da Europa. Bem me recordo das que visitei na Noruega e na Suécia, onde são comuns museus vivos do género, com artesãos e figurantes vestidos a preceito simulando “modus vivendus” de outras épocas.

Foram transferidas das várias regiões de Sarawak para uma luxuriante área no sopé de Santubong uma dezena e meia de casas típicas das diferentes tribos autóctones e, assim, nesse contexto e à primeira vista, até parecem genuínas. Enfim, foi o que se pôde arranjar. Quem quiser conhecer os domicílios dos antigos caçadores de cabeças no seu habitat natural terá mesmo de se infiltrar, e bem a fundo, no que ainda resta da selva. E a fazê-lo, terá de ser quanto antes, pois a desflorestação não conhece dia nem noite, fim-de-semana ou feriado.

Próxima daquilo que estamos habituados, a moradia malaia caracteriza-se pela robusta madeira de teca trabalhada e os recortes rendilhados dos telheiros e beirais. O exemplar de Santubong tem acoplado um recinto coberto destinado ao jogo do pião. Essa é ainda uma actividade masculina bastante popular nas aldeias da ilha indonésia de Sumbawa, por exemplo, onde novos e velhos disputam acesos campeonatos, passando dessa forma as tardes das sextas-feiras sagradas. Os piões malaios são muito mais achatados do que aqueles que conhecemos e o cordel é enrolado na parte superior do pião, e não junto ao bico, como é costume nosso.

Ali perto, enormes casas com várias janelas, todas de diminuta dimensão, assentam em toros de madeira que as elevam uns quatro ou cinco metros acima do solo. Acreditem, é coisa digna de se ver. Neles tradicionalmente viviam os melanus, povo de pescadores, plantadores de arroz e sagu, e construtores de barcos. Hoje, rendidos ao estilo de vida dos kampung malaios, residem em casas individuais e isoladas. Por causa da similaridade religiosa, a esmagadora maioria deles vive social e culturalmente como os restantes malaios. Mantêm, contudo, algumas das suas tradições. Uma delas, bizarra que seja, ordena que as crianças com cerca de um mês de idade durmam com as cabeças colocadas num dispositivo de madeira chamado tadal, cujo objectivo é aplanar as testas e, assim, tornar o rosto tão próximo quanto possível da forma da lua cheia.

A designada casa de campo chinesa, feita de pranchas de madeira pintadas de branco, lembra as dos colonos europeus em território ameríndio. Nas paredes exibem-se alfaias agrícolas, chapéus cónicos, cestos; no chão, cadeiras e seiras de verga, camas com mosquiteiro, berço baloiçante, jarras de porcelana; numa mesa repousam dois ábacos, um gira-discos e uma telefonia. A supervisionar tudo aquilo, o altar com a fruta e o incenso defronte a divindade. A um canto vemos um moinho manual de pedra destinado a moer os grãos de pimenta e também local apropriado para a preparação de ninhos-de-andorinha, produto culinário almejado entre as elites do Império do Meio desde os tempos mais remotos. Deparamos ainda hoje, em todo o arquipélago malaio e na Indonésia, com edifícios de cimento com pequenos orifícios feitos para atrair as andorinhas, da mesma maneira como são construídos os pombais, pois tal manjar é ainda muito requisitado para a mesa dos banquetes chineses. Esta especialidade culinária da China é um dos pratos mais caros do mundo, pois contém como principal ingrediente ninhos, com a forma e o tamanho de um orelha humana, de uma espécie de ave aparentada da andorinha feitos quase inteiramente com a sua saliva. O elevado preço deste produto (um quilo de ninho de andorinha chega atingir os dez mil dólares norte-americanos) deve-se ao facto de ser difícil a colecta – as aves nidificam em sítios altos e quase inacessíveis – e ser considerado como um afrodisíaco, integrando, por isso, a extensa lista de produtos de medicina tradicional chinesa.

Joaquim Magalhães de Castro

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