Cartas do Bornéu – 26

Vestígios coloniais

Vestígios coloniais

A acção do novo Governo de James Brooke veio inevitavelmente mexer com os padrões vigentes na miríade das diferentes comunidades que habitavam o extenso território, agora sob nova jurisdição. A imposição de condicionamentos ainda hoje se reflecte no tecido social. Caso flagrante, o encorajamento à emigração massiva de chineses para Sarawak, gente que logo tratou de abrir estabelecimentos comerciais junto aos fortes impactando profundamente a economia local assente na troca directa de produtos da selva. Enquanto isso, o Governo de Brooke tentava controlar a migração interna dos iban e quejandos, prática ancestral entre pares, fosse para escapar aos inimigos, fazer caçadas ou simplesmente encontrar novos terrenos para o seu sistema de cultivo de corte-e-queima. Como seria de esperar, essa tentativa de controlo foi muito mal recebido pelo líderes indígenas, destacando-se neste capítulo o já mencionado Libau Rentap.

Brooke também proibiu a prática do corte de cabeças, tarefa nada fácil de implementar e que teve um enorme impacto nos rituais funerários. Sem cabeças, as tribos ficavam impossibilitadas de completar o luto previsto, assim que criou-se o hábito de pedir emprestadas cabeças às comunidades vizinhas. Mais tarde, institui-se a prática de armazenamento das mesmas nos fortes onde podiam ser requisitadas e depois, cumprida a função, devolvidas, tal como se faz com os livros de uma biblioteca pública. Serão possivelmente algumas desses crânios que agora vemos expostos nos museus.

Apesar da intrusão, a governança de James Brooke e seus sucessores é entre os locais considerada como positiva e respeitadora dos usos e costumes da terra. Margherita Renee, mulher de Charles Brooke – sobrinho e sucessor de James, e dito “segundo rajá branco” – vestia-se como as malaias e convivia com as donas das famílias mais influentes. Várias foram as estratégias dos Brooke para serenar as tribos desavindas devido aos jogos de poder e ambições pessoais dos seus caciques, necessidade premente pois isso perturbava a tão desejada harmonia social. Em 1852, um dos membros do clã, capitão de patente, logrou juntar diferentes tribos para comutarem entre si potes de cerâmica e receberem do governador uma lança e uma bandeira de Sarawak com um pedido para que doravante ultrapassassem as suas diferenças. A estratégia mais eficaz dessas campanhas de pacificação foi, porém, a organização de regatas nas quais participavam diferentes tribos. O princípio era este: enquanto competiam no Sarawak e rios vizinhos, não se digladiavam. A verdade é que tal actividade, similar às corridas dos barcos-dragão, manteve-se até hoje em todo o Bornéu.

Na margem norte do rio Sarawak, bem conservado mas interdito ao comum dos mortais, o Palácio Astana, sede domiciliária do clã Brooke, datado de 1870, é hoje “palácio e residência particular” do chefe do Estado do Sarawak. Dado o sistema político rotativo da Malásia, é disso mesmo que se trata, apesar do Sarawak não ser independente. Mesmo ao lado, num enigmático edifício em forma de pára-sol dourado semi-aberto funciona o Parlamento, designado também como Centro Cívico. Uma plataforma faculta aos visitantes vista área sobre a cidade em frente e, no rés-do-chão, esteve instalado em tempos o planetário Sultan Iskandar, o primeiro erguido em solo malaio. Curiosamente nunca lá vi ninguém e mais me pareceu um desses “elefantes brancos” fantasmas. Dizem-me que ressuscitará após a conclusão da Ponte Dourada.

Na linha urbana fronteiriça ao rio destaca-se um imponente edifício neoclássico datado de 1871 e que além das funções judiciais – era o antigo tribunal – servia de palco às mais diversas cerimónias oficiais. Está transformado em espaço de cultura e restauração e no seu exterior adolescentes exercitam truques de skate e exprimem dotes artísticos. O tema predilecto são, é claro, os gatos, com direito a estatuária diversa um pouco por toda a cidade ou ao vivo e a cores em alguns recantos, menos comuns, contudo, do que seria de esperar. Apesar do calau ser o símbolo da província, a verdade é que Kuching pertence aos felinos. Aliás, o vocábulo “kuching”, em Malaio, significa “gato”.

Um memorial em frente da torre do relógio imortaliza as quatro principais etnias e, mesmo em frente, uma torre quadrangular com as armas dos Brooke: um escudo com cruz vermelha e preta sobre fundo amarelo encimado por um texugo. Data de 1879 e ali funcionou uma prisão, um salão de dança e é agora um restaurante. O que resta os estaleiros enferrujados da doca e o edifício de Sarawak Steamship, datado de 1930, ainda sem uso definido, são outros dos vestígios coloniais em contraste com a mesquita de cúpulas amareladas e o monumento em forma de lantaca-dragão de bocarra escancarada virado para o rio.

O longo domínio britânico no Bornéu, se bem que inicialmente de carácter privado, durou de 1842 até 1963, altura em que o Sarawak se juntou ao Sabá, à Malaia e a Singapura para formar o novel país Malásia.

Joaquim Magalhães de Castro

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