Bengala e o Reino do Dragão – 13

Os mercenários europeus

Os mercenários europeus

A presença de mercenários europeus entre as hostes dos exércitos asiáticos tem longo historial. Já aquando da histórica viagem de Vasco da Gama à Índia, em 1498, era assinalada a existência de militares italianos ao serviço de vários rajás da costa de Malabar. Consta até que dois dos tripulantes da frota do Gama, atraídos por salários mais apetitosos, acabaram por seguir o exemplo dos transalpinos. Pode dizer-se que a tradição mercenária europeia no Hindustão, que se perpetuaria ao longo de três séculos, terá começado com as deserções de soldados portugueses de Goa – habitualmente mal pagos, tendo de recorrer por vezes à ajuda alheia para sobreviver – atraídos pelas perspectivas de uma vida folgada alhures no continente onde a poligamia e a concubinagem não eram condenados.

Afirma o cronista João de Barros que, em 1565, existiriam pelo menos dois mil combatentes portugueses “nos exércitos de vários príncipes indianos”, muitos deles nativos de Goa, especializados sobretudo nos ramos da artilharia e da cavalaria. Concentravam-se esses mercenários nos exércitos dos sultanatos que controlavam grande parte da Índia Central e do Sul, o dito Decão. Um dos mais proeminentes era um tal de Gonçalo Vaz Coutinho, fidalgo e antigo terratenente em Goa, acusado de assassinato e preso, em 1542, antes de escapar para o sultanato Bijapur. Aí se converteu ao Islão com sua esposa e filhos, e foram-lhe dadas terras com grandes rendas por Ibrahim Adil Shah I (1534-1558). Doze anos antes também o artilheiro Sancho Pires, português de origem judaica, desertara em circunstâncias semelhantes, mas para o sultanato de Ahmednagar. Pires converteu-se ao Islamismo e adoptou o nome Firanghi Khan, e viria a aquisição de uma posição de grande influência na corte de Nizam Shahi.

Durante o reinado do imperador Shah Jahan (1628-1658), era tal a quantidade de europeus ao seu serviço que um subúrbio de Deli lhes foi reservado. Denominava-se Firingipura, ou seja, “Cidade dos Estrangeiros”, e entre os seus habitantes havia não só portugueses, mas também franceses e ingleses, muitos deles convertidos ao Islão. Constituíam um regimento especial sob o comando de Farrashish Khan, alegadamente de nacionalidade francesa.

No final do século XVI e ao longo do XVII o poder mogol foi-se desmoronando e outras potências emergiram, com particular destaque para a chefatura marata. O facto provocou a chegada de nova remessa de mercenários de diferentes origens em busca de bom emprego na Índia. E se muitos havia com larga experiência no ofício, como era o caso dos povos do centro da Europa, outros fizeram-se soldados da fortuna no terreno e por força das circunstâncias. Houve quem conseguisse ascendente capaz de os catapultar para os mais altos postos do poder e muitos foram mesmo senhores com poder de vida e morte sobre os seus súbditos. Sabe-se que o imperador marata Shivaji (1674-1680) empregava inúmeros portugueses e centenas de católicos goeses e indianos na sua marinha, apesar da insistência das autoridades coloniais portuguesas para que estes abandonassem a actividade. Quando os mogóis, fragilizados, se queixaram ao vice-rei António de Melo e Castro a respeito dos soldados portugueses ao serviço dos maratas, este respondeu-lhes que não tinha controlo sobre os oficiais cristãos portugueses e nativos do exército de Shivaji, tal como não tinha controlo sobre outros tantos que serviam no exército mogol ou noutros quaisquer.

Muitos britânicos desertaram para o serviço dos mongóis e sultanatos do Decão ao longo do século XVII. Cite-se aqui Josue Blackwell, um oficial que em 1649 se converteu ao Islamismo e assumiu o serviço no exército mogol, e o cornetista Robert Trulleye, que serviu nos sultanatos de Bijapur e Golconda. Só em 1654, em Surrate, assiste-se a uma deserção em massa de 23 funcionários da Companhia Britânica das Índias Orientais. Na década de 1670 as autoridades britânicas descobririam uma rede activa de agentes de recrutamento secreto em Bombaim. Nos anos 1680 as crescentes deserções de soldados britânicos e funcionários da Companhia East India levou Carlos II a emitir uma “ordem de chamada” a todos os ingleses ao serviço dos príncipes indianos.

O imperador mogol Shah Alam II (1759-1806), por exemplo, concederia ao mercenário alemão Walter Reinhardt Sombre uma grande propriedade na Doab, norte de Deli, onde este se instalaria com a mulher Farzana Zeb un-Nissa (conhecida como Begum Samru) e fez de Sardhana (hoje Baghpat, no Uttar Pradesh) a sua capital. A classe dominante desse principado formar-se-ia a partir de uma variedade de nobres mogóis e duas centenas de mercenários franceses e da Europa Central, muitos dos quais recentemente islamizados. Após a morte de Sombre a mulher assumiu o comando das tropas e proclamou-se governadora de Sardhana, sendo assim a única dirigente católica romana de toda a Índia. Entre estes mercenários constava John-Augustus Gottlieb Cohen, um judeu alemão pai de Farasu, poeta de língua urdu.

No decorrer da rebelião indígena de 1857 contra o domínio britânico, um convertido ao Islão, súbdito de sua majestade, chamado Abdullah Beg, destacar-se-ia, em Deli, de forma particularmente activa.

Joaquim Magalhães de Castro

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