Bengala e o Reino do Dragão – 12

Portugueses “filhos de Indos”

Portugueses “filhos de Indos”

No dia seguinte, e antes de partir para Cooch Behar, mais uma vez no pergunta-a-este-e-no-pergunta-aquele em busca de um templo em Pandu que acabamos por não conseguir encontrar, vimo-nos de novo junto ao Bramaputra, desta feita mesmo em frente da ilha fluvial, possivelmente no preciso local onde embarcaram os padres. É Domingo e o rio serve de banheira a famílias inteiras. Uma longa vara de bambu presa na lama segura uma embarcação e faz a vez de remo quando esta se põe em marcha. Manobra o leme com a perna direita o piloto-capitão, enquanto fala ao telemóvel. Muito descontraidamente.

De Guwahati a Cooch Behar é todo um mundo rural que se revela, visto do pára-brisas e das janelas laterais do Kia alugado. Sucedem-se pequenas aldeias e campos de cultivo com medas de palha, iguaizinhas às das aldeias portuguesas. Sempre que cruzamos pontes, apercebemo-nos de que o rio em baixo serve de local de banho aos aldeões – as mulheres mais velhas, por exemplo, não têm qualquer pejo em mostrar os seios – além de servir de recreio aos miúdos. Nas partes do leito semi-secas, representações de esferovite de Kali (ofertas feitas ao rio) repousam em paletes de madeira (pequenos andores?), quais destroços de uma batalha. Trazem-me à memória uma das cenas mais marcantes do “Tempo dos Ciganos”, obra de referência do cineasta bósnio Emir Kusturica.

Numa das paragens para esticar as pernas travo conversa com três indivíduos, um deles com distinta fisionomia europeia, e pergunto-lhes se há por ali “firingis”. Reagem a um só rosto, misto de admiração e repulsa, o que me deixa estupefacto. Só mais tarde virei a saber que esse termo – muito comum desde o século XVI em todo o Sudeste Asiático, com as variantes “farang”, “ferringhi” ou “bayingyi”, consoante os países, e que significa “franco”, ou seja, “português” – tem actualmente um sentido pejorativo, daí que ninguém aceite ser identificado como tal. Por ora nada há que ligue esta gente aos portugueses.

Aqui e em tantos outros locais do planeta, Portugal mantém-se sinónimo de Cristiano Ronaldo. Só e tão só isso. E, no entanto… entre os vários “enclaves da portugalidade” do Nordeste da Índia, constam Rangamati e Goalpara, nas margens do Bramaputra e antiga fronteira bengalesa do Império Mogol. Localizo no mapa a última, mas não a primeira. Ou melhor, localizo-a não uma, mas meia dúzia de vezes. Todas em sítios diferentes e em nenhum dos casos nas proximidades do imponente rio. Concluo que Rangamati é nome bastante comum no Bengala. Tanto Goalpara como Rangamati (a que nos interessa) têm origem em colónias fundadas por mercenários portugueses, sendo os seus descendentes conhecidos, entre si, como “Filhos de Indos”, e, entre os indianos, como firingis. Nas gerações mais recentes o termo “firingi” aplica-se também a gente de extracção local convertida ao Cristianismo. Como lembra o orientalista escocês Henry Yule, o termo “firingi” ou “firinghee”, “quando empregado pelos nativos da Índia, aplica-se a todos os portugueses nascidos na Índia, ou, se usado para designar europeus em geral, traduz alguma forma de hostilidade ou depreciação”.

Como já aqui lembrámos, os primeiros portugueses a demandar o litoral oeste, sul e leste da Índia tinham como principal objectivo a actividade comercial e muito cedo se imiscuíram nas sociedades locais. Outros houve, também em grande número, que se embrenharam pelo interior do subcontinente, sobretudo nas regiões norte, oferecendo os seus serviços como homens de armas, tendo como especialização a artilharia. Curiosamente, os primeiros registos de viajantes que visitaram a fronteira do Império Mogol com a província de Assam não nos dão conta da presença de firingis entre as hostes imperiais. Tanto Ralph Fitch, um inglês que, em 1586, residiu durante algum tempo em Cooch Behar, como os nossos Estêvão Cacela e João Cabral, que atravessaram o Assam em 1626, não mencionam a existência de cristãos ou de comunidades portuguesas além da fronteira estabelecida pelos mogóis. O facto de não ser mencionado não quer dizer que não exista. Comprova esta premissa a notícia, com a data de 1635, da prisão de um soldado firingi, que, ao tentar caçar aves de rapina, entrara inadvertidamente em território Ahom (nativos de Assam e inimigos dos mogóis). E nada mais se soube acerca do seu paradeiro.

Na verdade, como nota o historiador lusófilo Edward Maclagan, na sua obra de referência “Os Jesuítas e o Grande Mogol”, os portugueses encontravam-se ao serviço do exército mogol desde a época do imperador Akbar. Na chegada à capital Fatehpur Sikri, em 1580, os padres da Companhia encontraram portugueses que aí residiam com as respectivas famílias há décadas. Mais tarde, em 1624, seriam contabilizados mais de duas centenas de compatriotas nossos no exército com o qual Shah Jahan se rebelou contra o bem mais tolerante pai, o imperador Jahangir, de seu nome Mirza Nur-ud-din Beig Mohammad Khan Salim, o filho mais velho e herdeiro da grandiloquente postura de Akbar.

Joaquim Magalhães de Castro

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *