Bengala e o Reino do Dragão – 1

De Cochim a Bengala

De Cochim a Bengala

Pequena e enigmática monarquia budista, o Butão emerge como entidade política e social no início do século XVII, numa altura em que os jesuítas portugueses devassavam faldas, vales e cumes da cadeia dos Himalaias em busca de rotas que os conduzissem ao mítico Cataio onde esperavam encontrar irmãos na fé, tresmalhados da ortodoxia de Roma, é certo, mas possíveis aliados na resistência e luta contra os muçulmanos, eternos rivais e indomável travão ao esforço luso de hegemonia política, religiosa e mercantil na Ásia.

Originários da missão jesuíta do Cochim, ao contrário dos restantes “descobridores do Tibete”, sedeados em Goa (e, numa fase posterior, em Agra), os padres Estêvão Cacela e João Cabral partiram dessa cidade, em 1626, rumo ao Golfo de Bengala, entusiasmados pelo sucesso da jornada efectuada dois anos antes à inóspita região de Ngari, no Tibete Central, pelo padre António de Andrade e o irmão Manuel Marques. Em Tsaparang, capital do antigo reino de Guge, estes religiosos estabeleceriam a primeira missão católica no Tibete que perduraria até 1635, tendo sido mesmo construída uma igreja no local. Nos anos subsequentes, muitos outros jesuítas desvendariam novos e arrojados trilhos nas montanhas e planaltos do inóspito e desconhecido “Tecto do Mundo”.

Estêvão Cacela e João Cabral foram os primeiros europeus a visitar o Butão e, ao longo de oito meses, hóspedes do seu primeiro soberano: o monge-guerreiro Shabdrung Ngawang Namgyal, líder espiritual da seita Drukpa, “seita do barrete vermelho”, rival e em dissonância com a Gelugpa, “seita do barrete amarelo”, hoje mundialmente conhecida devido ao carisma do actual líder espiritual Dalai Lama.

Embora fosse natural de Ralung, no Tibete Central, Shabdrung refugiou-se na região montanhosa do Butão e aí resistiu contra a desejada hegemonia dos seus rivais, entre os quais Demba Cemba, “rei do Utsang”, irmão do sexto Dalai Lama, tendo conseguido repelir sucessivas tentativas de invasão. Graças a esse acto de resistência, o Butão afirmar-se-ia, desde então, como um reino independente. Cacela e Cabral não só foram testemunhas presenciais, como também intervenientes num decisivo e muito conturbado período histórico. As cartas que nos legaram constituem o primeiro olhar ocidental acerca de um povo e uma região até então completamente desconhecidos no mundo ocidental.

A introdução do Budismo naquelas remotas montanhas é, contudo, atribuída ao guru Padmasambhava, mais conhecido como guru Rinpoche, um monge budista originário do noroeste da Índia, que ali esteve no século VIII. Dois séculos mais tarde, a região seria invadida por hordas tibetanas que tinham como objectivo o saque mas que acabariam por ficar rendidas aos seus encantos, decidindo estabelecer-se por lá. Eram denominados “milogos”, ou seja, “aqueles que não regressam”. A partir do século XII foi a vez da chegada de inúmeros monges da seita Drukpa, que ali vinham missionar ou ali se refugiavam com receio da seita rival, dominante no Tibete Central. A verdade é que ambos, Drukpas e Gelugpas, enviavam os seus missionários, tendo, no final, predominado os do barrete vermelho. No fim do século XII, ao construir a pequena fortaleza de Dingon Dzong nas margens do rio Wang Chu o jovem lama Shigpo estabelece simbolicamente “a igreja do Butão” como a conhecemos actualmente.

Durante três séculos a seita do barrete vermelho consolidaria o poder derrotando os seus rivais, assistindo-se então a um período de intensa construção de templos e dzongs (mosteiros-fortalezas) que concederiam ao Butão os seus traços mais distintivos, mas não lograriam a unidade dos butaneses. Conseguira-a Shabdrung Ngawang Namgyal, monge de origem nobre que desde a infância revelara aptidões fora do habitual, e cuja acção poria fim a décadas de lutas fratricidas. Uma vez estabelecido no poder como um verdadeiro monarca teocrático, Shabdrung teve de medir forças com o inimigo por diversas ocasiões, fosse com os rivais tibetanos de Ralung, fosse com as forças tibetano-mongóis de Ghus Khan, tendo destes, após vitória contundente, recolhido valioso espólio. A sua fama espalhar-se-ia pela Índia, pelo Nepal e pelo reino tibetano do Ladakh, que logo lhe enviariam embaixadores com presentes, tendo o último permanecido seu aliado na guerra travada contra o Tibete Ocidental.

Era este o contexto político na altura em que Estêvão Cacela e João Cabral chegaram ao Butão, em Fevereiro de 1627. Mas antes da sua aproximação aos Himalaias estes dois bravos jesuítas tinham estado a preparar a sua viagem em pleno coração da província de Bengala, na velha Hoogli, meia centena de quilómetros a norte de Calcutá, onde permaneceram durante seis meses. O objectivo era chegar ao Tibete Central, mas para isso havia que enfrentar as montanhas do reino do Butão. Oito meses depois, após duas muito sofridas viagens – intercaladas por uma longa e privilegiada permanência no reino butanês – Cacela atingiria Shigatse. Cabral chegaria uns meses depois. Em Shigatse, à semelhança do que antes fizera António de Andrade em Tsaparang, os jesuítas fundaram uma missão jesuíta. Estêvão Cacela era alentejano, nascido em Avis, em 1585; João Cabral era beirão, nascido em Celorico da Beira, em 1599. É a sua saga que iremos acompanhar ao longo dos próximos meses.

Joaquim Magalhães de Castro

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