Aniversários, Encontros e Romarias

Somos feitos de tradições

Somos feitos de tradições

Os anos que vivi fora de Portugal, mais concretamente desde 1997, e os outros que mesmo estando em Portugal vivi fora da casa onde cresci (desde os meus 16 anos), fizeram com que perdesse muitos dos momentos familiares mais importantes.

Especialmente desde que me fixei em Macau, em Maio de 1997, os pequenos acontecimentos familiares que os meus pais iam vivendo deixaram de fazer parte do meu dia-a-dia. Agora, com este regresso a Portugal, tenho tido a oportunidade de compensar algum tempo perdido.

É verdade que o tempo não dá tréguas; todos ficamos mais velhos e as memórias vão-se dissipando, se não as formos alimentando. Aliás, acredito piamente que é essa uma das maiores razões que leva todos os emigrantes a regressar à sua terra natal: matar saudades e reviver memórias antigas. Passa-se com os portugueses que vivem longe e com os macaenses e chineses que vivem fora da terra que os viu nascer. «Regressamos para matar saudades», dizem-no muitas vezes.

Perdi a conta aos aniversários dos meus pais e do meu irmão em que estive ausente ao longo dos anos que vivi e estudei fora. Desde Setembro de 2016 ainda não perdi nenhum!

Mas não são só estas efemérides que contam para mim. São todos os outros eventos e acontecimentos que em qualquer família passam a ser tradição. Na minha é o ir a Fátima todos os dias 13 de Maio, ou comer leitão às quartas-feiras. São estas e outras pequenas coisas que fazem cada família única.

Na minha – desde que me lembro – existe um enorme orgulho por o meu pai ter sido enfermeiro militar em Nampula (Moçambique). Quando eu era criança o pai andava de casa em casa a dar injecções a pessoas doentes. Não tinham dinheiro, nem meios, para irem ao hospital ou ao centro de saúde. Os meses que passou como enfermeiro militar deixaram uma marca que só a morte irá apagar. Se a vida tivesse sido mais condescendente, o pai teria mudado tudo para viver em Moçambique. Infelizmente, tal assim não aconteceu, mas nem por isso diminuiu o seu apego a essa terra, às memórias dos tempos de tropa e às amizades que ali fez.

Tem amigos que lá ficaram e que no início do século XXI teve a oportunidade de visitar durante uma romagem de saudade com amigos ex-combatentes. Mais tarde, no meu último ano em Macau, tive a felicidade de ir em missão de serviço a Moçambique e conheci algumas dessas pessoas. Sabia apenas os seus nomes, mas ao mesmo tempo parecia conhecê-las tão bem que tinha dificuldade em discernir se eram meus amigos ou do meu pai.

Desses tempos, porque todos têm as mesmas necessidades, surgiu um encontro anual que se repete há quase trinta anos. Reúne ex-militares, e as respectivas famílias, que passaram por Nampula, mais concretamente a companhia que foi destacada para o Hospital Militar de Nampula, onde o meu pai exerceu o cargo de enfermeiro.

Estes encontros, em que me lembro de participar enquanto jovem, realizam-se todos os anos em locais diferentes de norte a sul do País. É uma viagem ao passado que todos partilham.

Desde a minha ida para Macau que deixei de participar nesses encontros, mas este ano (por motivos de saúde não foi possível em 2017) foi com agrado que vi o pai feliz em reencontrar camaradas de tropa. É sempre rejuvenescedor ver pessoas de idade a divertirem-se e com um sorriso de felicidade na cara. A mim enche-me a alma.

O encontro deste ano realizou-se em Peniche, uma vila piscatória no Centro de Portugal que muito gosto de visitar. Ali tenho alguns amigos ligados aos barcos e aprecio a gastronomia. Aproveitámos para ir no dia anterior e jantámos num restaurante junto ao Forte de Peniche, que já conhecia de outras visitas. Dormimos na autocaravana e no dia seguinte, com o corpo descansado depois de uma boa noite de sono, fomos ao encontro dos outros participantes do encontro anual. Foi um dia inteiro de conversa e risada entre pessoas de todas as idades.

Agora, com Maio a chegar, espero ansiosamente pela outra data que o pai e a mãe sempre respeitam: a ida a Fátima no dia 13 de Maio. Será mais uma romaria em que eles, eu, a minha mulher e a nossa filha, iremos participar de coração cheio.

Eu e a minha mulher iremos caminhar até Fátima para pagar a promessa que fiz a Nossa Senhora: sempre que esteja em Portugal, e que a saúde me permita, irei a pé a Fátima uma vez por ano.

É a segunda vez que a NaE me acompanha nesta caminhada. No entanto, porque ainda recupera do cancro que a afectou, iremos cumprir o percurso por etapas vindo descansar a casa. A ideia é caminharmos apenas um dia por semana para que, desta forma, ela possa recuperar e restabelecer forças. São mais de cem quilómetros entre a Vila de Mira e o Santuário de Fátima. Rera geral demoramos três dias a completar a distância. Se forem quatro ou cinco não importa.

Também em Maio haverá outro evento que é sempre assinalado na nossa família: o Dia da Mãe. No ano passado, infelizmente, a NaE não teve a oportunidade de participar (foi o primeiro Dia da Mãe em Portugal que a nossa filha viveu na escola) porque estava no hospital. Estando agora de boa saúde, irá participar na actividade que a escola sempre prepara para esta ocasião. Em casa iremos também assinalar a data porque as mães são duas.

João Santos Gomes

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *