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FALECEU MARIA PIA CANTIERI (1934-2010)

Irmã obreira

A Igreja Católica na Malásia quer continuar a traduzir a palavra «Deus» por «Alá». Mas o Governo daquele país muçulmano mostra-se desfavorável, alegando tratar-se de um termo exclusivo da comunidade islâmica. O caso já chegou aos tribunais, estando agora dependente da decisão dos juízes. O director-executivo do maior jornal católico local, o padre Lawrence Andrew, diz estarmos perante uma «falsa questão», pois, já no antigo Sultanato de Malaca, «Deus» era «Alá» e vice-versa. Provas históricas que o Estado não aceita.

 

FALECEU no passado dia 24 de Novembro, aos 76 anos de idade, a irmã Maria Pia Cantieri, fundadora do Centro Diocesano dos Meios de Comunicação Social (CDMCS) e mentora de vários projectos de ajuda social na China continental.

Natural de Verona (Itália), a irmã Maria Pia trabalhou em Taiwan, tendo chegado a Macau em 1975. Para além de ser a figura de referência do CDMCS, dedicou-se ao combate à lepra na China, ao mesmo tempo que liderou projectos de assistência às vítimas da doença, principalmente nas áreas da saúde e da educação.

A criação do CDMCS acontece após uma deslocação do então bispo de Macau, D. Arquimínio da Costa, a Tóquio, em 1974, onde participou numa reunião sobre o futuro dos Órgãos de Comunicação Social (OCS) na Ásia. Nesse encontro definiram-se algumas linhas de acção, que foram posteriormente adoptadas por cada diocese, dentro das suas capacidades logísticas e financeiras.

A chegada ao território da irmã Maria Pia e o empenho do padre Américo Casado foram a chave para a concretização das referidas linhas de acção em Macau, cujo resultado foi a criação, em 1975, do CDMCS, também conhecido por Centro de Comunicação «Shalom».

A rádio foi a primeira aposta dos mentores do projecto. Foram montados dois estúdios, sendo produzidos diariamente programas em português e chinês, cuja transmissão era feita em cadeia com rádios de Macau, Hong Kong e da China continental.

Em 1982, a irmã Maria Pia decide remodelar a sala de cinema da diocese, – construída em 1971 com o auxílio financeiro dos cristãos americanos, – reabrindo ao público com um novo nome: Cineteatro de Macau.

Dois anos mais tarde, em 1983, era inaugurado o vídeo-clube «Shalom» e, em 1985, o CDMCS estreava-se na produção de programas televisivos e de outros formatos audiovisuais.

Como prova do reconhecimento do Governo pelo trabalho efectuado pelo Centro, este foi convidado a integrar a Comissão de Classificação de Espectáculos.

A par da rádio, do cinema e da televisão/vídeo, eram publicados regularmente pequenos impressos de carácter pastoral e litúrgico.

Leprosos

Os programas de rádio produzidos pelo Centro Diocesano dos Meios de Comunicação Social eram difundidos num raio de cem quilómetros à volta de Macau.

Em resposta ao desejo de uns quantos ouvintes católicos da China, a irmã Maria Pia e outras pessoas ligadas ao Centro organizaram uma viagem ao continente, com o objectivo de os visitar.

Após um longo e atribulado percurso, por terra e por mar, finalmente chegaram ao destino: uma leprosaria situada numa ilha. Há 45 anos que ninguém visitava os seus habitantes.

Esta experiência tocou o íntimo da irmã Maria Pia, que decidiu deitar mãos à obra e ajudar aqueles e outros leprosos na China.

Feita uma avaliação das necessidades, o CDMCS recorreu à boa vontade do Centro Raoul Fullereau de Bolonha (Itália), que viria a enviar uma delegação à China para um primeiro contacto com o Governo da província de Cantão.

Não foi preciso esperar muito tempo para que fossem enviados de Itália medicamentos, microscópios e até ambulâncias. Aos médicos locais foram oferecidas motocicletas, com o objectivo de facilitar as deslocações às aldeias e vilas mais recônditas.

A pedido do Centro Raoul Fullereau, o CDMCS passou a colaborar com a Associação AIFO, que ficou encarregue de supervisionar no terreno se as ajudas provenientes de Itália estavam, de facto, a ser aplicadas.

Apesar de todos os avanços conseguidos, a irmã Maria Pia sentia que ainda havia muito por fazer. É então que recorre de novo ao Centro Raoul Fullereau e juntamente com a Caritas de Macau constrói e inaugura três novas leprosarias na província de Cantão: Wai Chau, Kung Meng e Sio Kwan (esta última considerada uma referência para toda a China).

Praticamente resolvidos os problemas mais prementes em Cantão, o espírito empreendedor da irmã Maria Pia levou-a à província de Yunnan, onde conseguiu que fossem construídas escolas para os filhos dos leprosos.

Sobre uma das deslocações que efectuou a Yunnan a irmã detalha com precisão algumas experiências, num relatório por ela redigido: «Em Agosto fomos a Yunnan visitar outras leprosarias e, sobretudo, para ver com os nossos próprios olhos as primeiras escolas e como tinham sido usados os fundos enviados para essa finalidade. Atravessámos montes e vales, rios e ribeiros que corriam sorridentes com uma água cor de café-leite. As estradas eram ensombradas por filas de árvores, cujo nome procurávamos decifrar. Nos socalcos dos montes era cultivado o milho», relata, acrescentando a determinado momento: «As leprosarias encontram-se no meio dos montes. Por isso, em certas ocasiões, era preciso descer do nosso pequeno autocarro e prosseguir a pé por vias e caminhos cheios de lama. Nem o bastão de apoio, por vezes, era suficiente para caminhar sem perigo de cair no meio daquele lamaçal avermelhado».

Durante os anos que esteve radicada em Macau, a irmã Maria Pia realizou ainda algumas viagens missionárias ao continente, sendo de destacar, por exemplo, o encontro que manteve, em 1999, com D. Liu Yuan Ren, bispo de Nanquim, presidente da Conferência Episcopal da China e reitor do Seminário Maior de Pequim, numa deslocação à capital chinesa.

Em 2003 deixa Macau, rumo a Abrantes (Portugal), onde funda a «Domus Mundi», «um espaço de acolhimento em ambiente familiar, aberto a todos os que esperam e procuram uma oportunidade de reflexão, de descanso e de relaxamento».

BREVE CRONOLOGIA

1934 – Nasce em Verona (Itália) no dia 19 de Outubro.
1965 – Exerce actividade em Taiwan.
1975 – Chega a Macau e funda o Centro Diocesano dos Meios de Comunicação Social.
2003 – Deixa Macau no dia 11 de Maio. Em Junho funda a «Domus Mundi» na cidade de Abrantes (Portugal), onde fica a residir.
2010 – Falece, aos 76 anos de idade, em Abrantes, no dia 24 de Novembro.

JOSÉ MIGUEL ENCARNAÇÃO em Kuala Lumpur (Malásia)

 

IGREJA EM MALACA CUIDA DE ÓRFÃOS TIMORENSES

Pais de verdade

OS médicos do Exército da Malásia acolherem 16 órfãos em Timor-Leste, há cerca de três anos, tendo-os enviado para o seu país.

Actualmente com idades compreendidas entre os 17 e os 24 anos, vivem todos em Malaca, sendo acompanhados nas várias vertentes da formação humana pela igreja de São Pedro, com o consentimento da Diocese de Malaca-Johor.

No que respeita ao alojamento e à educação, os seus tutores recebem um forte apoio de Datin Paduka Marina Mahathir, filha do quarto primeiro-ministro da Malásia, Tun Mahathir Mohammad. É escritora e activista.

Entre eles, há quem esteja a estudar no liceu ou na universidade e quem já exerça uma profissão. A maioria das opiniões ouvidas pel’O CLARIM considera que muito dificilmente venham a regressar a Timor-Leste, uma vez que se sentem em casa, pois são acarinhados por todos os malaqueiros.

No passado dia 16 de Novembro, durante o espectáculo comemorativo dos trezentos anos da igreja de São Pedro, os jovens timorenses deram um ar da sua graça, cantando em coro uma canção em tétum. Todos envergavam uma «t-shirt» com o desenho da bandeira de Timor-Leste, pormenor que chamou a atenção da plateia.

Uma vez por mês é celebrada missa na referida igreja em bahasa malaio, – língua algo semelhante ao bahasa indonésio, – desde que o grupo de 16 órfãos chegou a Malaca. O inglês é o idioma normalmente utilizado, havendo, também uma vez por mês, missa falada em mandarim.

Na cidade que outrora pertenceu à Coroa Portuguesa vivem povos de todas as proveniências, sendo que frequentam diferentes igrejas. Enquanto a paróquia de São Pedro é mais procurada pelos naturais da terra – descendentes de indianos, de chineses e até de portugueses, entre outros – e pela comunidade indonésia, a igreja de São Francisco Xavier nutre a preferência dos vietnamitas, dos nepaleses, dos bangladeshianos e dos birmaneses.

 

J.M.E.

 


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