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REVELADO O «MISTÉRIO» DAS RUÍNAS DE SÃO PAULO |
Mapa para o Mundo Divino |
Cerca de doze anos volvidos de muitas viagens, conversas, estudos e pesquisas, Louis Berchier lança no próximo dia 28 (quarta-feira) o guia «Os Mistérios da Fachada MATER DEI em Macau», onde procura explicar os sinais presentes no frontispício da antiga igreja de Nossa Senhora Mãe de Deus, desde o traço arquitectónico às imagens, passando pelos diferentes motivos esculpidos nas pedras de granito. Para o autor, o mais importante da fachada – razão da sua existência – é precisamente «a Mensagem» que pretende transmitir a quem a visita. Qual o seu significado? Fomos descobri-lo. O anjo do brinco «Um dia, estávamos então no Outono de 1994, pus-me a observar, cuidadosamente, uma por uma, todas as imagens esculpidas na pedra, com a ajuda de uns binóculos. Foi então que fiz uma descoberta verdadeiramente insólita: o anjo da direita tinha um brinco na orelha! Foi o despertar...». Este pequeno excerto do guia marca o início da caminhada trilhada por Berchier até à descoberta da «Mensagem», que irá ser agora revelada ao mundo. Segundo explicou a’O CLARIM, «o anjo do brinco simboliza o conhecimento do segredo da construção dos templos», ideia reforçada pelo facto de «segurar uma Coluna do Templo». À frente deste anjo está esculpido outro, cuja função é «proteger cuidadosamente a Cruz, um dos símbolos do cristianismo». Ambos têm os pés colocados em forma de triângulo, à semelhança dos Guardas Suíços do Vaticano. Daí serem considerados os «guardiões do templo». Embora se tivesse começado a interessar pelas Ruínas de São Paulo no princípio dos anos 90, só em 1999 Louis Berchier conseguiu dedicar-se a tempo inteiro ao estudo do monumento. Ainda assim, mesmo durante o período em que esteve afastado de Macau, procurou sempre conhecer mais e mais sobre a Idade Média, principalmente no que respeitava à história, aos monumentos, à arquitectura e aos construtores daquela época. O trabalho de pesquisa havia, pois, de continuar em Macau, mas sempre com os olhos postos na Europa, tendo viajado pela Alemanha, Suíça, França, Espanha, Portugal e pela Itália. A este propósito, lembrou: «Sempre que visitava capelas e igrejas – os jesuítas não construíram catedrais – perguntava a padres ou missionários o significado de algumas esculturas. Algumas vezes sabiam, mas na maioria dos casos não sabiam. Tinha então de pesquisar em livros relacionados com o catolicismo». Hoje, terminado o guia, tem a «consciência tranquila»quanto ao trabalho efectuado, admitindo, no entanto, que «haja outras interpretações». Monumento à Contra-Reforma A Companhia de Jesus, fundada por Santo Inácio de Loyola em 1537, surgiu, entre outros objectivos, como resposta à Reforma Protestante. Um ano antes, as ideias calvinistas haviam conseguido triunfar no centro da Europa, que começava a dividir-se entre católicos e protestantes. Os jesuítas decidiram então evangelizar os chamados territórios virgens, – regiões sem quaisquer marcas do cristianismo – seguindo com os navegadores portugueses e espanhóis para as novas possessões ultramarinas. Dada a sua localização geográfica, Macau viria a tornar-se o local mais importante para a Companhia de Jesus na Ásia, uma das razões porque os holandeses (protestantes) tentaram invadir Macau, entre finais do século XVI e inícios do século XVII, embora sem sucesso. E foi por o território se manter impenetrável que os jesuítas decidiram erguer a «igreja mais bela, depois da basílica de São Pedro em Roma», precisamente a igreja da «MATER DEI». Primeiro foram erguidas as paredes das traseiras e dos lados da igreja e, só depois, foi construída a fachada. Um dos lados mais visíveis da Reforma Protestante foi a abolição de determinados símbolos e tradições da Igreja Católica, sendo os mais significativos o altar (representa a celebração eucarística), as imagens, o culto à Virgem Maria, a presença do Espírito de Deus no altar (na fachada representada pela escultura da pomba que pousa sobre a hóstia) e, por último, a inevitabilidade do homem alterar o próprio destino. Curiosamente, estes são alguns dos símbolos e tradições inscritos nas Ruínas de São Paulo, que – no entender de Louis Berchier – tornam o monumento o «maior símbolo da Contra-Reforma em todo o mundo». O ícone Louis Berchier conduziu O CLARIM à «descoberta» das Ruínas de São Paulo. O ponto de encontro: o primeiro degrau da longa escadaria que conduz à porta da igreja. «Quando comecei a estudar a fachada tirei inúmeras fotografias de vários ângulos e medi o monumento com o auxílio de outras pessoas. Logo aí cheguei à conclusão que o conjunto das escadas com os dois primeiros níveis da fachada forma um quadrado perfeito, representando o mundo terreno», começou por recordar, acrescentando: «Já o topo da fachada tem o formato de um triângulo – o Mundo Divino. Daí a colocação de uma estátua de Jesus ainda Menino, ladeado de motivos alusivos à Paixão de Cristo». Chegados ao último patamar, de olhos voltados para o céu, Berchier continuou a descrição: «Entre o quadrado e o triângulo está o nível intermédio. No seu centro está uma estátua da Virgem Maria, rodeada por seis anjos. Na base deste nível, um longo friso horizontal representa o altar». Do lado esquerdo está a imagem da pomba que pousa sobre a hóstia e um cálice, enquanto, do lado direito, está a morte – o fim do pecado e a passagem das almas para o Mundo Divino. Louis Berchier atribui grande importância a este nível, pois considera que destrói o princípio defendido pelo movimento protestante de que o homem nasce pré-destinado: «O homem é livre, mas terá de se esforçar para alcançar a Deus» – ideia subjacente na fachada através de vários motivos decorativos. Por exemplo, – continuou, em jeito de conclusão – «a presença da estátua da Virgem Maria – a maior de todas – simboliza a ajuda de que o homem precisa para atingir a Salvação. Não é por qualquer motivo que a palavra “MATER DEI” está colocada por cima da entrada principal da igreja». Sinais dos tempos Se as Ruínas de São Paulo testemunham um período marcante para o catolicismo na Ásia, também têm «cravados» alguns sinais da acção negligente dos homens. Para além da erosão do tempo – factor incontornável – algumas esculturas foram ligeiramente modificadas durante os trabalhos de recuperação efectuados em mais de 400 anos. Pior foi o saque, em 1762, de alguns objectos que compunham o frontispício, resultado da ordem de extinção da Companhia de Jesus pelo Marquês de Pombal no ano de 1759. Quanto ao incêndio que deflagrou no Colégio de São Paulo e que viria a atingir a igreja da «MATER DEI», nunca se saberá a verdadeira razão: acidente ou crime?
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