FORA DO BARALHO |
Ilha de Quiloa |
Confrontado com a minha surpresa, por ver ali um pequeno cargueiro entre tantas embarcações à vela, o mais novo dos persas diz: – É um dos nossos barcos. Está aqui a carregar com matéria-prima que seguirá depois para Mombaça. Mas não me diz de que teor é a matéria-prima de que fala. Como é óbvio, ele e os seus companheiros de excursão não vieram a Quiloa apenas pelo prazer de revistar um local histórico, que isso é vício de europeu. Digamos que eles juntaram o útil ao agradável e hoje mesmo, ao fim da tarde, estarão de partida para Dar Es Salam. A emocionante travessia é feita num zambuco, aqui conhecido como dhow, uma embarcação de apenas quatro metros de comprimento. Desfraldada a vela, num instante pomo-nos ao largo. Na Ilha de Moçambique limitei-me a avistar ao longe estas belas embarcações, inspiradores da nossa caravela; agora estou dentro de uma delas, adornando a bombordo, o que obriga a movimentação de passageiros para equilibrar a coisa. É como navegar numa falua do Tejo, só que neste caso o cavername da embarcação é bem menor, o que permite a entrada de golfadas de água que transformam a viagem numa espécie de desporto radical com a utilização de recursos locais em vez dos artigos especializados de marca, sempre sofisticados e caros. Quinze minutos depois, o forte de Quiloa – a Gereza, como lhe chamam aqui, com o sentido de prisão – surge-nos pela frente, recortado num céu de um azul muito intenso. Enriquece o quadro uma série de barcos varados num fundo lamacento rico em moluscos que a maré vaza revela. Se preciso foi molhar os pés para embarcar, preciso é molhar os pés para desembarcar. Por sugestão dos tanzanianos visitamos previamente os restos de umas edificações de origem muçulmana, à frente das quais as duas raparigas do grupo fazem questão de serem fotografadas. Actualmente só o torreão da Gereza é de origem portuguesa, tendo a restante estrutura sofrido transformações depois de termos abandonado a ilha, em 1512, dando lugar aos sultões omanitas, que se revezariam no poder durante séculos. O portão de madeira principal, decorado com motivos florais emaranhados à mistura com versos do Corão, é o original e claramente de origem árabe. Uma placa em frente, já com umas boas décadas de existência, menciona um projecto de conservação urgente implementado pelo departamento de antiguidades tanzaniana e a UNESCO, com o financiamento de um fundo norueguês. É lastimoso o estado actual da estrutura, que explica bem o facto de, desde 2004, este local integrar a nada prestigiante lista do Património Mundial em Perigo. Os holofotes partidos e desactivados em frente à fortaleza testemunham isso muito bem. Quiloa foi desde sempre uma importante metrópole no empório comercial muçulmano, que se estendia da costa oriental africana às Molucas, passando pelo Golfo Pérsico e a Índia, se bem que na altura em que a visitaram os portugueses estivesse já em decadência. Em 1502, Vasco da Gama apoderou-se da cidade, tendo o rei de Quiloa ficado vassalo de D. Manuel. Com o produto do primeiro tributo em ouro da novel possessão africana o monarca mandou fazer a célebre Custódia de Belém, uma das obras-primas da arte portuguesa. Contemporânea de Sofala, a fortaleza de Quiloa seria erguida em 1506, sob a supervisão directa de D. Francisco de Almeida, sendo a primeira estrutura de pedra e cal edificada na região – típico castelo medieval com quatro torres nos cantos e uma torre de menagem, não na praça central, mas encostada à face principal da muralha. Era sua principal função dar abrigo aos passageiros dos barcos da carreira da Índia. A presença portuguesa foi, contudo, bastante curta. Devido aos elevados custos de manutenção e por questões de estratégia militar (havia nas proximidades os fortes de Mombaça e de Moçambique), Quiloa seria abandonada pelos portugueses em 1512, assumindo de novo o seu estatuto de cidade-Estado do mundo swahili. Passaria então a ser ocupada e reocupada por sucessivos sultões que a adaptariam consoante as suas necessidades e desejos. Em 1843, a transformação da cidade vizinha de Kivinje em porto marítimo levou ao abandono de Kilwa e à consequente ruína dos seus edifícios.
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