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FORA DO BARALHO

Ilha de Quiloa

 

PARTO para Kilwa Kisani, «a velha Quiloa», na companhia de um grupo de tanzanianos de origem persa que não gostaram nada que os tivesse confundido com árabes. Como os compreendo… Tão pouco gosto que me confundam com espanhol ou italiano. No porto, um aviso escrito a vermelho vivo aconselha os visitantes a utilizar apenas os barcos registados para ver as ruínas, para fazer desportos náuticos, mergulho e para observar hipopótamos. Hipopótamos? Mas há hipopótamos por estas bandas?

Confrontado com a minha surpresa, por ver ali um pequeno cargueiro entre tantas embarcações à vela, o mais novo dos persas diz:

 – É um dos nossos barcos. Está aqui a carregar com matéria-prima que seguirá depois para Mombaça. Mas não me diz de que teor é a matéria-prima de que fala. Como é óbvio, ele e os seus companheiros de excursão não vieram a Quiloa apenas pelo prazer de revistar um local histórico, que isso é vício de europeu. Digamos que eles juntaram o útil ao agradável e hoje mesmo, ao fim da tarde, estarão de partida para Dar Es Salam.

A emocionante travessia é feita num zambuco, aqui conhecido como dhow, uma embarcação de apenas quatro metros de comprimento. Desfraldada a vela, num instante pomo-nos ao largo. Na Ilha de Moçambique limitei-me a avistar ao longe estas belas embarcações, inspiradores da nossa caravela; agora estou dentro de uma delas, adornando a bombordo, o que obriga a movimentação de passageiros para equilibrar a coisa. É como navegar numa falua do Tejo, só que neste caso o cavername da embarcação é bem menor, o que permite a entrada de golfadas de água que transformam a viagem numa espécie de desporto radical com a utilização de recursos locais em vez dos artigos especializados de marca, sempre sofisticados e caros.

Quinze minutos depois, o forte de Quiloa – a Gereza, como lhe chamam aqui, com o sentido de prisão – surge-nos pela frente, recortado num céu de um azul muito intenso. Enriquece o quadro uma série de barcos varados num fundo lamacento rico em moluscos que a maré vaza revela.

Se preciso foi molhar os pés para embarcar, preciso é molhar os pés para desembarcar. Por sugestão dos tanzanianos visitamos previamente os restos de umas edificações de origem muçulmana, à frente das quais as duas raparigas do grupo fazem questão de serem fotografadas.

Actualmente só o torreão da Gereza é de origem portuguesa, tendo a restante estrutura sofrido transformações depois de termos abandonado a ilha, em 1512, dando lugar aos sultões omanitas, que se revezariam no poder durante séculos. O portão de madeira principal, decorado com motivos florais emaranhados à mistura com versos do Corão, é o original e claramente de origem árabe. Uma placa em frente, já com umas boas décadas de existência, menciona um projecto de conservação urgente implementado pelo departamento de antiguidades tanzaniana e a UNESCO, com o financiamento de um fundo norueguês. É lastimoso o estado actual da estrutura, que explica bem o facto de, desde 2004, este local integrar a nada prestigiante lista do Património Mundial em Perigo. Os holofotes partidos e desactivados em frente à fortaleza testemunham isso muito bem.

Quiloa foi desde sempre uma importante metrópole no empório comercial muçulmano, que se estendia da costa oriental africana às Molucas, passando pelo Golfo Pérsico e a Índia, se bem que na altura em que a visitaram os portugueses estivesse já em decadência. Em 1502, Vasco da Gama apoderou-se da cidade, tendo o rei de Quiloa ficado vassalo de D. Manuel. Com o produto do primeiro tributo em ouro da novel possessão africana o monarca mandou fazer a célebre Custódia de Belém, uma das obras-primas da arte portuguesa. Contemporânea de Sofala, a fortaleza de Quiloa seria erguida em 1506, sob a supervisão directa de D. Francisco de Almeida, sendo a primeira estrutura de pedra e cal edificada na região – típico castelo medieval com quatro torres nos cantos e uma torre de menagem, não na praça central, mas encostada à face principal da muralha. Era sua principal função dar abrigo aos passageiros dos barcos da carreira da Índia. A presença portuguesa foi, contudo, bastante curta. Devido aos elevados custos de manutenção e por questões de estratégia militar (havia nas proximidades os fortes de Mombaça e de Moçambique), Quiloa seria abandonada pelos portugueses em 1512, assumindo de novo o seu estatuto de cidade-Estado do mundo swahili. Passaria então a ser ocupada e reocupada por sucessivos sultões que a adaptariam consoante as suas necessidades e desejos. Em 1843, a transformação da cidade vizinha de Kivinje em porto marítimo levou ao abandono de Kilwa e à consequente ruína dos seus edifícios.


Texto e Foto: JOAQUIM MAGALHÃES DE CASTRO

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