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CHAN IENG HIN, DIRECTOR DO MUSEU DE MACAU

«Queremos reforçar a colaboração com os museus de Portugal»

Estão a ser desenvolvidos contactos com museus de Portugal, mas Chan Ieng Hin pretende reforçar essa ligação de forma mais efectiva. Em entrevista a’O CLARIM, o director do Museu de Macau congratula-se com a inclusão dos arquivos da Diocese local, em português e latim, no registo «Memoria do Mundo» da UNESCO; fala das vicissitudes do patuá e defende a criação de um plano director urbanístico para a RAEM.

 

O CLARIM – Que tipo de exposições podemos visitar no Museu de Macau? 
Chan Ieng HinAlém da exposição permanente, realizamos por ano, entre três a quatro mostras temáticas. Como o nosso espaço interior não é muito grande, também não podemos organizar muitas mais exposições temáticas.

CL – Quantas pessoas recebem anualmente?
C.I.H. – O número de visitantes é bastante estável. No ano passado foi de 189 mil 454, sendo ligeiramente superior a 2008 (183 mil 648). Entre 2001 e 2007, situou-se, respectivamente, entre os 190 mil 472 e os 211 mil 208 visitantes. Em 2004 tivemos o melhor registo daquele período, com 216 mil 565 pessoas. A diminuição que depois se verificou deveu-se à restrição da emissão de vistos individuais por parte da China continental.

CL – Que medidas pensa tomar para atrair mais turistas. Existe algum tipo de articulação com outras entidades?
C.I.H. – Gostaríamos de acolher um maior número de visitantes, contudo, devido à capacidade do próprio espaço do museu, apenas podemos receber cerca de uma centena de pessoas de cada vez. Houve pedidos de grupos com cerca de mil pessoas. A solução que encontrámos passou pela divisão desses grupos por diferentes períodos.

CL – Poderá o interior do museu ser reestruturado?
C.I.H. – O museu faz parte do Centro Histórico de Macau, que foi classificado, em 2005, património mundial da UNESCO. Não será assim possível efectuar qualquer tipo de expansão [do seu espaço].

CL – E ao nível do espólio, tem-se procedido a algumas alterações?
C.I.H. – Através de doações do público, temos vindo a proceder, desde 2008, à substituição de algumas peças que se encontravam na nossa exposição permanente.

CL – O que é feito das obras de arte que foram substituídas?
C.I.H. – As peças antigas não são adequadas para estarem expostas de forma permanente. Por isso, mudámos o conteúdo da exposição para procedermos ao restauro e à sua conservação.

CL – Do que nos “falam” essas peças antigas?
C.I.H. – São de vários materiais: algumas de têxteis; outras de madeira, de metais ou de papel. Temos também vindo a enriquecer o nosso espólio nos últimos anos. Não só apelámos às doações do público, como procedemos também à aquisição de algumas dessas peças.

CL –Considera que deveria acentuar-se a referência à cultura chinesa?
C.I.H. – As exposições que organizámos nos últimos anos estão relacionadas com Macau. Cada mostra surge após alguma investigação. Por exemplo, no ano passado efectuámos, em colaboração com o Governo da França, uma exposição sobre fotografia, uma arte que foi introduzida na China continental através de Macau. Com esta exposição demos a conhecer ao público não só a arte da fotografia, como também o acervo fotográfico que faz parte da Biblioteca Nacional de França (Paris). Estes registos são, muitos deles, inéditos. Presentemente está patente a exposição fotográfica «Os Anos Vermelhos», de Zheng Jingkang.

CL – Existe algum protocolo assinado com o Museu do Oriente, de Lisboa?
C.I.H. – Tivemos contactos, mas não existe ainda qualquer tipo de colaboração.

CL – Que contactos são esses?
C.I.H. – Passam pela troca mútua de catálogos das exposições que se realizam em ambos os museus.

CL – Vê com bons olhos o estreitar de relações ao nível de exposições?
C.I.H. – Temos esse desejo. Queremos reforçar a colaboração com os museus de Portugal, porque essa será também uma das nossas atribuições.

CL – E protocolos com a China continental, com países da Europa e do resto do mundo?
C.I.H. – Tivemos projectos de cooperação com o Palácio do Louvre (Paris) e, ainda, com outros museus de França e da Suíça. Essa cooperação resultou por iniciativa desses museus.

CL – Que importância tem o Museu de Macau para a preservação e conservação do património histórico e cultural do território?
C.I.H. – Intervimos em vários domínios. Em termos imóveis, administramos a Fortaleza do Monte e a capela de Nossa Senhora da Guia. Quanto à área móvel, gerimos o espólio do próprio museu. A restante área de intervenção assenta no património cultural intangível de Macau.

CL – Sei que foi consultado para a elaboração da proposta de lei de salvaguarda do Património Cultural. Acha que é um documento equilibrado? Quando for submetido à Assembleia Legislativa, pensa que irá merecer a concordância de todos os deputados, ou acha que poderá não ser suficiente para alterar as convicções de alguns deles?
C.I.H. – Sou da opinião não ser possível que todos possam concordar com a proposta de lei. Há muitas opiniões sobre o assunto. Quando pretendemos salvaguardar o património, temos de pagar um preço por isso. Quando impomos algumas restrições, vamos também limitar a liberdade das pessoas, ou seja, a população terá que pagar um preço. Há sempre prós e contras; por isso, terá que haver um equilíbrio.

CL – Qual será o preço a pagar?
C.I.H. – Por exemplo, a limitação da liberdade de movimentos que se dá com a mudança de alguns hábitos.

CL – Pensa que o patuá poderá vir a ser classificado pela UNESCO património cultural intangível?
C.I.H. – Na convenção para a protecção do património cultural, logo no primeiro artigo, diz que é necessário proteger o património intangível, especialmente o oral. Contudo, a lista do património cultural intangível da UNESCO não inclui, até ao momento, qualquer um dos três mil dialectos que estão em risco de desaparecer. Caso o patuá seja visto como expressão artística, então talvez seja possível essa inscrição na UNESCO.

CL – Os arquivos da Diocese de Macau, em português e em latim,  foram esta semana incluídos no registo «Memória do Mundo» da UNESCO. É uma boa notícia?
C.I.H. – Trata-se de uma documentação de grande valor histórico. Não se reveste apenas de valor local, mas sim universal, mais concretamente, em que o Oriente se cruza com o Ocidente.

CL – Houve receios de que Macau poderia correr o risco de ser desclassificado da lista do património cultural da UNESCO. Será esse um risco real? Dou-lhe um exemplo: se antes da liberalização da indústria do jogo a Fortaleza da Guia era visível em toda a sua plenitude, hoje, quem estiver do outro lado da fronteira a olhar para Macau, imediatamente se dá conta de que essa observação é obstruída pelo Hotel Sofitel, na Ponte 16.
C.I.H. – A título pessoal julgo que a população não gosta de ver os pontos históricos tapados. Como Macau é um território pequeno, não podemos parar o desenvolvimento urbano. Quando se apresentou a candidatura de Macau à lista do património mundial da UNESCO, foi planeada uma forma de protecção para evitar que surgissem situações do género. Acontece que algumas construções surgiram fora das zonas de protecção. Isto não foi previsto... Quer dizer, as Obras Pública e os outros serviços não previram este problema. O certo é que ele surgiu e chamou à atenção do Governo. No futuro, certamente, haverá um maior cuidado na autorização dos projectos de construção.

CL – Faz falta um plano director urbanístico em Macau?
C.I.H. – É absolutamente necessário! Por isso, o Governo estabeleceu uma equipa interdepartamental para tratar desse assunto. Antigamente, quando havia um projecto fora da zona de protecção, o Instituto Cultural não podia emitir a sua opinião. A partir de agora, possivelmente, terá algo mais a dizer sobre este tipo de situações.

 

 

PEDRO DANIEL OLIVEIRA

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