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Inquéritos |
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Um olhar pela capital da Birmânia |
A Rangun dourada |
A trinta quilómetros do Oceano Índico, num fértil delta a sul do país, cresceu Rangum, junto ao rio Yangon, nome pelo qual é conhecida na actualidade a capital de Myanmar. Parte substancial de uma população que ultrapassa os quatro milhões de pessoas utiliza diariamente essa importante via fluvial, rumo aos seus empregos. |
A cidade apresenta-se ao visitante repleta de arvoredo e muita sombra, embora o trânsito seja bastante intenso e praticamente não circulem veículos de duas rodas. Rangum é, sem dúvida, a última das capitais coloniais do Sudeste asiático. Uma pergunta se coloca: até quando escapará ao sindroma das megapólis? Enquanto capital, Rangum é relativamente «jovem», já que adquiriu esse estatuto em 1885, com a conquista da Alta Birmânia pelos britânicos. Existem marcas evidentes desse passado colonial, como o atesta, por exemplo, o edifício central dos Correios. Desde o início da década de 1990, o Governo tem tentado melhorar o aspecto da cidade com campanhas de limpeza e sucessivas pinturas nas fachadas de edifícios públicos. No entanto, o saneamento básico ainda não existe e a electricidade é bastante racionada, como o comprovam os frequentes cortes de energia. Nas ruas, a população faz o que pode para ganhar a vida. As actividades vão da simples venda de livros usados, às mais ou menos ortodoxas mezinhas populares, que mais do que um simples produto comerciável, pode muito bem tornar-se em motivo de atracção. O pagode Sule, que remonta ao período Mon, é o exacto centro da cidade, marco a partir do qual todas as distâncias são calculadas. Antigo e moderno coexistem nesta Birmânia de muitas surpresas e outros tantos contrastes. Tendo como ponto de partida a estação central de comboios, uma linha circular ferroviária funciona como uma espécie de carreira de autocarros de periferia. Da baixa da cidade rumo às povoações satélites, e daí, de novo para a estação central. É uma viagem com três quilómetros, que nos dá uma ideia das pessoas e do seu dia-a-dia. Em 1988, cerca de quinze por cento da população residia no centro da cidade, ocupando ilegalmente edifícios públicos. No entanto, seriam realojados pelo Governo em sete novas cidades satélites, de modo que esses edifícios servissem para escritórios, sedes de empresas e apartamentos. São essas as pessoas que diariamente utilizam a linha circular. Este comboio funciona como um verdadeiro mercado. Vendedores ambulantes percorrem as carruagens com legumes, frutas, mezinhas de medicina tradicional e os mais variados artefactos. Se tudo se vende, também tudo se transporta: de sucata a animais vivos e quando o objecto é volumoso, atira-se pela janela fora pouco antes de se chegar ao apeadeiro desejado. Tudo depois será apanhado, ao ritmo da eternidade. As paragens são breves e frequentes. Fervilham então as plataformas com vida e novidade, e também aí se vendem os produtos que se confeccionam em casa, as papaias que crescem no quintal. Na Birmânia podemos encontrar os mais longos e belos cabelos de mulher de toda a Ásia. Elas lavam-nos com um champô natural, à base de casca de um arbusto local, misturado com vagens de acácia, adicionando-lhe depois óleo de coco. Certamente fez isso a mulher que no banco não pára de escovar o seu longo cabelo…. Viajo em primeira classe, juntamente com os legumes. Pensando que assim estarei mais à vontade, alguns militares presentes no compartimento isolam a área que ocupo com um fio e arranjam-me o melhor assento para que possa fotografar à vontade o que se passa lá fora. Face a toda esta atenção, quem diria que estou num país amedrontado por uma ditadura baseada na delação e no receio do vizinho com quem se convive diariamente? A VARELA DO NEGUM Acerca de Pegu, diziam as crónicas antigas que «primeiramente é muito fértil e nas terras de água doce se dá sementeira de arroz três vezes cada ano. Dá-se trigo e outros muitos legumes em abundância, tudo o que se semear». Essa é, ainda hoje, a realidade, pois o mundo rural está mesmo às portas da cidade. Quase sem dar por isso, como o cruzar de uma carruagem por outra, eis-nos de novo na estação central de Rangum. O lago Kandawgyi (lago real), muito próximo do centro da cidade, de origem natural, é um privilegiado posto de observação para melhor apreciar o zimbório principal do pagode de Shwedagon, o «ex-líbris» da cidade. Numa das suas secções flutua a capela de Upgot, divindade budista protectora dos seres humanos em situações de eminente perigo de vida. A Karaweik – designação em sânscrito para Garuda, lendária ave mitológica associada a Vishnu – é uma reprodução em cimento da barcaça real, e ali funciona um restaurante. Shwedagon, que se pode traduzir por Dagon Dourada, conhecido entre os cronistas portugueses como Varela de Negum ou Varela de Digão, é o mais sagrado dos sítios budistas e de visita obrigatória para todo o birmanês, uma vez que seja na vida. Para o comum dos budistas tudo gira em torno do mérito («khuto») que se consegue obter através de rituais ou boas acções. Um dos ritos mais comuns a quem visita «stupas» é verter água em cima da cabeça de uma imagem de Buda, precisamente no local que corresponda ao signo astrológico do devoto. Um copo de água por cada ano de idade e um copo suplementar para assegurar longevidade. A cúpula dourada de Shwedagon mede noventa e oito metros de altura. O povo atribui-lhe a lendária idade de dois mil e 500 anos, mas os arqueólogos são unânimes em enquadrá-la no período Mon, algures entre o século VI e o século X. À semelhança de outros edifícios religiosos, foi reconstruída inúmeras vezes, devido aos danos provocados pelos frequentes terramotos que abalam a Birmânia. A estrutura actual remonta a 1769. Nos recantos do santuário são comuns as pinturas que nos contam histórias e testemunham agradecimentos ao Supremo, muito ao jeito dos nossos ex-votos. Alguns dos episódios metem naufrágios de navios de muitas velas… OS SINOS NAUFRAGADOS O enorme sino de Maha Ganda repousou durante muitos anos no leito do rio Yangon e de lá foi retirado graças ao engenho dos birmaneses que, sob a supervisão pessoal do rei, recorreram ao bambu para conseguir fazer flutuar as vinte e três toneladas de chumbo. Diz a tradição que esse é um local amaldiçoado, pois afogaram todos os ingleses que, em 1827, o retiraram do templo para o enviar para Inglaterra. Por recuperar ficou um outro sino que Filipe de Brito, em 1612, retirou desse mesmo pagode com o intuito de o fundir para fazer canhões. Está num local apropriadamente chamado «junção dos três rios», por aí se congregarem as águas do canal Pazundaung, do rio Bago e do rio Yangon, as vias fluviais da capital birmanesa. Não só os ocidentais sucumbiram às tentações contidas nos templos. Segundos as crónicas portuguesas, do interior Shwedagon teriam sido subtraídas «400 biças de ouro por um obscuro rei chamado Banhadala» O pagode era local de frequente visita por parte dos soberanos independentemente onde se situasse a capital na altura. Aqui peregrinaram e ordenaram ampliações e melhoramentos os poderosos Anawaratha de Pagan e Bayinnaung do Pegu. Também em Shwedagon eram recebidos ilustres visitantes, como o demonstram estátuas em tamanho natural, com feições vagamente ocidentais. Vem dessa época o hábito de regularmente colar folhas de ouro em toda a extensão do zimbório. Devotos com posses chegavam a competir nas ofertas. Uma rainha ofereceu o seu peso, quarenta quilos, em ouro. Um cunhado seu foi mais longe. Ofereceu o seu peso e o da mulher em ouro, multiplicado por quatro, tudo para o engrandecimento do pagode. Mas Shwedagon é, acima de tudo, local de oração e recolhimento, tanto para os monges como para o comum dos cidadãos. Da madrugada ao crepúsculo, a afluência de peregrinos é constante, atingindo o seu pico ao pôr-do-sol, altura em que o esplendor de Shwedagon é mais evidente.
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