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A PropÓsito De Um Livro |
A oração do Pai-Nosso é revolucionária ou contemplativa? |
| A oração do Pai-Nosso tem-nos fascinado, desde o início da Cristandade, pois faz-nos meditar no mistério da nossa fé, conduzindo-nos até ao cerne do verdadeiro carácter humano. Na verdade, podemos fortalecer a nossa fé, ao rezarmos a oração de Jesus, tornando-a uma marca própria dos cristãos. |
Este autor foi, em tempos, um ateu e acérrimo crítico da religião católica. Tendo decidido estudar em profundidade os textos bíblicos, acabou por se render aos fenómenos terapêuticos da mensagem que Jesus ministrava, já naquele tempo, quando a cadeira de psicologia humana era coisa inexistente. O mesmo autor viria a concluir, numa tese filosófica, que «Deus não é uma hipótese de fé, mas uma verdade científica». Aliás, mais adiante, em relação a qualquer teoria sobre o aparecimento do ser vivo, o autor não encontrou nenhuma que pudesse incluir o nada ou o vácuo existencial na origem do mundo e da natureza. Diz ele: «Esforcei-me muitíssimo para eliminar Deus como possibilidade de ser o autor da existência. Depois de inúmeras viagens intelectuais e de momentos de reflexão, tive de engolir em seco e admitir que é impossível não haver Deus». Na primeira parte da oração, Augusto Cury analisa a alma de Deus e, na segunda, a nossa alma; e dá três razões: 1– Jesus é o Filho muito amado do Pai e nós através do Seu Espírito, também nos sentimos filhos de Deus. Assim, ao rezarmos o Pai Nosso, acreditamos e experimentamos a nossa intimidade com Ele. 2– O Pai-Nosso está relacionado com os temas mais importantes do Evangelho e o mistério da Boa Nova de Jesus. Vivemos o mistério do Seu amor, ao revelar-nos, na cruz, o Seu perdão e a reconciliação com os irmãos. 3– É a oração que Jesus ensinou aos Seus discípulos e à qual S. Mateus atribuiu o sentido teológico de misericórdia. Nela se interligam oração e trabalho, luta e contemplação, misticismo e política, tendo por base o comportamento como um todo. A resposta a esta oração só é concretizável, se pusermos em prática as exortações de Jesus no Sermão da Montanha. É benéfica, elimina o abismo das incompreensões e melhora o relacionamento entre as pessoas e os povos. Somos desafiados a assumir um novo comportamento e experiência espiritual, através de um empenhamento pessoal e social. Isto porque o misticismo e a missão política andam de mãos dadas. Desse modo, optamos pela atitude de Jesus, dando o nosso melhor testemunho perante o mundo. A oração abre-nos o coração e prepara-nos, de forma activa, para contarmos com o nosso semelhante. Pai Nosso – Jesus usa a palavra Pai, o que revela uma relação íntima de amor em relação aos Seus filhos. É uma relação pessoal com o Deus paternal e maternal, o Deus de todas as pessoas. Assim, Deus em Jesus não descrimina; antes, acolhe e abraça. Não exclui, antes, insere. Do mesmo modo, exige a nossa solidariedade para com todos, como filhos, e desafia-nos a ser solidários com os pobres e os excluídos da sociedade. Quando reconhecemos a nossa humildade, sentimo-nos em união com os nossos irmãos, por termos o mesmo Pai. Jesus, ao chamar a Deus Seu Pai, humaniza a Sua própria personalidade. Não O chamou Criador, ou por outros nomes, dando a entender que deseja ser conhecido, procurado e testemunhado nos Seus aspectos mais amplos. Deste modo, em vez de controlar o ser humano, torna-Se extremamente amoroso, tolerante, compreensivo e compassivo. Jesus põe em claro estas características, ao receber o ácido beijo de Judas na traição, amando e, dando a outra face, vivendo intimamente a Sua pregação. Ao perdoar a Judas, assim como a Pedro, que O negou por três vezes, pôs em prática a oração do Pai-Nosso, com uma coerência ímpar. Que estais no céu – Deus desceu até nós. Jesus disse que o Pai habita nos céus, mas onde fica o ceú? Segundo os místicos, o céu está em nós, quando Deus habita em nós, oferecendo-nos já agora, durante a nossa estadia terrena, uma noção do que será o nosso céu no fim da (nossa) peregrinação terrena. Podemos, desde já, viver e sentir uma parte do céu nos nossos corações. Ele está fora de nós, mas também em nós. Apesar de não ser físico, está mais próximo de nós do que imaginamos. Este paraíso, a biliões de anos-luz de distância, está simultaneamente a um ínfimo milímetro da nossa mente. É assombroso! Santificado seja o vosso nome – Como primeira solicitação, Jesus tem por objectivo a santificação do Nome de Deus, como pessoa, um Tu com quem podemos iniciar um relacionamento. O pedirmos, logo após dizermos «Pai-Nosso que estás no Céu», que o Seu nome seja santificado, significa que a honra e grandeza não estão acima do Seu coração de Pai. De que vale elevá-lO aos píncaros, se não vivermos um relacionamento íntimo com o Seu amor? É missão de Jesus glorificar a Deus na vida terrena, para que se veja a Sua glória. Na Sua oração sacerdotal Jesus diz: «Eu manifestei a Tua glória na terra» (Jo. 17, 4). Isso mais não é do que o nós pedirmos que o Nome de Deus seja santificado em nós, de forma que nos tornemos e vivamos o caminho da santidade. O teólogo da libertação, Leonardo Boff, escreve o seguinte: «Aquele que está pronto para lutar juntamente com os oprimidos pela sua liberdade encarcerada está a santificar Deus na arena da história. Aquele que é solidário com as classes menos privilegiadas, que participa no desenvolvimento social e que ajuda a tecer laços de fraternidade mais firmes na estrutura social, está a glorificar o santíssimo Nome de Deus». Jesus é um exemplo disso mesmo, no cumprimento da Sua missão, mostrando toda a Sua disponibilidade para com os pobres, a quem os direitos foram furtados. Venha a nós o Vosso Reino – Deus, que reina no Céu, desceu até nós na pessoa de Jesus, mostrando-nos o modo de sermos verdadeiros seres humanos. Assim é, através do próprio Jesus que o Reino de Deus chega até nós, reino em que o poder dos senhores perde a sua influência, e Jesus nos conduz à nossa própria humanidade. Em conformidade com a Bíblia, o domínio de Deus é libertador e salvador e a nossa reacção depende da nossa mudança de mentalidade. Quando pedimos que Deus seja mais visível, Ele apenas Se mostrará por nosso intermédio, através das nossas acções, como testemunho do reino de Deus neste mundo. Assim, teremos o pão de que todos necessitamos e, simultaneamente, permitimos que o espírito de Deus esteja presente neste mundo. Mesmo que não estejamos envolvidos em política, na vivência da nossa espiritualidade temos uma responsabilidade para com o mundo em que vivemos, lutando para que ele seja mais justo, dando visibilidade ao Reino de Deus em cada momento das nossas vidas, guiados pela nossa fé iluminada pelo Sermão da Montanha. O Reino está no íntimo da nossa alma, onde Deus habita. Por conseguinte, seremos livres e ninguém terá qualquer poder sobre nós, por estarmos em contacto com o nosso verdadeiro ser, tornando-nos mais santos, autênticos e coerentes. Deus não nos pede um trono político, mas um trono no nosso coração. Assim, somos exortados a amar e orar pelos que nos perseguem e a fazer uso das nossas possibilidades humanas, diferentes e variadas em cada um de nós, para atendermos às necessidades dos mais necessitados e promover a solidariedade e harmonia entre os povos. Seja feita a Vossa vontade, assim na Terra como no Céu – Se Jesus foi capaz de pedir ao Pai, nos derradeiros momentos da Sua agonia na cruz, que perdoasse aos Seus carrascos, deste modo nos mostra que Deus ama o ser humano como a Si mesmo. Ele não governa para mostrar a Sua grandeza, ou para fazer de nós Seus serviçais; antes, trata-nos como filhos, descurando o poder das armas, a pressão social, a força física e o controlo económico. Jesus apela sempre à nossa vontade, para reconhecermos o chamamento que Deus nos dirige e nos tornemos santos. O lado humano de Jesus estava renitente em ter de passar pela Sua via-sacra de sofrimentos e ter de morrer violentamente na cruz. Mas esse era o plano de Deus. No acto da Sua entrega, ao fazer a Sua oração, Jesus encontrou-Se em união com o Pai. Nós, ao pedirmos que a Sua vontade seja feita, pedimos também o Seu carácter santo, aceitando os Seus planos para este mundo, mesmo que tenhamos de passar pelas experiências mais indescritíveis. Na Bíblia podemos ver como Jesus obedece à vontade do Pai. Assim, quando rezamos que se faça a Sua vontade, estamos também em comunhão com Jesus. No Monte de Oliveiras, Jesus reza ao Pai, pedindo que afaste d’Ele aquele cálice, mas acrescentando: «No entanto, não seja como Eu quero, mas como Tu queres» (Mt. 26,39). E logo a seguir: «Meu Pai, se este cálice não pode passar sem que Eu o beba, faça-se a Tua vontade» (Mt. 26,42). É de facto a via da Sua missão. Este trecho da oração leva-nos de encontro à entrega de Jesus à morte. Do mesmo modo, pedimos que nesta terra sejamos capazes de nos entregar à vontade do Pai com o mesmo espírito e amor de Jesus. Ou seja, mais do ficarmos ou vivermos resignados, perante as contrariedades da nossa vida, devemos ter a ousadia de confiar em Deus, aceitando que Ele sabe o que é melhor para nós, e que não seremos abandonado por Ele. Já repararam que esta oração se encontra toda ela no imperativo, exprimindo um desejo ou pedido, levando-nos a aprofundar e a romper o artificialismo religioso? Ela é ousadíssima, como se estivéssemos a pôr Deus à procura da nossa intimidade. Esta sublime oração, inócua e desafiadora, simples e complexa, tranquila e revolucionária, pode ser rezada por todos os seres humanos, em qualquer parte do mundo, independentemente da sua religião, cultura e raça, já que ela é um desafio a cada um de nós para que tenhamos a coragem de nos tornar servos mais justos, a fim de construirmos uma nova sociedade. Reflexionando sobre esta oração, tenho de reconhecer que eu próprio o rezava de forma rotineira, esvaziando o seu verdadeiro sentido, tornando ocas e estranhas as suas palavras. Em conclusão, se nós meditarmos e interiorizarmos o sentido de cada passagem desta sublime oração, veremos como ela mexe com o nosso ser. Sentiremos como a vida tem sentido e como Deus, Nosso Pai, Se manifesta em nós, através do Seu amor. Caros amigos, desafio cada um de vós, a tentar rezá-lo, desde já, analisando no próprio íntimo cada passagem desta oração, e veja se ela mexe ou não consigo também. «Pai Nosso ….. ».
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ANTÓNIO ROBARTS |
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