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FORA DO BARALHO

Uma costa muito frequentada

 

A COLONIZAÇÃO do leste da costa africana foi muito mais facilitada devido ao tráfego das naus da Carreira da Índia, que na Ilha de Moçambique faziam paragens de conveniência ou paragens forçadas. E os portugueses não eram os únicos visitantes. Há décadas que sulcavam estas águas navios árabes, persas, malaios e até chineses, pois a frota do almirante Cheng Ho esteve aqui em 1421, o tal ano que poderia ter mudado mundo, mas não mudou. Tivesse o eunuco a ousadia, autorização ou os meios para atravessar a ponta de África para ter de se ver com o bem mais revoltoso Atlântico. Assim, desde cedo os portugueses depararam com um comércio organizado, digamos que, como escreve Jaime Cortesão, «encontraram já realizado, no Índico, o trabalho que se tinham esforçado por fazer no Atlântico». Daí a crescente necessidade de abrir caminho para o interior, em busca das riquezas na sua fonte de origem.

A partir de Melinde, deixou de haver descobertas, tão só constatações, guiados por pilotos locais – árabes, malaios, chineses – utilizando embarcações nativas ou adaptando-se a elas. Só assim se compreende que em apenas quinze anos tivéssemos concluído todo o périplo asiático. A excepção no campo das descobertas são a Nova Guiné, o Japão e a Austrália, mas essas não contavam para esta actividade comercial.

Passo o último serão na Ilha de Moçambique, após jantar um excelente arroz com feijão de soja verde num botequim local junto ao hospital, exactamente na fronteira entre a cidade de pedra e cal e a cidade de macuti, em frente a uma cerveja Manica, lendo acerca das terras de Manica informação que me disponibiliza o mestre Cortesão.

Também aqui foi a busca dos metais preciosos – não a prata de Cambebe da costa angolana, mas sim o ouro de Monomotapa – a razão pela qual nos estabelecemos nestas paragens. Havia, portanto, que ocupar os portos. E foi o que fizemos, fixando feitoria em Sofala, em 1505, seguida de um forte, já que era aí que os árabes faziam o tráfico do ouro. Um ano depois era construída a fortaleza de Quiloa, mil quilómetros a norte, numa metrópole já próspera, que abandonaríamos em 1512. Entre esse espaço temporal foi construída, em 1508, na Ilha de Moçambique, a primeira das fortalezas, a meio caminho da rota entre o cabo da Boa Esperança e a Índia. Muitas das embarcações enveredavam, a partir daí, em linha recta em direcção à Índia, passando acima das actuais Seychelles. A curiosidade dos lusos levou-os a contornar a grande ilha de Madagáscar (ainda estabelecemos, em 1515, feitoria em Matatana, mas os locais repeliram-nos), e a chegar às Maurícias e a uma infinidade de ilhas nas proximidades. De resto, existem ainda topónimos que comprovam esse pioneirismo. O arquipélago das Mascarenhas, que compreende as ilhas Rodrigues e Reunião (hoje ainda colónia francesa), e o arquipélago dos Chagos, cuja ilha principal tem o nome do navegador luso, Diego Garcia, são apenas dois exemplos.

 Em 1570, Francisco Barreto, recém nomeado governador de Moçambique, chega ao Índico, com três naus e mil homens. Um ano depois partiria em busca das minas Monamotapa, missão que lhe fora incumbida pela Coroa, socorrendo-se das bases que os portugueses já tinham em Tete e Sena. Barreto ostentava até o título de «Conquistador das Minas de Ouro de Monomotapa», mas as doenças e a falta de alimentação apropriada fizeram os seus estragos, dizimando a expedição. De Sena, Barreto enviou um presente ao soba que detinha o título de Imperador de Monomotapa, pedindo-lhe autorização para entrar nos seus domínios. O pedido seria concedido, só que as hostilidades encontradas pelo caminho e as muitas doenças fizeram-no desistir da ideia. Como resultado dessa expedição, os portugueses ficariam doravante autorizados a negociarem livremente na terra do poderoso soba e a obtenção do ouro das terras de Manica, embora a sua quantidade não justificasse tamanha despesa. Vasco Fernandes Homem ficaria para história como primeiro europeu a chegar às minas de Manica. Monomotapa, porém, continuava inacessível. Muitas seriam as peripécias em torno da procura destas minas. Figura incontornável ligada e esta região foi o conde da Feira, D. Nuno Álvares Pereira (homónimo do de Aljubarrota), que foi governador de Moçambique e vice-rei da Índia.

Durante este processo de penetração – no decorrer do qual foram dadas a conhecer ao mundo maravilhas da natureza, como as nascentes do Zambeze, séculos antes de aí terem chegado Livingstone e quejandos, que ficaram com os louros e deixaram o seu nome para a posteridade nas enciclopédias, – houve sempre a intenção de ligar os dois territórios de costa a costa, como o viriam a fazer Serpa Pinto, Silva Porto e tantos outros, de que nunca ninguém ouviu falar.

Esse imenso império ultramarino, que incluía os actuais territórios da Namíbia, Zâmbia, Zimbabué e África do Sul, só não foi uma realidade, devido às maquiavélicas, mas eficientes, movimentações de um fanático chamado Cecil Rhodes e que resultariam nas tristemente célebres questões do Ultimato Inglês e do Mapa Cor-de-Rosa, que tanto humilharam Portugal.


Texto e Foto: JOAQUIM MAGALHÃES DE CASTRO

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