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FORA DO BARALHO |
Uma costa muito frequentada |
A partir de Melinde, deixou de haver descobertas, tão só constatações, guiados por pilotos locais – árabes, malaios, chineses – utilizando embarcações nativas ou adaptando-se a elas. Só assim se compreende que em apenas quinze anos tivéssemos concluído todo o périplo asiático. A excepção no campo das descobertas são a Nova Guiné, o Japão e a Austrália, mas essas não contavam para esta actividade comercial. Passo o último serão na Ilha de Moçambique, após jantar um excelente arroz com feijão de soja verde num botequim local junto ao hospital, exactamente na fronteira entre a cidade de pedra e cal e a cidade de macuti, em frente a uma cerveja Manica, lendo acerca das terras de Manica informação que me disponibiliza o mestre Cortesão. Também aqui foi a busca dos metais preciosos – não a prata de Cambebe da costa angolana, mas sim o ouro de Monomotapa – a razão pela qual nos estabelecemos nestas paragens. Havia, portanto, que ocupar os portos. E foi o que fizemos, fixando feitoria em Sofala, em 1505, seguida de um forte, já que era aí que os árabes faziam o tráfico do ouro. Um ano depois era construída a fortaleza de Quiloa, mil quilómetros a norte, numa metrópole já próspera, que abandonaríamos em 1512. Entre esse espaço temporal foi construída, em 1508, na Ilha de Moçambique, a primeira das fortalezas, a meio caminho da rota entre o cabo da Boa Esperança e a Índia. Muitas das embarcações enveredavam, a partir daí, em linha recta em direcção à Índia, passando acima das actuais Seychelles. A curiosidade dos lusos levou-os a contornar a grande ilha de Madagáscar (ainda estabelecemos, em 1515, feitoria em Matatana, mas os locais repeliram-nos), e a chegar às Maurícias e a uma infinidade de ilhas nas proximidades. De resto, existem ainda topónimos que comprovam esse pioneirismo. O arquipélago das Mascarenhas, que compreende as ilhas Rodrigues e Reunião (hoje ainda colónia francesa), e o arquipélago dos Chagos, cuja ilha principal tem o nome do navegador luso, Diego Garcia, são apenas dois exemplos. Em 1570, Francisco Barreto, recém nomeado governador de Moçambique, chega ao Índico, com três naus e mil homens. Um ano depois partiria em busca das minas Monamotapa, missão que lhe fora incumbida pela Coroa, socorrendo-se das bases que os portugueses já tinham em Tete e Sena. Barreto ostentava até o título de «Conquistador das Minas de Ouro de Monomotapa», mas as doenças e a falta de alimentação apropriada fizeram os seus estragos, dizimando a expedição. De Sena, Barreto enviou um presente ao soba que detinha o título de Imperador de Monomotapa, pedindo-lhe autorização para entrar nos seus domínios. O pedido seria concedido, só que as hostilidades encontradas pelo caminho e as muitas doenças fizeram-no desistir da ideia. Como resultado dessa expedição, os portugueses ficariam doravante autorizados a negociarem livremente na terra do poderoso soba e a obtenção do ouro das terras de Manica, embora a sua quantidade não justificasse tamanha despesa. Vasco Fernandes Homem ficaria para história como primeiro europeu a chegar às minas de Manica. Monomotapa, porém, continuava inacessível. Muitas seriam as peripécias em torno da procura destas minas. Figura incontornável ligada e esta região foi o conde da Feira, D. Nuno Álvares Pereira (homónimo do de Aljubarrota), que foi governador de Moçambique e vice-rei da Índia. Durante este processo de penetração – no decorrer do qual foram dadas a conhecer ao mundo maravilhas da natureza, como as nascentes do Zambeze, séculos antes de aí terem chegado Livingstone e quejandos, que ficaram com os louros e deixaram o seu nome para a posteridade nas enciclopédias, – houve sempre a intenção de ligar os dois territórios de costa a costa, como o viriam a fazer Serpa Pinto, Silva Porto e tantos outros, de que nunca ninguém ouviu falar. Esse imenso império ultramarino, que incluía os actuais territórios da Namíbia, Zâmbia, Zimbabué e África do Sul, só não foi uma realidade, devido às maquiavélicas, mas eficientes, movimentações de um fanático chamado Cecil Rhodes e que resultariam nas tristemente célebres questões do Ultimato Inglês e do Mapa Cor-de-Rosa, que tanto humilharam Portugal.
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