O CLARIM – Em pequeno queria ser médico, mas acabou por abraçar o sacerdócio. Como lhe foi revelado o chamamento do Senhor?
JOÃO ELEUTÉRIO – Desde os oito/nove anos, queria ser médico. Fiz tudo na minha vida de estudante para abraçar essa profissão. Aos 16 anos comecei – digamos – a passar por algumas revoltas. A maior parte delas estava relacionada com as motivações dos meus colegas, que também queriam ser médicos: uns por uma questão de prestígio, outros por dinheiro. Para mim, seria mais por uma questão de servir e de fazer o bem ao próximo.
CL – Como geriu esse estado de espírito?
J.E. – Essa revolta despertou em mim uma certa inquietação, que a orientei em termos vocacionais. Assim que coloquei a hipótese de seguir o sacerdócio, falei com um padre e fui acompanhado durante algum tempo. Quando fiz 18 anos entrei no seminário e, anos mais tarde, a 3 de Julho de 1994 (dia de S. Tomé), fui ordenado padre.
CL – Foi coadjutor na freguesia de Belas e capelão da clínica de psiquiatria, em Idanha (Belas). Foi depois para Paris, onde estudou durante cinco anos e trabalhou também com as comunidades emigrantes. Regressado a Portugal, em 2002, para onde foi exercer o seu trabalho pastoral?
J.E. – Fui nomeado pároco de Paço de Arcos durante dois anos, oito meses e 21 dias. A 5 de Outubro de 2004 defendi a tese de doutoramento sobre o reconhecimento do baptismo, entre católicos e ortodoxos, na Universidade de Sorbonne. Como nesse ano também leccionava na Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa, fui nomeado secretário dessa mesma faculdade, passando a desempenhar essa função a tempo inteiro.
CL – Como se deu a vinda para Macau?
J.E. – A oportunidade surgiu após a abertura de uma espécie de pólo da Faculdade de Teologia no então Instituto Inter-Universitário de Macau (agora Universidade de São José).
CL – Os cursos de teologia são ministrados na Escola de Estudos Cristãos, a funcionar no Seminário de São José. Quem são os frequentadores de tais cursos e de onde provêm?
J.E. – Temos 35 alunos na licenciatura de Estudos Cristãos. Noventa por cento estão a preparar-se para o sacerdócio. Pertencem à Ordem dos Pregadores: na sua maioria são dominicanos, embora haja alguns verbitas. Maioritariamente são oriundos de Myanmar, mas há também alunos da Coreia do Sul, do Vietname, da Tailândia, de Hong Kong, de Macau e do Canadá. Os cursos são ministrados em inglês
CL – O estudo da teologia tem saída profissional?
J.E. – É dos cursos que apresenta maior saída profissional. Quem conhece bem, por exemplo, o norte da Europa, sabe de empresas que contratam teólogos para a área dos recursos humanos.
CL – Como julga o estreitar das relações entre a Igreja Católica e a Igreja Ortodoxa no pontificado do Papa Bento XVI?
J.E. – Houve gestos proféticos na sequência do Concilio do Vaticano II. Um deles foi quando o Papa Paulo VI e o Patriarca de Constantinopla, Atenágoras, se beijaram e abraçaram. A primeira etapa do chamado «Diálogo do Amor» aconteceu, assim, com gestos simbólicos entre as duas Igrejas, após séculos de separação. Em 1976 seguiu-se o «Diálogo da Verdade», quando foi nomeada uma comissão teológica mista de católicos e ortodoxos, que se reúne periodicamente. Desde então tem tratado de questões concretas que dividem as duas igrejas, tais como o baptismo, o ministério, a autoridade, o primado do Papa, etc.
CL – Acha que um dia se poderá chegar à reunificação?
J.E. – Tenho esperança que sim.
CL – E entre os católicos e os muçulmanos?
J.E. – Há sempre plataformas de entendimento. Contudo, é importante perceber que as relações ecuménicas (entre igrejas cristãs) são sempre mais fáceis do que as relações inter-religiosas.
CL – A que passatempos se dedica?
J.E. – Quando não estou lesionado (risos) costumo nadar, jogar ténis e correr. Gosto ainda de fazer surf. A paixão surgiu depois de ir para a paróquia de Paço de Arcos. Por estar perto da praia, iniciei-me na vela aos fins-de-semana. Depois veio o gosto pelo windsurf e pelo surf. Embora seja um bocadinho duro em termos de aprendizagem, considero que o surf é um desporto viciante. E olhe que eu sou um azelha (mais risos). Só não pratico em Macau porque não há ondas.
CL – Sei que é um sportinguista ferrenho. Em Maio do ano passado foi capa dos jornais desportivos e de alguma Imprensa generalista portuguesa, por ter dito, no fim da missa, uma piada relacionada com a má actuação do árbitro Lucílio Batista durante a final da Taça da Liga de 2009, que opôs o Sporting ao Benfica (com vitória dos encarnados).
J.E. – Tenho um pequeno problema em ser brincalhão. O jogo foi decidido no desempate pelo pontapé de grandes penalidades. Na minha comunidade todos sabiam que, além de ser sportinguista, sou também muito brincalhão. Por isso, não resisti a dizer uma piada sobre o jogo da véspera. Tal aconteceu no fim da missa, ou seja, depois de ter dado a benção. O tema foi alvo de anedota em blogues de sportinguistas. Da blogosfera chegou à Agência Lusa. Daí até aparecer nos jornais e nas televisões foi um pulinho. Deturparam por completo o sentido da piada. O acontecimento chegou a ser notícia no Financial Times, pelo ridículo a que chegou a Imprensa portuguesa.
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