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RODOLFO ÁVILA, DIANA ROSÁRIO E LUÍS SÁ SILVA IMPEDIDOS DE RECEBER SUBSÍDIOS DA FUNDAÇÃO MACAU PARA PROVAS INTERNACIONAIS - INSTITUTO DO DESPORTO EXCLUI DESPORTOS MOTORIZADOS DOS PRÉMIOS POR CLASSIFICAÇÃO E MÉRITO - COMISSÃO DO GRANDE PRÉMIO DE MACAU DISCRIMINA CORRIDAS DE APOIO E EQUIPAS LOCAIS DE MOTOCICLISMO

Correr no escuro

 

OS pilotos de Macau Rodolfo Ávila, Diana Rosário e Luís Sá Silva estão impossibilitados de receber subsídios da Fundação Macau (FM) com vista à sua participação em provas internacionais.

A explicação está na introdução de um novo requisito entre as condições exigidas pela FM, que passa pela «participação obrigatória nas provas do Grande Prémio de Macau, realizado no ano anterior».

Ora, não tendo Rodolfo Ávila, Diana Rosário e Luís Sá Silva participado na edição de 2009 da prova macaense, estão, de acordo com os actuais requisitos, fora da lista dos beneficiários da FM para a temporada de 2010.

Esta é a primeira vez que tal exigência é feita aos pilotos locais que alinham em competições internacionais, sendo muitas as dúvidas quanto ao objectivo que aquela Fundação pretende alcançar.

Segundo apurou O CLARIM, a razão prende-se com o facto de muitos pilotos receberem os subsídios da FM e, no final da temporada desportiva, pura e simplesmente, não participarem no Grande Prémio de Macau, amealhando para si parte das verbas entretanto recebidas.

Embora esta explicação convença a maioria dos pilotos, não deixa de ser considerada injusta, uma vez que, se a Fundação Macau quer ter a garantia de que os pilotos locais participam no Grande Prémio, então devia conceder os subsídios com a condição de os pilotos terem de correr também em Macau. Caso não o fizessem, então seriam multados ou excluídos da lista dos beneficiários do ano seguinte.

Caso a FM não reveja a posição agora assumida, dificilmente os pilotos locais que costumam representar a RAEM no exterior poderão prosseguir as suas carreiras sem grandes sobressaltos financeiros, colocando em causa o seu nome e os títulos já alcançados.

Só no ano passado, Rodolfo Ávila foi quarto classificado na Taça Asiática Porsche Carrera; Diana Rosário, campeã asiática em Fórmula Campus; e Luís Sá Silva, vice-campeão asiático em Fórmula Renault.

O CLARIM sabe que Luís Sá Silva, – corre com as cores de Angola, mas cumpre(ia) todos os requisitos exigidos, – nunca solicitou qualquer subsídio à Fundação Macau, o que não invalida que o viesse a fazer no futuro próximo.

Além do já referido, outra diferença relativamente a anos anteriores está na via pela qual os pilotos irão receber o dinheiro. Antes, era entregue directamente pela FM aos desportistas, – após aprovação do Conselho de Curadores, – passando agora os montantes pelo cunho da Comissão do Grande Prémio de Macau, antes de chegarem aos interessados.

Prazos, quantias e critérios

Desengane-se o leitor se pensa que os problemas em redor do desporto motorizado do território se resumem à recente não-atribuição de subsídios por parte da Fundação Macau.

Mesmo os pilotos locais que correram na edição de 2009 do Grande Prémio de Macau – e portanto estão habilitados a receber os subsídios da FM – não irão começar a temporada internacional sem dores de cabeça, pois o mais certo é apenas verem a cor do dinheiro por altura do Verão, à semelhança do que vem acontecendo há vários anos.

A agravar a situação, os pilotos nunca são informados atempadamente de quanto irão receber, acabando por assinar contratos com equipas sem a certeza de poderem cumprir com as respectivas obrigações financeiras. Este problema não se aplica aos pilotos que não pagam, ou que são pagos para correr.

Quanto aos critérios utilizados para definir os montantes, embora os requisitos estabeleçam cinco padrões de avaliação, a prática demonstra haver uma total ausência de bom-senso por parte de quem decide, uma vez que os pilotos têm recebido por igual, independentemente dos resultados alcançados na temporada anterior e do tipo de competição. A única diferença verificada está nos valores atribuídos aos pilotos dos carros e das motas, com os primeiros a encaixarem mais do que os segundos.

Salvo algumas excepções, são muitos os pilotos da RAEM que praticamente não competem durante o ano, resumindo a sua prestação desportiva a uma ou duas corridas na cidade-vizinha de Zhuhai, incluídas numa qualquer prova sem impacto junto do público. Ou seja, a sua contribuição (promoção da imagem de Macau e retorno financeiro para os patrocinadores) é quase nula.

Esta situação não agrada a outros pilotos, para quem a carreira desportiva e o bom-nome da RAEM estão a cima de tudo e que chegam ao fim-de-semana do Grande Prémio de Macau já sem dinheiro para competir, tendo de sobrecarregar ainda mais os seus patrocinadores.

Instituto de Desporto: tábua de salvação, mas...

O Instituto do Desporto (ID) concede um subsídio de participação a todos os pilotos locais que alinhem no Grande Prémio de Macau. Uma ajuda preciosa para quem termina os respectivos campeonatos já sem dinheiro, mas um bónus imerecido para aqueles que nada fizeram durante o ano.

O ID diferencia os montantes conforme o tipo de provas (Taça Intercontinental de Fórmula 3, Campeonato do Mundo de Carros de Turismo - WTCC, Grande Prémio de Motos e corridas de apoio). Caso os pilotos se qualifiquem e terminem as provas, recebem ainda um prémio pecuniário do Governo, via Fundação Macau.

Neste caso, embora o papel do ID seja importante, na medida em que incentiva os pilotos locais a participarem no Grande Prémio de Macau, não tem efeitos práticos, dado não reconhecer os resultados por eles alcançados, tanto na RAEM, como no estrangeiro.

Se o Instituto do Desporto paga prémios de primeiro, segundo e terceiro lugares, conquistados em provas internacionais, qualquer que seja a modalidade, o mesmo já não acontece com os desportos motorizados.

Mais: todos os anos o ID organiza uma gala, em que premeia os atletas que mais se destacaram durante o ano, deixando quase sempre de fora os ligados aos automóveis e às motos.

Comissão do Grande Prémio: filhos e enteados

A Comissão do Grande Prémio de Macau, – agora com poderes reforçados, por via da aproximação à Fundação Macau, – também não está isenta de críticas, pelo modo discriminatório como tem tratado as equipas das corridas de apoio e as equipas locais de motociclismo.

A Comissão, actualmente presidida pelo secretário para os Assuntos Socais e Cultura, Cheong U, paga todas as despesas às equipas de Fórmula 3, do WTCC e das motos que participam no Grande Prémio de Macau (transporte dos veículos e dos equipamentos, deslocações dos técnicos e do pessoal administrativo, alojamento das equipas, entre outros encargos), à excepção das equipas das corridas de apoio e das equipas locais de motociclismo.

O argumento utilizado pelos responsáveis são as facilidades que o mercado de Macau oferece no que respeita à aquisição de motos e carros ligeiros e à contratação de mecânicos, quando é sabido que o Japão e a Europa são os únicos mercados capazes de satisfazer as necessidades técnicas destes pilotos.

Círculo vicioso

Com os novos requisitos da Fundação Macau para a concessão de subsídios aos pilotos do território que correm em provas internacionais, há o perigo de deixarem de aparecer novos talentos na RAEM.

Hoje, uma jovem promessa que esteja a competir nos kart ou em motas de baixa cilindrada dificilmente terá a possibilidade de evoluir para uma carreira desportiva, dado que o passo seguinte à formação é a internacionalização. E esta só se consegue com apoios, entre os quais da FM.

Por outro lado, também dificilmente conseguirá correr no Grande Prémio de Macau, – condição essencial para o desbloquear das verbas, – pois não tendo efectuado qualquer prova internacional, o seu currículo também não o permite. E entra-se, assim, num círculo vicioso, que só o Executivo liderado por Fernando Chui Sai On pode interromper, já que a Associação Geral de Automóvel de Macau-China (AAMC) nada faz para inverter a situação.


JOSÉ MIGUEL ENCARNAÇÃO

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