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Entrevista ao astrÓnomo jesuíta, Guy Consolmagno, sobre as interpretaÇÕes da Estrela de BelÉm e as prediÇÕes do futuro

2012? Não é o fim do mundo

Guy Consolmagno é um irmão jesuíta, astrónomo do Observatório do Vaticano, perito em trânsitos celestes. Este jesuíta americano, que une o rigor do estudioso a um acentuado sentido da notícia e a uma fé firme, própria dos discípulos de Inácio de Loyola, confidenciou-nos que, quando era jovem, tentou ser jornalista. Ele dá uma lição aos profetas de desventura, que nos tempos de crise realizam negócios de ouro: o filme 2012 esgota a bilheteira e os trágicos prognósticos atribuídos ao calendário dos inocentes Maias reacenderam os reflectores sobre o tema do fim do mundo. Falámos com ele quando estava em Tucson, algures entre a Universidade do Arizona e o Observatório do Vaticano no Monte Graham, onde funciona o moderno telescópio de tecnologia avançada.

 

– O que pode dizer hoje a astronomia sobre a estrela que, há 2000 anos, guiou os magos e os pastores até à Gruta de Belém?
Certamente, não sabemos o que os magos e os pastores viram no céu. Os Evangelhos interessam-se muito mais em narrar-nos algo sobre Jesus, que em ensinar-nos a astronomia. Talvez se tenha tratado de um acontecimento totalmente milagroso, sem precedentes na astronomia comum; ou talvez de narrações que querem representar e enfatizar o evento da Encarnação, que comoveu o universo. Ou ter-se á verificado algum facto astronómico raro, que coincidiu divinamente com o nascimento de Jesus.

– Mas alguém avistou o cometa?
Os pastores eram pessoas simples que conheciam as estrelas só porque as viam no céu, não estando preocupados com fazer cálculos sobre os seus movimentos. Por outro lado, pode-se presumir que os magos eram astrónomos e tinham a capacidade de calcular e prever as posições dos planetas. Contudo, como estudiosos da sua época, pensavam que os movimentos planetários estavam ligados às vicissitudes humanas, o que os tornava inclusive astrólogos. Os pastores poderiam não ter visto no céu as mesmas coisas que os magos. As Escrituras judaicas proibiam, de modo categórico, qualquer tentativa de predizer o destino mediante a astrologia. E portanto isto poderia explicar também a razão da estrela não ter sido «interpretada» em Jerusalém como o nascimento de um rei.

­– Significa isso que todos os fenómenos verificados naquele período poderiam ser a estrela de Belém?
Segundo algumas hipóteses, tratou-se de um cometa, de uma nova ou supernova, ou de uma conjunção de planetas, particularmente luminosa. Na realidade, nos nossos arquivos do período coincidente com o nascimento de Jesus, não emergiu um dado unívoco, mas não são completos e existem outros indícios anotados por astrónomos chineses, que poderiam ser tomados em consideração. Há diversas conjunções possíveis dos planetas Saturno e Júpiter ou deste último com a estrela Regulus; mas não são tão insólitas e é difícil considerá-las um evento que chegasse a atrair astrólogos do Oriente.

– Equivale isso a dizer que a fé vem socorrer-nos?
A mensagem mais profunda da história dos magos é que o nascimento de Jesus teve um significado cósmico. Por meio da Encarnação, Deus não só redime as almas humanas, mas – como disse Santo Atanásio – «purifica e reforça» toda a criação. Por conseguinte, o próprio trabalho de um cientista que busca a verdade no mundo físico é uma tarefa sagrada e santa.

– «Fides et ratio», fé e razão. Que relação tem um teólogo como Bento XVI com a astronomia?
Todos os Pontífices mais recentes defenderam a nossa obra junto do Observatório, mas o apoio do Papa Ratzinger foi especial. Durante a oração do Angelus de 21 de Dezembro de 2008, ele foi, talvez, o primeiro líder mundial a reconhecer e saudar o Ano internacional da Astronomia. Em Janeiro de 2009, na homilia da Epifania fez nova referência a isto e, a 30 de Outubro, honrou-nos ao dirigir um discurso a um encontro internacional de astrónomos.

– Uma atenção que o senhor experimentou directamente.
No que me diz respeito, a prova mais concreta do seu interesse pela astronomia é a nova sede do Observatório, nos jardins de Castel Gandolfo, que Bento XVI inaugurou em 16 de Setembro de 2009. Por uma feliz coincidência, a visita aconteceu exactamente 75 anos depois da transferência do Observatório – desejado pelo seu predecessor Pio XI – da Cidade do Vaticano para a residência pontifícia de Verão, em Castel Gandolfo.

– O que permanecerá do Ano da astronomia?
Foi um ano muito empenhativo, ritmado por numerosos compromissos desde o início em Paris, até às cerimónias conclusivas, em Pádua, nos dias 9 e 10 de Janeiro.

– Enfim, doze meses de intensa actividade
Entre as muitas iniciativas, empenhei-me particularmente na publicação do livro «The heavens proclaim», que descreve a obra do Observatório e a história do apoio pontifício à astronomia. Trata-se de um «coffee-table book», um volume em edição preciosa, com imagens magnificamente reproduzidas pela Libreria Editrice Vaticana. Agora estamos a traduzi-lo em outras línguas. Graças a esta obra, os esforços promocionais prosseguirão em todo o mundo, inclusive depois da conclusão do Ano da Astronomia.

– Quais foram as conquistas científicas mais importantes neste período?
Normalmente, temos de aguardar muito tempo, antes que se saiba qual foi a descoberta mais importante do ano. Precisamos de uma certa perspectiva para ver o que foi deveras importante e o que se revelou uma pista falsa. Poderiam ser necessários anos de trabalho para conseguir apreciar o que observámos este ano.

– Algum exemplo?
Consideremos a descoberta, em Outubro de 2008, exactamente acima da atmosfera da Terra, de um pequeno asteróide que conseguimos seguir até ao momento em que caiu no deserto do Sudão setentrional. Em 2009 completámos e publicámos os resultados científicos da descoberta dos fragmentos no deserto e da comparação entre as diferentes observações do objecto durante a sua queda. Na minha opinião, tratou-se de um dos resultados mais entusiasmantes da astronomia planetária em 2009, embora o evento em si se tenha verificado no ano precedente.

– Nós profanos, ao contrário, pensávamos na água encontrada na Lua...
Foi uma descoberta particularmente entusiasmante: um veículo espacial enviado pela Índia para a órbita do satélite encontrou nos espectros infra-vermelhos reflectidos da superfície a prova da existência de vestígios de água. Esta análise foi confirmada quando os cientistas reexaminaram os espectros medidos por outro veículo espacial que passou próximo da Lua no ano precedente. Mas atenção: a quantidade detectada pelo veículo de passagem no pó da superfície é só uma gota de água para cada litro de poeira lunar. Todavia, parece que existe um pouco mais de água dentro das crateras que estão à sombra das regiões polares da Lua.

– Água suficiente para garantir futuros povoamentos humanos?
Provavelmente, sim. Supomos que a água poderia estar armazenada nessas regiões que são extremamente frias, pois nunca estão expostas ao sol. Foi deveras animador encontrá-la ali, após ter rompido um veículo numa daquelas crateras e observado o material que aparecia à luz do sol.

– Uma boa notícia, de forma especial no caso de evacuação forçada do planeta. Além disso, filmes, horóscopos e livros recordam-nos continuamente que nos devemos preparar para o pior.
Os homens predizem o fim do mundo desde as origens da humanidade. Até agora, nenhuma dessas teorias se revelou verdadeira. Não há motivo algum para acreditar que as de 2012 o sejam. Mas, ao mesmo tempo que é fácil sorrir desses receios, há um mal mais grave atrás deles: essas crenças proliferam porque todos nós nos sentimos tentados pelo desejo de possuir um «conhecimento secreto» do futuro, como se isto nos tornasse mais poderosos que os outros. Na realidade, isto é apenas um sinal de má ciência ou de má religião.

– Mas a astronomia pode prevêr o futuro sem degenerar em astrologia?
Eu diria que sim, mas só no sentido de que a observação dos fenómenos celestes permite hipotizar possíveis catástrofes, das quais deveríamos ter consciência. Além disso, cometas e asteróides atingem a Terra continuamente.

– Em que sentido «continuamente»? Porventura, quer inscrever-se na escola de cassandras?
A maioria são pequenos corpos que passam inobservados, mas um grande evento como o que se verificou em 1908, na Sibéria, nas proximidades de Tunguska, causando uma explosão comparável à de uma bomba atómica, pode ocorrer uma vez em cada cem anos.

– Então, pela lei dos grandes números...
Até agora, os impactos verificaram-se nos oceanos ou em terras desabitadas. Contudo, mais cedo ou mais tarde, um desses corpos poderá atingir uma área com maior densidade populacional. É certo que os impactos mais comuns são os menores; mas são também os mais difíceis de ser previstos, antes que aconteçam.

– Será que corremos o risco de acabar como os dinossauros sem nos darmos conta disso?
Um impacto da importância daquele que extinguiu os dinossauros há 65 milhões  de anos, provavelmente, acontece só uma vez em cada cem milhões de anos.

– Então, porque afligir-nos com telescópios cada vez mais sofisticados? Podemos estar tranquilos durante milhões de anos…
Independentemente da raridade do fenómeno, vale sempre a pena perscrutar os céus e procurar determinar se algum dos cem mil asteróides conhecidos pode cruzar a órbita da Terra no futuro previsível. Significa também que vale a pena utilizar o nosso tempo para compreender de que modo estes asteróides e cometas são compostos, para poder entender melhor como os desviar, na suposição de virem a entrar em rota de colisão com o nosso planeta.

– De qualquer maneira, antes de nos preocupar com ameaças externas, talvez fosse melhor preservar a terra das devastações produzidas pelo homem.
Certamente. Mas o discurso é complexo. Quanto mais as áreas urbanas se tornam mais habitadas, tanto mais dependemos da tecnologia para sobreviver. Os sistemas hídricos e os de tratamento das águas, a electricidade, os transportes públicos, são necessários para nos mantermos aquecidos, nutridos e saudáveis. Definitivamente, dependemos uns dos outros. Não podemos viver egoistamente, porque somos todos guardas dos nossos irmãos.

– O próprio Bento XVI dedicou o passado Dia Mundial da Paz (1 Janeiro 2010) ao tema «Se quiseres cultivar a paz, preserva a criação».
O Papa está consciente de que podemos causar ou impedir desastres ambientais, dependendo isso do modo como tratamos a Terra. Infelizmente, o tema do aquecimento global foi politizado e muitos assumem posições extremas, ou baseadas em motivações que prescidem da ciência. É verdade que, além da actividade humana, muitos factores podem causar o aquecimento global, mas os únicos que podemos controlar são os que dependem de nós. Por isso, não podemos abandonar o caminho empreendido, se queremos reduzir a emissão de óxido de carbono na atmosfera.

– E entretanto?
Nada de pânico! Bastam duas medidas de precaução para aumentar as possibilidades de uma vida longa e sadia: deixar de fumar e usar os cintos de segurança.

 

 

GIANLUCA BICCINI In L’Osservatore Romano – Texto editado

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