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OPINIÃO

O preço a pagar pelo poder democrático!

 

NUM país com acentuadas dificuldades económicas como o nosso, são naturais as reclamações de quem se sente penalizado pelas medidas governamentais que o afectam e são particularmente incisivas as atenções direccionadas para a utilização dos dinheiros públicos.

Num tempo em que a economia tomou conta do interesse dos media e, consequentemente, dos cidadãos, todas as informações relativas a esta matéria, nomeadamente aquelas que se enquadram no «deve e haver» do comum dos mortais e na distribuição dos parcos recursos públicos que nos restam, são objecto de leitura, crítica, contestação, aceitação e interrogação.

Como o Governo não pode constantemente vir a público justificar todas as despesas por si orçamentadas e executadas, para isso existem as interpelações dos deputados na Assembleia da República e as várias formas de fazerem chegar as suas opiniões ao domínio público. O «Zé Povinho», de forma geral, é informado pelas letras «gordas» dos jornais, pelos noticiários televisivos e por «comentários de café», sobre o estado da Nação e do seu «bolso»!

Se parece não haver dúvidas sobre o mau estado das finanças nacionais, a avaliar pela aprovação do Orçamento do Estado (por parte de alguns partidos da oposição e mesmo por aqueles que votam contra...), e tendo em consideração as suas consequências sociais, embora difícil de «digerir», é compreensível a resolução de não aumentar os salários da função pública, situação que, em princípio, vai automaticamente condicionar os salários do sector privado. Numa perspectiva de inflação prevista de 0,8%, se o poder de compra não aumenta, antes diminui, o preço dos produtos essenciais não deverá, também em princípio, subir e os portugueses, em 2010, deverão conformar-se em apertar o cinto «0,8cm».

Em jeito de brincadeira, se a qualidade de tudo o que comemos fosse proporcional às volumosas barrigas que muitos portugueses exibem, até poderíamos dizer que esta medida governamental era, no mínimo, «dietética»...

Mas a realidade não é essa!

Por outro lado, e se isso «encrava» o já difícil equilíbrio das contas públicas, são também facilmente aceites os «cortes» orçamentais para novas estradas ou submarinos.

Afinal, o País não está assim tão mal servido de estradas e auto-estradas (há até quem diga que temos demais...) e, se houver dificuldades de acesso a alguma povoação, até temos um ou outro helicóptero (que sobrevive entre o lote dos muitos avariados) e, mesmo sem esse recurso, há sempre o «burrito do sr. Manel», que continua a dar muito jeito!

Quanto aos novos submarinos, – que me perdoem os nossos valorosos marinheiros, – se o seu preço é proibitivo, prefiro «mergulhá-los» num esquecimento transitório, que dure o tempo da nossa recuperação económica.  Preferia que tivessemos melhores embarcações «à tona de água», que levar o país «ao fundo», num moderno submarino.

Resta-nos o preço a pagar pelo TGV e o novo aeroporto, situação tão contestada por muito boa gente e que merecia uma melhor justificação económica, por parte dos responsáveis. Se é para não perdermos o «comboio» da Europa, se a sua rentabilidade está assegurada e completada com uma ocupação elevada de emprego nacional, creio que todos os portugueses compreenderão. Sem uma cabal explicação, alguém poderá pensar que todos estes novos e alternativos transportes só servirão para abandonar o País mais depressa!

O que igualmente não se compreende muito bem é o aumento das despesas de alguns Ministérios com hotéis, viagens, carros, telemóveis, horas extraordinárias, ajudas de custo, estudos e pareceres. Eventualmente, são aumentos perfeitamente justificados, representam uma gota d’água do Orçamento e não há razão para serem contestados. Mas, quando se fazem apelos à moralização das despesas e se pedem sacrifícios àqueles que menos recursos dispõem, em nome de um futuro melhor para o colectivo, é preciso dar o exemplo e demonstrá-lo, para que esse colectivo se sinta mobilizado.

Todas as sociedades passam por momentos difíceis, ao longo da sua história e a nossa tem imensos exemplos do envolvimento popular na superação das suas dificuldades. No entanto, numa sociedade democrática, não basta afirmar o que se pensa, é preciso provar o que se quer!


LUIS BARREIRA

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