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FORA DO BARALHO

Ilha Ecuménica

 

A TROCO de uns magros meticais, e antes de avançar para a fortaleza de São Sebastião, tomo aqui uma espécie de pequeno-almoço, servindo-me dos deliciosos doces de banana frita caseiros, que três meninas de sorriso luminoso transportam em bacias e pequenas caixas de plástico. 

Mais adiante sou interpelado por dois rapazes, que trazem com eles vários colares de missangas, as tão faladas missangas! Também me mostram moedas portuguesas. E búzios. Tenho que lhes prometer que irei comprar algo mais tarde. Será difícil não cumprir a promessa, pois a Ilha é uma verdadeira aldeola, onde todos se conhecem e todos se encontram ao dobrar da esquina, mesmo que tudo se faça para o evitar. Então, se confinarmos esta realidade à cidade de pedra, as probabilidades de passar-se despercebido são ainda mais escassas.

Na parede do edifício com que me deparo mais adiante, uma placa indica que estou perante a «primeira mesquita construída no nosso país, no século XIII». Muito antes da passagem de Vasco da Gama, o reino do xeque Moussa M’Biki (de onde deriva o nome Moçambique) era já um importante centro de intercâmbio comercial e cultural. Como resultado disso, multiplicaram-se etnias e crenças que ainda convivem neste exíguo espaço, apontado como exemplo de ecumenismo, como o comprova a frase «Unidos por Moçambique», escrita nas paredes da mesquita. Não fosse a ténue chamada para oração, vinda das mesquitas, e os barretes na cabeça de alguns dos homens, seria impossível distinguir os muçulmanos dos cristãos ou estes dos hindus. O islamismo está há muito tempo aqui instalado, tal como está no Golfo da Guiné, se bem que na costa oriental africana tenha chegado por via marítima e não com as caravanas que estoicamente atravessavam as regiões mais inóspitas do planeta.

Decido atravessar para a outra banda da Ilha – uns cem metros apenas separam a costa ocidental da costa oriental – e deparo com o que resta da antiga sede do Sporting Clube de Moçambique, vestígio de um passado colonial bastante recente, que não deixa de ser ruína e me faz lembrar casas do género, resultado da barbárie imposta pelas milícias, espalhadas por todo o Timor Leste. 

Erguido junto ao mar, numa pequena restinga, um outro edifício é, – pode-se dizer, – ruína inacabada. Trata-se de um projecto de restaurante de um francês, que recentemente morreu em circunstâncias estranhas. E único caso, de que se ouve falar, capaz de levantar a suspeita de existência de algum tipo de criminalidade na ilha. «O francês era já homem maduro e a sua namorada bastante mais nova», dizia a senhora Flora que me pôs ao corrente da situação. Para os supersticiosos, o francês foi, pura e simplesmente, vítima de bruxedo.

Fixo mais uma vez o olhar no tentador areal branco da ilha de Goa. No mar, algumas pirogas manobradas por um só homem com um só remo, parecem cavalgar em cima das minúsculas ondas, que agora gradualmente se afastam, para dar lugar à maré vaza, que acontecerá ao fim da tarde. Um desses pescadores, boné do super-homem enfiado na cabeça, vem até à praia, puxa a embarcação para a areia seca e ali fica a verificar e a preparar o resultado da pescaria. A piroga que utiliza é ainda mais primitiva que as restantes: não passa de um troco escavado, à boa maneira africana. Com a ajuda de uma faca afiada retira a carne de ostra das conchas duras.

O bastião leste da fortaleza de São Sebastião está mesmo ali, assente na barreira natural do coral. Quando a maré vazar por completo, poderei certamente circundá-la, para assim a melhor poder apreciar. Uma vedação de chapa ondulada é sinal que parte da estrutura sofre obras de restauro, estando por isso o todo fechado ao público. Porém, o militar que avisto no alto da ameia, e que me confirma esse facto, dá-me a entender que, se lhe pagar algum dinheiro, permitirá que eu entre para fazer uma breve visita. É claro que não apetece nada pactuar com esse tipo de estratagema. E a verdade é que, por enquanto, sinto-me satisfeito com o que vejo a partir do exterior.

A muralha, com bastantes canhões assentes nas ameias, prontos para um combate que jamais acontecerá, aparenta estar em óptimas condições. O certo é que a conclusão da primeira fase das obras de reparação e consolidação estrutural prevista para o fim 2008, a um custo total de 950 mil dólares e com um prazo de execução de sete meses, está já com um atraso de seis meses, e não há indícios de que fique concluída nos tempos mais próximos.

O militar percorre o parapeito interior das ameias, seguindo-me sempre com o olhar, esperando certamente que aceite a sua proposta, e até me faz continência quando me vê tirar fotos da fortaleza de diferentes ângulos. É claro que presto particular atenção à entrada principal, caracterizada por um bonito brasão com as armas de Portugal e uma vistosa janela, ambos em mármore, que se destacam da muralha de granito maciço. 

Existe aí perto uma pequena enseada com uma árvore submergida nas águas calmas e tépidas e os restos de um barco de madeira enfiados na areia. Esta é a única praia da ilha digna desse nome. Na praceta em frente, junto a um obelisco que honra os mortos da Segunda Grande Guerra e que foi vandalizado na sua parte inferior, encontro mais vendedores de missangas e de moedas antigas. Ao largo do canal de Moçambique passam graciosas embarcações – os zambucos – de panos desfraldados, repletos de pessoas vindas das ilhas vizinhas.


Texto e Foto: JOAQUIM MAGALHÃES DE CASTRO

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