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A propósito de catÁstrofes, naturais ou por erro humano

A tragédia de Sampoong

«A Coreia do Sul era a Coreia do Sul, acima de tudo. Mesmo que alguma falta de gosto generalizada, a desconfiança, os modos rudes de certas pessoas e a construção desenfreada com planos urbanísticos de má fama e o escamotear das condições de segurança os aproximassem mais dos chineses. Quem esqueceu o trágico desabamento de um centro comercial Sampoong ocorrido em Seul nesse Verão de 1995? Nos meses seguintes não se falaria de outra coisa».

 

APESAR de uma inegável individualidade muito própria, a Coreia do Sul imita quase tudo o que vem do Japão, o país odiado. O mundo ocidental, por exemplo, chegou aqui via Japão. Disso são exemplo os sinais de trânsito nas auto-estradas, semelhantes às do país vizinho; só que na Coreia é a Hyundai, a Daewoo e a Kia quem domina o panorama do asfalto, em vez de serem a Toyota, a Honda ou a Nissan.

As máquinas de venda automática de bebidas e cigarros chamam-se Samsung e Gold Star, ou melhor, LG, como é agora conhecida esta multinacional. No metropolitano as máquinas de bilhetes são mais lentas nos trocos, mas as «auto-exchange bill» (que tanta falta fazem em Portugal) estão sempre onde precisam de estar.

Nos escaparates dos quiosques, as revistas e jornais coreanos seguem exactamente a mesma estética das congéneres japonesas. Os calhamaços de «manga» – as Bd's – só se diferenciam devido ao alfabeto. Os «hiragana» recorrem ao alfabeto «hangul». As lojas de conveniência, abertas 24 horas, vendem o mesmo tipo de doçarias e bolachas de arroz insuflado.

Na televisão, os locutores e locutoras imitam os tiques e diálogos dos japoneses em concursos imbecis de domingo à tarde. Talvez com um pouco menos de exclamações, mas sempre com o ocasional convidado «nariz comprido», ou seja, estrangeiro, a servir de ave exótica.

O CENTRO COMERCIAL QUE DESABOU

A Coreia do Sul era a Coreia do Sul, acima de tudo. Mesmo que alguma falta de gosto generalizada, a desconfiança, os modos rudes de certas pessoas e a construção desenfreada com planos urbanísticos de má fama e o escamotear das condições de segurança os aproximassem mais dos chineses. Quem esqueceu o trágico desabamento de um centro comercial Sampoong ocorrido em Seul nesse Verão de 1995? Nos meses seguintes não se falaria de outra coisa. E por duas razões: pela gravidade do acidente em si, e por este vir na sequência de uma longa lista de tragédias provocadas por simples negligência ou erro humano, o que levaria alguns coreanos a questionarem-se se o «milagre do rio Han» – como ficou conhecido o desenvolvimento económico, centralizado na região de Seul, que transformou «um país onde as mães vendiam regularmente o seu próprio cabelo para poder sustentar as famílias» numa nação moderna – não teria ido longe demais, depressa demais.

Foi no ecrã gigantesco do hotel Koreana que vi as primeiras imagens: ruas pejadas de calhaus, automóveis totalmente esmagados, um homem a gesticular com a camisa coberta de sangue... Depois, o monte de escombros. A fumegar, como a lixeira municipal de uma grande cidade. Vieram-me de imediato à mente as imagens catastróficas do edifício federal de Oklahoma, nos Estados Unidos. «Explodiram mais uma bomba», pensei. Mas Serguei Kourbanov, um amigo russo especialista da língua e cultura coreanas que estava comigo nessa altura, continuava a tentar decifrar as legendas coloridas no ecrã que fornecia informações, números e mais números. «Não, não foi uma bomba. Parece que houve uma explosão de gás algures a sul de Seul». Mais uma! Parecia já moda. Na memória da opinião pública estava ainda fresca a explosão de uma conduta de gás na auto-estrada de Taegu, terceira cidade do País, que vitimara mais de uma centena de pessoas. Fosse o que fosse, o certo é que o edifício Sampoong, classificado na lista dos dez melhores centros comerciais da capital coreana, desabou com um estrondo que fez virar carros de rodas para o ar e enviou pedaços de parede e mobília a muitos metros de distância. Não foram precisos cinco segundos sequer e não houvera qualquer explosão. O edifício cor-de-rosa, de cinco andares, veio simplesmente abaixo sem sequer dizer pó vai. Mas pó veio. E em tal quantidade e espessura, que tapou o horizonte durante alguns minutos. «Pensei que se tinha despenhado um avião», relatava aos jornais o senhor Chang, residente num prédio vizinho.

ESTE VERÃO ASSINE DE AZUL

E havia de acontecer isso logo no Verão em que a empresa Sampoong, de vento em popa, planeava acelerar o número de vendas. «This Summer Sign the Blue!» era o mote escolhido para atrair ainda mais clientes às suas 566 lojas, onde a boa reputação se solidificara em torno dos produtos de luxo. «This Summer Sign the Blue!» Mais uma dessas frases em inglês, que nada querem dizer, mas que coreanos e japoneses tanto gostam de utilizar. Neste caso particular, o slogan era acompanhado por um inesperado e germânico «Gutte Morgen, Rosenthal», impresso nas faixas de pano azuis que pendiam das paredes do edifício que aguardava o fim das operações de salvamento para ser demolido. Isto é, se não caísse antes. Infelizmente, de azul, nem o céu, pois a chuva caiu teimosamente logo no dia a seguir à catástrofe, prejudicando enormemente os trabalhos. Quanto à terra, ou melhor, os destroços, ficaram manchados de vermelho. De sangue. Dos corpos esmagados de mais de trezentas pessoas e de quase um milhar de feridos, a maioria dos quais eram jovens empregadas que trabalhavam aos balcões desse armazém de luxo.

«Como pôde deixar que isto acontecesse! Esse homem não é humano», dizia com alguma raiva um jovem voluntário, enquanto aguardávamos que os homens do 119 – o equivalente ao nosso 115 – conseguissem retirar do cimento e dos ferros retorcidos mais uma sobrevivente. O rapaz referia-se a Lee Chun, proprietário da Sampoong, o homem que autorizara a construção de mais um parque de estacionamento subterrâneo, enfraquecendo desse modo os alicerces do edifício. O homem que ignorara as rachadelas que apareceram nas paredes do quarto e quinto andares, 48 horas antes do desastre. Enfim, Lee Chun era o grande responsável pela tragédia, juntamente com os seus dois filhos e uma equipa de gerentes, a quem a tentadora possibilidade de obtenção de mais lucros com o alargamento do espaço para vendas fizera esquecer a segurança e precioso valor da vida humana.

«Que vão para o inferno», desabafava por sua vez Kim Lee-Chang, estudante de Direito, junto aos cordões policiais que isolavam a área sinistrada. Juntamente com ele estavam muitos outros familiares das vítimas que continuavam sem saber do paradeiro dos entes queridos, já que tanto os feridos como os mortos eram enviados ao acaso para mais de cinquenta hospitais diferentes. «O meu irmão mais novo decidiu ir fazer compras no momento errado…», dizia Kim com sarcasmo.

TRABALHO DE RESGATE

Durante setenta e duas horas acompanhei de perto o trabalho das diversas equipas de salvamento. Setenta e duas horas à procura de sinais de vida por detrás e por debaixo das camadas de cimento, vigas de aço, madeiras, metais e de todo o tipo de acessórios que se possam imaginar. Setenta e duas horas de estreita colaboração entre as equipas de salvamento e de pessoas singulares ou organizações humanitárias que forneciam constantemente alimentos e bebidas. Setenta e duas horas de aplausos e manifestações de alegria, sempre que alguém era encontrado vivo. Setenta e duas horas de desânimo e frustração, quando se deixavam de detectar os sinais de vida ou se envolvia discretamente mais um cadáver no lençol com uma cruz vermelha.

Foi fácil vir para as páginas dos jornais dizer que se podiam ter salvado mais vidas ou que os trabalhos tinham sido lentos demais, ou que assim ou que assado. Mas esqueciam-se os escribas de que as pessoas que ali trabalhavam estavam a expor a própria vida, dado que o prédio podia ruir a qualquer momento. Houve apenas um senão nas longas horas de solidariedade e trabalho árduo que ali presenciei. Fui várias vezes convidado a abandonar o local, por «razões de segurança» ou pelo simples facto de não ser coreano e, portanto, não tinha nada que permanecer ali. E isto, apesar de estarem a cobrir o acontecimento, minuto a minuto, uma inteira legião de jornalistas e foto-jornalistas representando os mais diversos jornais, revistas e cadeias de rádio televisão da Coreia. Acontece que o nacionalismo coreano e a sua falta de auto-espírito crítico podem ser de uma cegueira absoluta. «I'am sorry! For Korea», dizia-me um dos salvadores na manhã do terceiro dia, quando as hipóteses de encontrar mais sobreviventes começavam a escassear. «Foi um acidente», continuava ele, embriagado com uma garrafa de champanhe doce retirada da prateleira do supermercado poupado à devastação. Esse homem, no fundo do seu coração, tentava redimir a nação e o sistema político coreano, em vez de o pôr em causa. «Sim, foi um acidente», respondi-lhe. E perdoada ficou toda a Coreia. Pelo menos, até à próxima tragédia.

 

 

Texto e Foto: JOAQUIM MAGALHÃES DE CASTRO

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