OPINIÃO |
Os empresários e a «crise»! |
Com um défice a rondar os 7%, um grande endividamento externo e um extraordinário nível de desemprego, a afectar directamente muitos milhares de famílias e indirectamente as contas públicas, o País está a afundar-se no «mar da palha» da nossa indiferença. Tenho visto e ouvido muitas declarações a propósito deste nosso mal «endémico» a que chamamos crise económica. A culpa é disto e daquilo, (que se faz, ou não faz...) ou não é culpa de nenhum português e a sua origem está no estrangeiro, em factores externos, alheios à nossa responsabilidade. No entanto e para além de algumas observações feitas a aspectos particulares do nosso problema económico-social, raras são as vozes que apontam o caminho global para a superação da chamada crise. E os poucos que o fazem são de tal forma duros nas críticas e profundos nas transformações propostas, que acabam por não ser ouvidos ou ninguém está interessado em fazê-los ouvir. No entanto, uma das críticas mais veemente publicitadas, ou um dos males apontados genericamente por todos, é a falta de produtividade dos nossos trabalhadores, comparativamente aos índices apresentados pelos países desenvolvidos. Para ultrapassar esse considerado sub-desenvolvimento da nossa mão-de-obra, aponta-se a formação profissional, como essencial à passagem a um estádio superior da nossa economia. Penso que é profundamente importante, mas não chega! Nós não temos sido, de forma geral, importadores de mão-de-obra altamente qualificada para ocupar lugares vagos nas nossas empresas. A quase totalidade dos trabalhadores estrangeiros que se encontram no nosso País são ocupados em trabalhos indiferenciados, mesmo que possuam habilitações de maior qualificação. Se os empresários portugueses não desenvolverem tecnicamente os seus processos de produção, o tipo de empresas a criar para as condições do mercado global e os processos de gestão do pessoal e planificação das suas produções, nas actuais circunstâncias, de que servirá uma maior formação da nossa mão-de-obra? Para cair no desemprego, como uma grande parte dos nossos recém formados com cursos superiores? Há aqui uma outra responsabilidade a partilhar e ela recai sobre uma parte substancial dos nossos empresários. E os nossos governantes, tal como fizeram para os trabalhadores, deveriam igualmente pensar em criar um instituto de «Novas Oportunidades» para patrões. De facto e pelas falências que temos verificado, é alarmante a passividade, a falta de criatividade e incapacidade de gestão (para não falar noutros aspectos menos dignificantes), que muitos dos nossos empresários têm demonstrado. Quando se recordam os milhões de nossos compatriotas que partiram para o estrangeiro e, nomeadamente, para países muito mais desenvolvidos que Portugal e se constata o apreço com que são considerados pelos países de acolhimento, mesmo em profissões pouco qualificadas; quando se verifica que esses países apresentam altos índices de produtividade e que uma parte substancial dos seus trabalhadores são portugueses, surge-me uma pergunta inevitável: Porque é que os trabalhadores portugueses só são bons lá fora? Não pode ser e ninguém acredita que, na passagem da fronteira em Vilar Formoso ou em Badajoz, esteja uma fada madrinha com uma varinha mágica a transformar as qualidades dos nossos trabalhadores. A razão é interna. É no País e na sua organização laboral, a começar na preparação dos seus empresários para o serem, que está uma das maiores condicionantes do nosso fraco desenvolvimento produtivo. E essa preparação não envolve apenas os conhecimentos técnicos necessários ao desempenho das suas iniciativas, mas igualmente o sentido de responsabilidade, a moral social que tal acarreta e a ética de procedimentos, que são factores igualmente importantes na formação de um empresário. Mesmo que se considere que estamos numa fase de transformação do nosso «Modo de Produção», não basta incentivar os empresários a criarem empresas de alta tecnologia, é preciso formá-los. Não será a raiz de todos os males, mas é de certeza um forte obstáculo à superação das nossas dificuldades. Já vem do passado, acontece no presente e temo pelo futuro!
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LUIS BARREIRA |
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