FORA DO BARALHO |
Uma cidade de contrastes |
Uma névoa acinzentada ergue-se no horizonte, impedindo que o céu e o sol se revelem em todo o seu esplendor, como é seu hábito. Embora não pareça, estamos ainda na estação das chuvas, que se prolongará até finais de Agosto. À medida que avanço para o centro da cidade, a névoa passa a ser de poeira alaranjada, certamente o resultado da grande quantidade de prédios em construção. Luanda não é uma cidade para agora. Ou melhor, não é uma cidade para todos, pelo menos para os tempos mais próximos. Quem não está aqui para trabalhar numa companhia de petróleo, de diamantes ou algo do género bem sólido, bem se pode queixar de coisas inacreditáveis, como 10 dólares por uma alface (congelada na Califórnia), à venda num desses supermercados frequentados pela elite e pelos expatriados. Não é por caso que Luanda é considerada a mais cara cidade do mundo. Também o porto de Angola está a voltar aos seus tempos áureos, com uma expansão mais rápida do que o previsto. Neste processo de modernização geral do país, estão envolvidos capitais e recursos humanos de vários países, sendo de destacar a China e o Brasil. Enquanto este se ocupa das auto-estradas e vias rápidas, aquela reconstrói as linhas férreas, ergue novos arranha-céus (eliminando implacavelmente muito do património histórico da cidade), mas também bairros sociais destinados aos que actualmente vivem nos bairros da lata, que ainda são cartão de vista da capital angolana. Optimista, o ministro angolano da saúde disse recentemente que a pobreza seria erradicada graças à criação de novos postos de trabalho e habitação condigna para cada uma das famílias. Não se afigura fácil a tarefa. Luanda tinha em 1974 apenas 880 mil habitantes; hoje esse número ascendeu aos 4 milhões. Ou seja, um quarto da população de Angola vive na capital, maioritariamente nos musseques. Nas ruas o contraste é extremo. O trânsito é um caos, mas as viaturas em circulação é o que de melhor há na indústria automóvel. Vêem-se os modelos mais caros da BMW, da Mercedes, da Volvo, a comprovar que há gente com muito dinheiro por aqui. Insinuando-se entre os carros parados nas filas intermináveis, vendedores ambulantes tentam a sua sorte. Por toda a cidade é assim: gente com objectos para vender (de telemóveis a roupa interior, passando por conjuntos de talheres), mas raramente se vê alguém adquirir o que quer que seja, embora se improvisem mercados nos locais mais inesperados, de resto, à boa maneira africana. Luanda já foi considerada uma das mais belas e animadas capitais africanas. E é óbvio que procura recuperar o estatuto perdido. Na baixa da cidade, junto à zona portuária, onde o traçado urbano reflecte ainda o passado colonial, devido à presença de diversas igrejas e imponentes moradias, bares e discotecas oferecem música até ao sol raiar. O som é essencialmente angolano – kizomba, rebita, semba, cabutela – embora haja por aqui oferta das mais diversas partes de África. Onde se dança também se pode comer. E não faltam pratos compostos por ingredientes e temperos originais: a muamba e o cululu (dois tipos de guisados), o mufete (peixe grelhado com um molho secreto), o funge de bombó (à base de farinha de mandioca), o kizaca (esparregado de folhas de mandioca) e o bagre seco ou fumado (peixe gato), entre muitos outros. A renovação da marginal é um projecto ambicioso que retirará algum espaço à baía, mas que, em contrapartida, se traduzirá no alargamento da via pedestre e no aumento das infra-estruturas de apoio. Ao longo dos séculos, Luanda viu passar de tudo. Através do seu porto escoaram-se as riquezas vindas do interior e partiram para as Américas os escravos capturados na savana, na floresta aberta e até na zona desértica do sul do país. Durante séculos, foi Luanda uma dependência do Brasil e da América espanhola, mero entreposto para fornecimento de mão-de-obra escrava. Um dos produtos comerciados na época era o zimbo, um tipo de búzio que se pescava nas costas da ilha de Luanda e que era a moeda única corrente nos reinos do Congo e de Ngola. Quem desempenhava essa tarefa eram, normalmente, as mulheres, como acontece ainda hoje em Cheju, na Coreia do Sul, com a pesca do marisco. Originária da ilha de Luanda é a dança bassula, uma forma de luta popular entre os pescadores, que segundo o entender de alguns estudiosos deu origem, no Brasil, à agora mundialmente conhecida capoeira. Vários vestígios de presença humana encontrados em algumas regiões provam que o território angolano é habitado desde a pré-história. Originários do norte, os Bantus impuseram-se às tribos locais, que se dispersaram constituindo grupos que deram origem às diferentes etnias que compõem hoje o mosaico populacional de Angola. O século XIII, a estruturação social e política destes povos resultaria no reino de Congo, e outros, com os quais acabaria por ter contacto o profícuo descobridor Diogo Cão, ao chegar à foz do rio Zaire, em 1482.
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