LOCAL |
20 de Novembro de 1999 |
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FAZ hoje 444 anos que o nome de Macau apareceu referido pela primeira vez num documento escrito, sob a designação de Amaquao ou Ama Cuao – derivativos, sabe-se, de Á Ma, a mui devotada deusa dos pescadores. O documento em causa é uma carta de Fernão Mendes Pinto, datada de 20 de Novembro de 1555, dirigida ao padre Baltasar Dias, reitor da Companhia de Jesus em Goa. Há historiadores – como o macaense Luís Gonzaga Gomes – que crêem que a carta terá sido escrita em Lampacau, e não em Macau, uma vez que os portugueses só aqui se fixaram dois anos mais tarde. Opinião contrária é a de Rebecca Catz, entre outros, que não vê motivos pare duvidar do relato do autor da «Peregrinação», que é muito preciso: «Hoje cheguei de Lampacau, que é o porto onde estamos, a este Macau, que é outras seis léguas mais avante, onde achei o padre mestre Melchior, que de Cantão aqui veio ter». Esta carta só foi conhecida em 1902. Estava adormecida nos códices da Biblioteca da Ajuda, onde foi descoberta pelo orientalista alemão Oskar Nachod. Fernão Mendes Pinto, então noviço da Companhia de Jesus, descreve a chegada a Sanchoão e a viagem a Lampacau, na companhia do padre Melchior Nunes, com quem, de resto, viajara até ao Japão. A carta começa assim: «Por o tempo me não dar lugar lhe não escrevo tão largo como desejava para lhe dar conta de toda a nossa viagem e o sucesso dela, e o quanto trabalho temos passado». O cronista conta que o seu companheiro rezou missa em Sanchoão, onde, anos antes, fora enterrado S. Francisco Xavier. Mendes Pinto pede desculpa por o seu relato só incidir sobre uma parte ínfima («de cem partes uma») do que passaram, «pois para escrever tudo era necessário que o mar fosse tinta e o céu papel». Alguns dos episódios deste périplo serão incluídos na famosa «Peregrinação». Se não parece haver dúvidas sobre a estada de Fernão Mendes Pinto por terras de Macau, o mesmo não acontece com Luís de Camões. Não há provas cabais de que o maior poeta português tenha aqui estado. Apesar disso, ele é, incontestavelmente, uma das figuras de Macau. A história e a tradição têm coisas destas – e às vezes a tradição vale mais que a história-ciência. Prudente, o Museu de Macau regista que, segundo uma «tradição popular muito antiga em Macau, Camões veio de Goa para esta cidade e aqui viveu cerca de dois anos (1557-1559)». Reza a mesma tradição que foi na famosa gruta de Camões que ele escreveu parte de «Os Lusíadas». A gruta encontra-se no jardim de Luís de Camões, em tempos propriedade da britânica Companhia das Índias Orientais. Junto à gruta, que tem mais uma forma de anta, está um busto em bronze, da autoria de Manuel Maria Bordalo Pinheiro, datado de 1866. Foi uma iniciativa do comendador Lourenço Marques, que mais tarde vendeu o jardim ao governo de Macau. Em 1923, o governador Rodrigo Rodrigues instituiu a romagem à gruta no dia 10 de Junho, data da morte de Camões. Desde então, nunca a peregrinação deixou de se efectuar. A deste ano – a última com carácter oficial – contou com a presença do presidente da Assembleia da Republica, António de Almeida Santos. Vizinho ao busto estão gravadas, em pedra, algumas estrofes de «Os Lusíadas». A começar pela primeira e mais conhecida: «As armas e os barões assinalados...». Entre muitas outras placas, uma que Camões certamente teria apreciado: a da Organização Mundial dos Poetas, datada de Junho de 1999, em português, chinês e francês. No chão, em calçada à portuguesa, dez quadros inspirados nos dez cantos de «Os Lusíadas» e em desenhos de Lima de Freitas. Outra estátua no mesmo jardim é a de Santo André Kim, o primeiro sacerdote católico da Coreia, falecido em 1846. Mártir com apenas 25 anos, fez os seus estudos religiosos em Macau. Também este jardim foi bafejado pela recente vaga de inaugurações. Coube-lhe em sorte a biblioteca municipal Wong Ieng Kuan. De linhas modernas, cheio de luz e silêncio, o edifício tem uma secção de jornais do dia – só chineses - com uma grande afluência. Na área dos livros, a maioria dos leitores são rapariguinhas do ensino secundário, de uniforme azul e branco. A curiosidade impele-me a procurar livros em chinês de autores portugueses. A Biblioteca Básica, lançada pelo IPOR, esta lá toda. De Camões, não encontro nada – nem em português, nem em chinês. Estranha lacuna numa biblioteca municipal, ainda por cima no jardim do poeta. O jardim é um dos mais visitados. Para os portugueses, é mesmo obrigatório. Um animado grupo tira fotografias junto à gruta. «Vem para a minha beira», chama uma turista já de idade, num inconfundível sotaque nortenho. O principal concorrente é o jardim de Lou Lim loc, na estrada Adolfo Loureiro. É o mais clássico e o mais chinês dos jardins de Macau, construído no fim do século passado por um rico comerciante. Sobre um lago artificial, enfeitado com flores de lótus, caminha-se pela ponte das Nove Curvas, até ao pavilhão da Relva Primaveril. Quem quiser assistir, manhã cedo, a autênticos espectáculos de «tai chi» – uma das tradicionais ginásticas chinesas, – este jardim é capaz de ser a melhor opção. O mesmo se diga para escutar o cântico dos pássaros, passeados em formosas gaiolas de fino bambu. FALTAM 30 dias para Portugal se despedir. Na vizinha Zhuhai há festejos, com a presença de Edmond Ho. Em Macau, tudo parece tomado pelo Grande Prémio. Jerónimo Badaraco é o campeão do dia. Não disse nada aos pais e inscreveu-se na corrida dos Honda, destinada a pilotos locais. Como o seu carro é um Toyota, teve que alugar um Civic EF9, por vinte mil patacas. Sem seguro, «porque aqui em Macau não há seguro de competição». O pai foi posto perante o facto consumado, «mas acabou por reagir muito bem». Fotógrafo profissional, com curso tirado na Inglaterra, Jerónimo, de 25 anos, corre pela primeira vez no circuito da Guia, sem qualquer treino a sério. No pior troço, a subir a estrada de Cacilhas, tenta a sua sorte «num buraquinho» e consegue ir para a frente. Até ao fim. No pódio, com a coroa de louros à volta do pescoço, não cabe em si de contente. O cheque para o vencedor é de sete mil patacas – nem metade do aluguer do carro. Jerónimo passou de ilustre desconhecido a herói macaense – do dia e do Grande Prémio. Ele e Mário Sin, o director das provas. Pela primeira vez em 46 edições, a função é desempenhada por um homem da terra. O que explica o destaque que lhe é dado pelas televisões de Hong Kong. E uma pessoa não pode deixar de perguntar: era mesmo necessário esperar por 1999 para um macaense dirigir o Grande Prémio? UM grupo de vietnamitas apresenta queixa numa esquadra. São jovens e bonitas, bem feitas de corpo. Revelam indignação, revolta, desespero mesmo. A sua história é comum a muitas outras mulheres do Vietname, das Filipinas, da Coreia, até do interior da China. Foram contratadas por um angariador, com promessas de trabalho como empregadas domésticas ou operárias numa fábrica de vestuário ou de electrónica. A promessa é algo vaga, mas o salário acenado, a hipótese de um emprego e o simples rasgar de horizontes são quanto basta para aproveitarem o bilhete de ida com que são seduzidas. Chegadas a Macau, espera-as um mundo de enganos e ilusões. Em vez da fábrica ou do serviço doméstico, vão parar às casas de saunas ou massagens, onde são conduzidas à prostituição. Perdidas num meio desconhecido, sem dinheiro para o bilhete de volta e sobretudo sem o passaporte (retido pelos angariadores), são obrigadas a entrar no jogo. Foi o que sucedeu a estas vietnamitas. Contam aos policias que chegaram há um mes, prometeram-lhes 300 patacas por cada cliente, mas até agora nada receberam. Juntas e ludribiadas, ganharam coragem para apresentar queixa. Levadas a tribunal, contam a mesma história. O juiz de piquete não se surpreende. O crime de lenofilia é frequente e severamente punido. «É um novo tipo de escravatura», comenta um magistrado. O mais provável é que as mulheres sejam repatriadas. O angariador e o gerente da sauna serão chamados a depor. Servidos por bons advogados, e perante a dificuldade em fazer prova do crime, talvez sejam advertidos. Passarão a ter mais cuidado. O negócio é fabuloso, a procura é muita, o mercado ainda maior. Se não for no Vietname, será na Tailândia, na Coreia, nas Filipinas, na China. Onde quer que haja mulheres jovens, bonitas, disponíveis. E incautas.
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