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– EDMUND HO DEIXA DEPUTADOS E POPULAÇÃO SEM ESCLARECER CASO AO MAN LONG E OUTRAS MATÉRIAS DO INTERESSE PÚBLICO – AMÁLGAMA POLÍTICA NO BALANÇO DOS ÚLTIMOS DEZ ANOS – ANÚNCIO DE  NOVAS MEDIDAS RESERVADO A CHUI SAI ON

Açorda Macau

 

A UM mês do décimo aniversário da Região Administrativa Especial de Macau e da passagem de testemunho de Edmund Ho para Fernando Chui Sai On, o Governo entrou em auto-gestão, auto-infligindo-se num silêncio inquietante para a população, cuja incógnita sobre o futuro cresce de dia para dia.

A ida do Chefe do Executivo à Assembleia Legislativa (AL) redundou numa mão cheia de nada. Talvez saudoso dos seus tempos de estudante, Edmund Ho limitou-se a despejar matéria, com a diferença que, desta vez e ao contrário do que acontece em qualquer universidade, não permitiu ser questionado, – interrogado, interpelado, como o leitor preferir.

Em quase uma hora e um quarto de discurso, sem qualquer interrupção, o líder da RAEM passou os últimos dez anos em revista, com especial incidência para 2009, colocando a tónica no muito feito pelo Governo no combate à crise financeira.

O social também não foi esquecido, com Ho a enumerar as medidas levadas a cabo pelo Executivo.

Acontece, no entanto, que muito do que foi dito pouco ou nada acrescentou ao anunciado em Novembro de 2008, – aquando da apresentação das Linhas de Acção Governativa para 2009, – dado que os projectos mais importantes, com maior repercussão na vida das pessoas, estão por concluir. É o caso da construção de habitação social e da implantação efectiva de um regime universal de segurança social.

Bem espremido, de positivo apenas ressalta a abertura de um lar público de idosos, – entregue a gestores privados, com todas as implicações que isso acarreta em termos de despesa para os cofres públicos, como se o Instituto de Acção Social não tivesse sido criado para este tipo de funções, – já que a atribuição da contribuição pecuniária, de vales de saúde e a dotação de verbas para ajudar os jovens na compra da primeira habitação não resolvem os problemas da população, como ainda inflacionam o custo de vida.

No restante, o relatório lido por Edmund Ho é uma açorda política, em que todas as áreas de governação aparecem misturadas, sendo evidente a falta de preparação de quem elaborou o texto.

Abordado o social, a tempestade de ideias começa com a lei de salvaguarda da segurança do Estado (vulgo artigo 23.º); prossegue para as eleições do Chefe do Executivo e da AL (está assim feita a defesa de Vasco Fong junto dos deputados); roça as concessões de jogo, deixando as explicações para um chá com a Comunicação Social em Santa Sancha; fala das comissões pagas aos croupiês, – uma matéria que há muito deveria estar fechada, soubesse o Governo impor a sua autoridade junto das concessionárias de jogo; e refere, por alto, a importância da indústria cultural.

Por último, cambaleia por temas como a integração regional – foi preciso Pequim abrir as mentes­ –; como a revisão dos regimes jurídicos do pessoal de direcção e chefia e das carreiras da Função Pública – feita de modo avulso ao sabor da maior ou menor contestação dos diferentes sectores da Administração –; como a acção dos comissariados contra a Corrupção e da Auditoria – se foi assim tão positiva, porque se pondera o afastamento de Cheong U e Fátima Choi? –; como a defesa da propriedade intelectual – os serviços de Economia e Alfândega queixam-se, em silêncio, da falta de meios de prevenção e combate –; como a construção do metro ligeiro – matéria sensível, pois envolve muitas adjudicações de vários milhões de patacas –; como o alargamento da escolaridade obrigatória – para os «democratas», um dos poucos aspectos positivos deste Governo –; como a gripe A – os Serviços de Saúde ainda não esclareceram a escolha da Novartis, em detrimento de outros laboratórios –; como a construção de um hospital de urgência – a população já disse preferir a construção um novo hospital público na Taipa –; como o combate ao tabagismo (proposta de lei que tarda em conhecer a luz do dia) e à salinidade (vão valendo os esforços da Macao Water para debelar o problema).

A Teledifusão de Macau, da qual Edmund Ho foi administrador, também não foi esquecida, mais por uma questão de cortesia (a TDM comemorou este ano o seu vigésimo quinto aniversário) do que propriamente em resposta às recentes críticas dirigidas por alguns deputados à estação local.

Assuntos tabu

Os deputados já tinham sido informados que estavam proibidos de interpelar o Chefe do Executivo. Daí o descontentamento demonstrado por Ng Kuok Cheong, Au Kam San e Chan Wai Chi em pequenos pedaços de cartão contra o silêncio imposto por Edmund Ho.

Os «democratas» pretendiam que Ho se pronunciasse sobre o caso Ao Man Long, mas sobre o assunto não ouviram palavra.

O mega-escândalo de corrupção não foi, contudo, a única alínea a ser «esquecida» pelo Chefe do Executivo, pois também nada foi dito sobre a revisão do regime de inimputabilidade criminal – proposta de lei aprovada na generalidade, que haveria de ser posteriormente retirada –; nada foi dito sobre a proposta de lei para a salvaguarda do património – o director da Associação para a Protecção do Património Histórico e Cultural de Macau, Cheang Kuok Keong, já se mostrou preocupado quanto à possibilidade da UNESCO retirar o território da lista do património mundial –; nada foi dito sobre a concessão de terrenos, numa altura em que a Galaxy e o Governo andam nas bocas do mundo pelas piores razões; nada foi dito sobre a reorganização dos conselhos consultivos – está mais do que provado que muitos não servem os interesses da população, funcionando apenas como trampolim para os «príncipes do sistema» –; nada foi dito sobre a construção do metro, no que respeita à fiscalização dos concursos públicos para a adjudicação de empreitadas, materiais e equipamentos; e nada foi dito sobre a construção de um novo hospital na Taipa, apesar de algumas datas já terem sido atiradas para o ar.

Chá pelo pêlo

Terminada a sessão na Assembleia Legislativa, os jornalistas dirigiram-se para a residência oficial do Chefe do Executivo, Santa Sancha, para ouvirem da boca de Edmund Ho aquilo que os deputados gostariam de ter ouvido hora e meia antes.

Sobre Ao Man Long disse não se pronunciar para não influenciar a justiça – ou será que outras investigações ainda não são conhecidas do grande público!? – indo ao encontro do que já havia afirmado em resposta a uma interpelação escrita.

A concessão de lotes do COTAI à Galaxy a preço de saldo foi igualmente abordada por Edmund Ho, tendo este refutado as críticas de Pansy Ho, – a filha de Stanley Ho disse, em entrevista a um jornal local, que o Governo favoreceu a Galaxy na atribuição dos terrenos, – argumentando que o Executivo apenas procurou angariar novos investimentos para a zona, através de condições favoráveis, uma vez que – segundo ele – «ninguém queria investir no COTAI».

Por esclarecer ficou a revisão do regime de inimputabilidade continuar na gaveta e o porquê da proposta de lei para a preservação do património, a reorganização dos conselhos consultivos, a fiscalização das diferentes etapas da construção do metro ligeiro e a edificação de um novo hospital público continuarem em banho-maria.

O convite de Edmund Ho aos jornalistas para uma conferência de Imprensa em Sancha Sancha dá azo a duas leituras distintas: o Chefe do Executivo quis despedir-se da Comunicação Social depois de o fazer na AL, mostrando reconhecer a sua importância para o desenvolvimento da RAEM ou, por outro lado, sabendo de antemão que a sua «performance» no hemiciclo iria ser a pior dos dez anos de governação, procurou aquecer os corações dos jornalistas com um chá caseiro. Se foi esta a intenção, parece ter conseguido. O tom literário das notícias do dia seguinte foram bem meigas para o cicerone.

Querer não é poder

No meio de tanto nada, uma revelação: Depois da Praia Grande, Edmund Ho quer sopas e descanso. A pensar, quiçá, no seu desporto favorito, o golfe.

Mas, em política, e principalmente na China, uma vez político, político toda a vida.

Assim, por muito que o ainda Chefe do Executivo queira, se vier uma guia de marcha para ocupar um qualquer cargo com vista para a Praça de Tiananmen, não lhe restará outra solução senão rumar a Pequim e sentar-se ao lado do seu ex-homólogo Tung Chee-hwa.

No dia 20 de Dezembro ficar-se-á a saber o futuro de Edmund Ho. Será aquilo que o Governo Central lhe tiver reservado.

A viagem será feita em classe executiva.


JOSÉ MIGUEL ENCARNAÇÃO

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