OLHANDO EM REDOR |
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«Um jornalismo sério, rigoroso, imparcial é um direito que assiste a todos num Estado de Direito. A população tem o direito a ser informada com verdade e rigor, e o jornalista não deve ver dificultado a sua missão de informar. Não podem ser toleradas pressões que dificultem a função altamente meritória desse direito, que é comum ao cidadão e ao jornalista», acrescentou Coutinho. Algumas horas mais tarde, durante o telejornal em língua portuguesa, a direcção de informação do canal chinês da TDM, por intermédio de um comunicado, esclareceu o seguinte: «De acordo com a nossa linha editorial, agimos de forma equitativa para com todos. Ao realizar reportagens sobre as eleições e a campanha eleitoral, o canal Ou Mun sempre procurou, procura e continuará a procurar proceder de forma justa para com todos os intervenientes». Segundo a imprensa chinesa, a candidata à qual foram feitas perguntas incómodas terá sido a cabeça de lista do «Observatório Cívico», Agnes Lam, que goza de algum ascendente junto dos media chineses: a docente da Universidade de Macau, embora já tenha sido jornalista na TDM, colabora ainda com a concessionária de serviço público, nos canais da rádio e televisão, e escreve, com regularidade, artigos de opinião no jornal Ou Mun. A também presidente da Associação Energia Cívica de Macau veio já a terreiro refutar as alegadas pressões. Embora acredite que as queixas ouvidas por Pereira Coutinho tenham sido verídicas, estou também convicto que o comunicado da TDM é verdadeiro na sua essência. Estando ambas as partes certas quanto à sua posição, como será possível que nenhuma delas se desvie da razão? Em 2005, numa entrevista que efectuei a Manuel Gonçalves, a dada altura fiz-lhe a seguinte pergunta: «(...) voltando ao projecto editorial, será um projecto pró-governo ou poderá fazer-se outro tipo de jornalismo, mais virado para a investigação e para as comunidades expatriadas?». A resposta que obtive foi a seguinte: «A televisão é de serviço público. Macau é um território e não um Estado. A TDM não é uma televisão governamental. A televisão serve o público e a população local. Devo dizer que, em termos de programação, nunca o Governo interferiu com a TDM ao longo destes cinco anos da RAEM [estávamos – recordo – em 2005]. Felizmente, não recebo telefonemas de governantes. Se calhar a situação não era bem a mesma durante a Administração portuguesa». Efectivamente, segundo alguns relatos que anteriormente recolhi junto de vários jornalistas do canal português de televisão da TDM, durante determinado tempo da Administração portuguesa, chegaram a ser tidas em conta as preferências de membros do Governo de então sobre a forma como determinadas notícias deveriam de ir para o ar na TDM. Essas interferências, de acordo com os mesmos jornalistas, nunca foram sentidas após a transferência de poderes. Posições É minha convicção pessoal que o administrador executivo da TDM nunca mandou recados para «baixo», no sentido de que determinada notícia fosse elaborada desta ou daquela maneira, mas também admito que possam existir alguns profissionais que optem por uma postura mais moderada e não tanto crítica sobre determinadas matérias. Independentemente do que tenha realmente acontecido, será bom que a TDM instaure um inquérito interno, por forma a clarificar os factos, mediante a assunção das responsabilidades dos diversos intervenientes. Noutro quadrante, é preciso perceber que a TDM é uma empresa privada com capitais públicos. Traduzindo à letra, o Governo detém cerca de 99,8 por cento do seu capital. Por outro lado, o administrador executivo, Manuel Gonçalves, integrou o grupo restrito de 300 personalidades que compôs a Comissão Eleitoral do Chefe do Executivo, em 2004; e integra agora o mesmo órgão, que elegerá Chui Sai On como futuro Chefe do Executivo na sucessão a Edmund Ho. Visto o assunto de outro prisma, penso que falta à TDM algum grau de transparência. Não quero com isto dizer que os seus responsáveis cometem/cometeram ilegalidades ou actos de corrupção. Contudo, gostaria de saber por qual razão os plenários da AL não são transmitidos regularmente pelos dois canais de televisão, quando, em contrapartida, as LAG têm sempre transmissão assegurada. Será incómodo que os cidadãos possam ouvir na íntegra o que os deputados têm a dizer no período Antes da Ordem do Dia? Ou, ainda, por que razão se transmite em directo o pedido do cessar de funções no cargo de secretário para os Assunto Sociais e Cultura, por parte de Chui Sai On, e não se dá o mesmo tratamento à manifestação de 1 de Maio, que coincide com o Dia Mundial do Trabalhador? Muito naturalmente, não será de estranhar que vários cidadãos possam questionar os critérios adoptados pela TDM. Paupérrima lusofonia Através da RTP Internacional visionei, na madrugada do passado Domingo, a cerimónia de abertura dos segundos Jogos da Lusofonia, que decorreu no Pavilhão Atlântico, em Lisboa. O espectáculo a que assisti foi paupérrimo. Além da cerimónia ter decorrido num recinto coberto, notei que as bancadas estavam com várias clareiras, o que denotou, à partida, algum distanciamento dos lisboetas – e dos portugueses em geral – para com o evento. Por outro lado, as coreografias escolhidas para abrilhantar a cerimónia de abertura revelaram-se sem fulgor, em total contraste com os primeiros Jogos da Lusofonia, realizados na RAEM em 2006. Acto contínuo, tem-se verificado que os recintos desportivos que acolhem as competições destes segundos Jogos têm estado, de uma maneira geral, «às moscas». Mesmo assim, além de Macau, de Portugal e do Brasil não estou a ver – por agora – mais algum país ou território, no quadro dos Jogos da Lusofonia, que esteja em condições de organizar o evento com assinalável sucesso. Espero, contudo, que o projecto consiga singrar. Sendo importante que este evento continue a manter-se de pé, julgo, porém, que o seu conceito deve ser reformulado, se quiser ganhar a dimensão que todos nós – lusófonos – desejamos.
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PEDRO DANIEL OLIVEIRA |
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