FORA DO BARALHO |
Profeta Gentileza |
Esta é a primeira imagem da cidade que muitos consideram a mais bela do mundo. E poderá ser, em dias soalheiros, se a avistarmos do alto do Corcovado, de olhos fixos nas águas da Baía de Guanabara. Mas nada tem de belo o Rio de Janeiro, quando entramos pelo lado Oeste, por um istmo que parece uma ponte e uma ponte que parece um istmo, aeroporto do Galeão à nossa direita, depois da Ilha do Fundão, unida agora à Ilha do Governador. Ao longe, por entre os morros com séculos de histórias para contar, é visível a Igreja de Nossa Senhora da Penha. Sinais de modernidade, a ponte que liga Rio a Niterói e os inúmeros arranha-céus. Não consigo acompanhar, com o olhar posto no céu, que continua cinzento, os aviões que aterram no aeroporto do Galeão. Em São Paulo pareciam-me estar parados, aqui desaparecem do meu campo de visão num ápice. Eis-nos, minutos depois, na avenida perimetral, que por meandros vários nos conduz à rodoviária central da cidade. Estou de regresso ao Rio de Janeiro, oito anos depois da minha primeira visita. Parece-me mais degradada, mais caótica. Os alertas feitos poemas do Profeta Gentileza permanecem nos postes de cimento que sustentam o viaduto que acompanha em toda a extensão o porto, ao longo da Avenida Rodrigues Alves. «Gentileza gera gentileza e amor», alerta o Profeta, excêntrica personagem carioca, em letras azuis limitadas por linhas amarelas e azuis, as cores do Brasil. Palavras maiúsculas e sem pontuação, sempre com a bandeira brasileira ao canto superior direito e ao fim de cada frase. Eis uma das passagens: «Meus filhos. Todos vós sois inteligentes. Nossa cabeça, nosso mestre. O mundo é uma escola, ensina o que é bom do que não presta. Pediu Jesus, separai o trigo do joio. Quem não veio para servir não serve para viver. Ferro velho, voltamos ao paraíso de Deus. Pensamento positivo. Boa palavra porta do céu, do mesmo pensamento mal e do diabo por Jesus disse. Profeta gentileza e amor». E mais: «Nosso Pai gentileza Criador do Universo e natureza, não vende terra, não cobra para nos alimentar, esta luz do mundo que é nossa vida e de todos os seres viventes. O mundo é de graça. O que vende tudo destrói, os próprios filhos de Deus dos homens pelas leis do Capeta, vem de origem de capital faz o diabo demónio o marginal e os filhos de Deus vivem mal. O capital destrói a mente, cega destrói o amor por Jesus, disse o Profeta Gentileza com amor e paz». Na parte inferior dessas colunas, numa mensagem mais terra a terra, a tenda espírita Búzios e Cartas oferece «missão de caridade por apenas cinco reais». Aproveitando a fama e imitando o Profeta, alguém deixou uma mensagem contra a maior festa brasileira: «Carnaval festa da carne nasceu na traição de Jesus. Festa diabólica todos que vão compartilhar com a ajuda de Jesus na TV, peladas do jeito que o diabo dos homens gostam, mas Deus não». Em jeito de assinatura, uma cruz invertida. Dizer que «Haloween é festa pagã» ainda vá que não vá; agora falar do Carnaval num tom tão reprobatório, no Brasil, é quase um convite ao linchamento. No tacanho interior da estação rodoviária, a confusão é a mesma de há uma década. A única melhoria visível traduz-se na introdução de computadores, embora o sistema caia com frequência. Sem o querer, ouço críticas severas à empresa São Geraldo, que em alguns dos seus autocarros utiliza caravelas como logótipo. Será português o dono? Se o for, também o é da Contijo, pois ambas estas empresas parecem estar associadas. «Mas que companhia vagabundazinha…», desabafa alguém que aguarda um familiar que viaja num dos veículos que está com um atraso de várias horas, sem que ninguém por detrás do balcão sabia dizer quando chegará. Portugueses, também, serão os donos da eficiente empresa citadina BrasLisboa, cujos autocarros cruzam as artérias da cidade com bastante regularidade. Uma vez que a estada vai ser curta, o melhor é colocar a bagagem mais volumosa num cacifo colectivo, que no Brasil se designa de guarda-volumes. Enquanto trato disso, vislumbro entre a multidão apressada dois homens envergando batinas negras. São monges beneditinos. Pergunto-lhes onde se situa o mosteiro e eles respondem-me: – É muito perto. Não mais do que quinze minutos de táxi. E com quem devo falar? Mauro é seu nome? Então por Mauro perguntarei. Primeiro, no entanto, há que tratar das necessidades básicas. Decido ficar no hotel mais próximo, que, pelos vistos, é o único nas redondezas. O Hotel da Rodoviária é incaracterístico e pequeno, mas razoavelmente limpo, o que já não é mau. A um canto do lóbi há uma estátua do Santo António enfiada num nicho e regras rigorosas que implicam um «check out» às onze da manhã, como é norma no Brasil. O velho gerente (inicialmente antipático, mas que mais tarde me contará quase toda a sua vida) chama-se Sales. É português, tem mais de setenta anos e continua malandro com as moças, como tenho oportunidade de o comprovar, quando o vejo fazer uns avanços junto de uma das empregadas. Garantido o alojamento (prioridade das prioridades), apanho o autocarro para a Praça de Mauá, pois dizem-me que o Mosteiro de São Bento se situa nessa área. Apesar dos dois quilómetros de distância apenas, passo uma hora e meia num infernal pára-arranca – um caos total! Ainda bem que não optei pelo táxi. O primeiro transeunte que abordo na Rua Sacadura Cabral, com pensões baratas mas pouco recomendáveis, aponta na direcção de um arranha-céus com janelas de vidro. «É para ali». Mas… como pode ser? Um mosteiro dentro de um prédio? Imaginem o meu espanto, que pensava ter de subir um morro… «Só pode estar escondido», deduzo. Atravesso a Avenida Rio Branco, entro na Rua Dom Gerardo e, no número 68, deparo com uma entrada que dá para um minúsculo espaço verde, literalmente entalado no betão. A pequena placa acastanhada não deixa dúvidas: Mosteiro de São Bento. Um monge de batina preta que desce a rampa confirma: – É mesmo aí em frente.
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