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Ano Paulino

40 perguntas sobre S. Paulo

 

(CONTINUAÇÃO)

39. Hoje, quando falamos das primeiras comunidades cristãs, imaginamos comunidades perfeitas e desanimamos face às nossas dificuldades. Será verdade? O que é que Paulo nos pode dizer sobre isto?

O que Paulo nos tem a dizer é aquilo que ele viveu e conheceu, tanto da sua própria experiência, como da experiência da comunidade dos primeiros cristãos, em Jerusalém. A narração dos factos vividos é o que mais ajuda a desfazer a ideia de que as primeiras comunidades fossem feitas só de santos, sem problemas.

O livro dos Actos dos Apóstolos apresenta a primeira comunidade de Jerusalém como exemplo para as comunidades de todos os tempos. Lucas caprichou naqueles pequenos resumos que fez da vida dos primeiros cristãos (Act. 2, 42-47; 4, 32-35; 5, 12-16). Neles, descreve não tanto o que existiu de facto, mas sim o que deveria existir sempre em toda e em qualquer comunidade. Colocou o ideal da comunidade perto da fonte, que é a ressurreição de Jesus.

Mas Lucas não escondeu a realidade dura da caminhada. Lendo nas linhas e nas entrelinhas, percebe-se que havia muitos problemas e dificuldades. Não eram tão santos e tão diferentes de nós, como ás vezes imaginamos. Eis a lista de alguns dos problemas da primeira comunidade:

1 – A tentativa de Ananias e Safira de usar a comunidade para se promover (Act. 5, 1-11);

 2 – A desavença entre os «hebreus» (judeus convertidos da Palestina) e os «helenistas» (judeus convertidos da diáspora) por causa da assistência diferenciada dada às viúvas (Act. 6, 1 );

3 – A tensão interna por causa da liderança de Estêvão: o grupo dos helenistas, ligado a Estêvão, é perseguido e tem de fugir, enquanto os apóstolos, (provavelmente, o grupo dos hebreus), continuam em Jerusalém (Act. 8, 1);

4 – A tentativa de alguns de comprar o carisma e o dom do Espírito Santo através de dinheiro (Act. 8, 19);

5 – A falta de gente para anunciar o Evangelho (Act. 8, 31);

6 – A perseguição dos cristãos por parte dos sacerdotes (Act. 4, 1-3) e, mais tarde, por parte dos fariseus (Act. 8, 1-3: Saulo é fariseu);

7 – O conflito entre os cristãos vindos do judaísmo e os que tinham vindo do paganismo (Act. 15, 1);

8 – A incerteza e a dúvida de Pedro: não sabe como comportar-se nem como enfrentar o problema (Gl. 2, 11-12);

9 – A exigência feita a Pedro por parte de um grupo mais conservador que não concordava com ele (Act. 11, 2-3.18);

10 – A falta de coordenação geral, pois as coisas acontecem e os apóstolos só sabem depois (Act. 11, 19-22).

Mesmo assim, apesar de todas estas dificuldades, a animação era muito grande. Eles não desanimavam e as comunidades cresciam (Act. 2, 41.47; 4, 4; 5, 14; 6, 1.7; 9, 31; 11, 21.24; 16, 5; etc.). As comunidades eram um novo modo de ser Povo de Deus!

O mesmo vale para as comunidades fundadas por Paulo nas grandes cidades do Império Romano. Só que nelas os conflitos e os problemas eram bem maiores. Algumas destas dificuldades já foram vistas em respostas anteriores. Vou recordá-las aqui, acrescentando algumas outras. Eis a lista provisória:

1 – A falta de instrução por parte dos líderes, como Apolo, que nada entendia do baptismo (Act. 18, 25-26);

2 – Continuava a influência de João Baptista, a ponto de várias pessoas só conhecerem o baptismo dele; nada sabiam do Espírito Santo (Act. 19, 1-3);

3 – As divisões internas por causa das linhas de orientação diferentes de Paulo, de Apolo e de Pedro (I Cor. 1, 12; 4, 6);

4 – A mentalidade grega em choque com a mentalidade judaica: o conceito de autoridade grego é mais «democrático» e o do judeu é mais «tradicional», o que foi uma das causas do conflito que havia entre Paulo e a comunidade de Corinto (II Cor. 10, 8-11; 12, 11-18; 13, 2-4);

5 – Os cristãos vindos do judaismo tinham chegado ao ponto de tentar destruir o trabalho dos cristãos vindos do paganismo: eram os «falsos irmãos» (Gl. 2, 4-5; 6, 12-13; I Ts. 2, 14-16);

6 – As desavenças pessoais de Paulo com Barnabé, por causa de João Marcos (Act. 15, 37-39) e de Paulo com Pedro por causa de ideias diferentes (Gl. 2, 11-14);

7 – A mentalidade grega que não conseguia aceitar a ressurreição (Act. 17, 32; I Cor. 15, 12);

8 – Os falsos doutores que espalhavam a confusão nas comunidades (I Tm. 4, 1-7);

9 – Os problemas com a religiosidade popular dos povos da Ásia Menor (Act. 14, 11-18);

10 – O problema do lugar da mulher nas comunidades: nem tudo estava claro (I Cor. 11, 3-12; 14, 34-35; I Tm. 2, 9-15);

11 – O problema dos carismas, usados por alguns para se promover a si mesmos e não para construir a comunidade (I Cor. 14, 1-32);

12 – A falta de respeito de uns para com a fragilidade de consciência de outros (I Cor. 8, 7-13; Rm. 14, 1-15);

13 – A pretensão de alguns de usar a liberdade em Cristo como pretexto para a libertinagem (I Cor. 6, 12-20; 5, 1-13);

14 – A divisão social e a falta de ordem durante a realização da Eucaristia (I Cor. 11, 17-34);

15 – A vontade de alguns em seguir o ideal grego da vida intelectual, sem trabalhar com as próprias mãos, enquanto Paulo queria exactamente o contrário (II Ts. 3, 10- 12).

Os problemas eram muitos e as comunidades não eram perfeitas. Eram o espelho do que acontece hoje, onde pessoas bem intencionadas de diferentes origens e mentalidades decidem caminhar juntas. A fraternidade é um desafio! Grande parte destes problemas era de transição. As comunidades eram o novo modo de ser do Povo de Deus. A transição do modo antigo para o modo novo não foi fácil. Paulo foi o instrumento para ajudar nesta transição, sem a qual a Igreja teria naufragado e jamais teria chegado até nós.

Foi a transição do mundo judaico para o mundo grego; do mundo rural da Palestina para o mundo urbano da Ásia Menor e da Grécia; do mundo mais ou menos harmonioso e coerente do Judaísmo para o mundo pluralista das grandes cidades do Império, cheias de conflitos; de uma situação de comunidades soltas, quase sem organização, para uma situação de comunidades bem organizadas; de uma Igreja fechada, feita só de judeus convertidos, para uma Igreja aberta, que acolhe a todos; do período dos apóstolos, ou seja, da primeira geração de líderes, para a Igreja pós-apostólica da segunda geração de líderes, que já não tinham tido contacto com Jesus; de uma Igreja, cuja doutrina e disciplina vinham em grande parte do Judaísmo, para uma Igreja que começava a elaborar e organizar a sua própria liturgia, doutrina e disciplina; de uma religião ligada às comunidades bem situadas dos judeus da diáspora, para uma religião mais ligada ao povo pobre das periferias urbanas das grandes cidades do Império Romano; de uma religião que cultivava o ideal da classe dominante, para uma religião que tinha a coragem de apresentar um novo ideal de vida ao povo trabalhador: «ocupar-se das suas próprias coisas e trabalhar com as próprias mãos: assim não precisareis da ajuda de ninguém» (I Ts. 4, 11-12).

(CONTINUA)

 

ECCLESIA / LUSA


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