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FORA DO BARALHO

Mariana, nome de cidade

 

A ESTRADA de Ouro Preto a Mariana acompanha, por vezes, o trilho da Maria Fumaça, uma locomotiva a vapor que liga estas duas cidades históricas da província de Minas Gerais, onde as igrejas dominam a linha urbana.

No restaurante São Francisco travo conhecimento com o presidente da AMM (Associação Mineira de Municípios), e actual prefeito de Mariana, Celso Cota Neto, que está acompanhado pelo seu sucessor – e certamente amigo – Roque Camêllo – advogado, senhor de uma excelente oratória – e ainda Lélio Pedrosa Mendes, o homem da cultura.

Numa breve conversa com estas pessoas fico a saber que Mariana, Património Nacional, uma das primeiras cidades projectadas no Brasil, tem em curso o processo de candidatura para o título Património da Humanidade.

Uma calçada com pedra de moleque conduz-nos ao terreiro espreitado pelas igrejas de São Francisco (ao estilo da de Ouro Preto) e de Nossa Senhora do Carmo, estruturas imponentes que chamam a atenção do visitante. Domina a praça um pelourinho muito peculiar. É encimado por uma esfera armilar brasileira (símbolo máximo do imperador), que repousa sobre um capitel cujos ornatos lembram dois olhos. Mais ou menos a meio da coluna está um escudo de bronze com as armas portugueses. De bronze ainda são os braços que saem dessa coluna e que simbolizam a acção da justiça. Na mão de um deles está uma balança; na do outro uma espada. Há neste curioso monumento uma clara intenção de representar a figura humana. Os ornatos do capitel são os olhos; o escudo é o tronco. Se Cutileiro tivesse vivido no século XIX esta seria, com certeza, uma obra sua.

A prefeitura de Mariana, sedeada num belo casarão brasonado, que mais parece um museu, é o terceiro dos edifícios históricos que embelezam a praça. No piso de baixo está a Sala dos Vereadores e a Secretaria da Câmara. No primeiro andar, o local onde reúnem os deputados, à semelhança do que acontecia no século XIX. Pendurado na parede, destaca-se o quadro da infanta Dona Maria Ana de Áustria, que Dom Duarte, herdeiro do trono português, ofereceu recentemente à cidade que perpetua o nome da sua antepassada.

Pode dizer-se que o Estado de Minas Gerais nasceu aqui, nas margens de um córrego onde instalaram acampamento os paulistas Salvador Fernandes Furtado de Mendonça e Miguel Garcia, líderes da bandeira que em 1696 chegou a esta região em busca dos apetecíveis metais preciosos.

O acampamento inicial, próximo do local onde a mineração era feita – tinha o curioso nome de Mata Cavalos, – alargar-se-ia a um arraial que cedo seria baptizado com nome de santo, pois os garimpeiros eram crentes e supersticiosos. O calendário era um factor importante para essa nomeação. Assim, Mariana foi inicialmente Arraial do Ribeirão do Carmo, em honra à padroeira da cidade, Nossa Senhora do Carmo. Os primeiros anos de exploração foram calamitosos. A fome e a doença grassavam e foram muitos os que morreram antes de verem acumulada qualquer riqueza. As dificuldades levaram a um abandono colectivo. Só em 1703, agora formalmente organizado, o Arraial do Ribeirão do Carmo se começa a desenvolver.

Surgia assim, nesta montanhosa e inóspita região, o primeiro Estado do Brasil com características modernas, num contraste com a estrutura inerte das fazendas dos engenhos do litoral norte. Neste oeste pioneiro convergiu gente das mais diversas origens e ofícios, em busca do sucesso e, por isso, durante muito tempo, nem reinou rei nem roque. Aqui se instalaram escultores, carpinteiros, ferreiros e cedo sobrevieram os inevitáveis conflitos, sendo o mais conhecido a guerra dos Emboabas. Para pôr ordem no caos, a coroa portuguesa nomeou António Albuquerque Coelho de Carvalho como governador do Estado de Minas. A primeira missão que lhe incumbiu o rei foi a de escolher um povoado e fazer dele uma vila. Assim nasceu, em 1711, a primeira vila de Minas e também a primeira capital.

A mineração começou por acontecer junto aos riachos. Quando o ouro deixava de aparecer nas peneiras, os homens concentravam-se nas pequenas galerias escavadas nas proximidades e, finalmente, esgotado o filão, passavam a explorar as minas propriamente ditas.

O primeiro bispo de Mariana, Dom Frei Manuel da Cruz, tem uma história muito curiosa associada à sua personagem. Viajou de cavalo, e durante 14 meses, do norte do Brasil (de São Luís do Maranhão), até Minas Gerais. Passou por imensas dificuldades, entre as quais «dois naufrágios e seis sangrias». Para o receber, a cidade engalanou-se e organizou a festa do «Áureo Trono Episcopal», a segunda maior festa realizada em Minas Gerais durante o período colonial. Nesse mesmo dia, a vila foi elevada à categoria de cidade e adoptou o nome de Mariana, por decisão de D. João V, que assim homenageava a sua mulher, Dona Maria Ana de Áustria.

Mariana foi primeira em tudo. Primeira vila. Primeira cidade. Primeira capital. Primeira sede do bispado. Foi, por assim dizer, o berço da civilização mineira. Os sinais desse fausto estão nos seus casarões, com belas escadas em pedra sabão, nas suas igrejas e nas celebrações da Semana Santa, da Festa do Divino – presente em todo o Brasil, – da Adoração do Santíssimo, e também das diversas manifestações populares de cunho pagão, como é o caso dos Zé-pereiras da Chácara, do Boi-da-Manta e da Congada. Já a Malhação de Judas, as Pastorinhas e a Folia de Reis são exemplo da mistura entre o culto pagão e cristão.

 


Texto e Foto: JOAQUIM MAGALHÃES DE CASTRO

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