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Entrevista ao secretÁrio-geral da Caritas, Paul Pun

«Não tenho confiança no actual sistema político»

A prevenção da toxicodependência, a integração dos trabalhadores migrantes, a promoção de uma maior participação cívica e a progressiva reforma do sistema político são apenas algumas das áreas por que pretende lutar a lista Associação de Apoio à Comunidade e Proximidade (ACPP), encabeçada pelo secretário-geral da Caritas. Depois de duas eleições falhadas – em 2001 e 2005, – Paul Pun volta à carga, tendo oficializado na terça-feira a corrida às próximas legislativas. Prometendo fazer o possível por uma população que considera pouco participativa, o responsável da Caritas quer fazer chegar ao hemiciclo as preocupações daqueles que normalmente não se fazem ouvir.

 

CLARIMPorque decidiu candidatar-se novamente às eleições?
Paul Pun – Há oito anos decidi participar, pela primeira vez, nas eleições. Porém, nestas legislativas, pensei muito antes de me candidatar. Percebi que mais importante do que conseguir um lugar como deputado é encontrar um equilíbrio entre o meu trabalho e as eleições. Quando sirvo a população, nunca espero nada em troca, mas nas legislativas há sempre aquela questão do voto. Acabei por chegar à conclusão de que estão apenas a dar-me força para mudar alguma coisa. Assim, decidi apenas em Junho que me iria candidatar novamente. Tive de passar por um processo de reflexão sobre a melhor forma de manter a neutralidade e independência enquanto deputado.

CL – É possível manter a independência na Assembleia Legislativa?
P.P. É difícil ser neutro em Macau – a população vem sempre ter comigo e pressiona-me. Seja como for, tento. E, em todas as Comissões e Conselhos a que pertenço, o meu desafio foi sempre manter-me independente. Farei isso na Assembleia Legislativa, mesmo que a neutralidade não me garanta muitos apoios. É suficiente ter a confiança daqueles que me nomearam.

CL – Nas legislativas de 2001 e 2005 não foi eleito. Haverá alguma mudança de estratégia para garantir mais votos e, talvez, um assento na Assembleia?
P.P. Nas duas primeiras eleições perdi muito tempo a explicar tudo aos cidadãos. O problema é que, durante a campanha eleitoral, não se tem tempo. Desta vez, não preciso de explicar tantas coisas, as pessoas sabem mais. Nas legislativas anteriores, as pessoas nem sabiam que eu estava na corrida - achavam que estava apenas a apoiar uma lista candidata. Não conheciam bem o sistema.

CL – Se vai perder menos tempo a explicar as suas ideias, significa isso que agora os residentes estão mais bem informados?
P.P. – Da última vez, enquanto decorria a campanha, as pessoas já me chamavam deputado. Desta vez, não vai ser preciso explicar tanto. As pessoas já percebem mais facilmente e, talvez, consiga assim obter mais votos e ser eleito.

CL – Naapresentação da sua candidatura, revelou que irá fazer dos assuntos sociais a sua prioridade. Dada a composição da Assembleia Legislativa, em que deputados ligados aos interesses empresariais e ao jogo eram a maioria, – e partindo do princípio de que essa tendência se manterá na próxima legislatura – acha que será fácil levar adiante as suas propostas?
P.P. – Mesmo que seja uma minoria em termos numéricos, pretendo defender boas ideias e valores. Que servem todos. Por isso, vejo-me como a maioria. Quando apresentar as propostas na Assembleia Legislativa, os residentes vão saber, se for esse o caso, que o hemiciclo não aceitou. E talvez da próxima vez pensem se devem votar nesses deputados.

CL –Uma das prioridades da sua lista será o apoio a trabalhadores migrantes. Sabendo que tomando publicamente esta posição provavelmente perderá votos, não teme fazê-lo?
P.P. – Não penso só nos votos. Penso no aspecto global. Macau quer ser uma cidade internacional, mas não se preocupa em dar as boas-vindas aos trabalhadores que aqui se fixam. Já que cá estão, por que não incluí-los e torná-los nossos parceiros? Além disso, ao ajudarmos estes trabalhadores, estamos também a evitar a revolta destas pessoas e a proteger a comunidade local. Assim, se não disser tudo o que defendo durante a campanha, quem irá expressar as minhas preocupações? Pior do que perder alguns votos, é deitar por terra aquilo em que acreditamos.

CL – Talvez pudesse fazer mais por eles, se tivesse um assento na Assembleia Legislativa...
P.P. – O chamado bilhete de entrada... Os eleitores sabem que ajo em prol da sociedade. Vou estar na Assembleia Legislativa para proteger os interesses da população e desafiar os outros deputados quando apresentarem propostas das quais discordo. Se adoptasse a estratégia de manter-me calado antes das eleições, aqueles que me nomearam poderiam nem sequer tê-lo feito. Não conheceriam as minhas posições.

CL – Que outras preocupações fazem parte da sua lista?
P.P. – Quero apostar na educação. E não me refiro só em termos de ensino; digo também em termos de vida na comunidade. Temos de aprender a tomar conta uns dos outros e respeitar as diferenças. Por exemplo, dada a actual condição da sociedade, a juventude encontra-se em risco – recorrendo, inclusivamente, ao consumo de drogas, – porque os pais não têm tempo para os filhos. Há que mudar isso.

CL –Irá também lutar por uma maior democratização do sistema – isto é, por mais deputados eleitos por sufrágio directo e por uma eleição do Chefe do Executivo via sufrágio directo e universal?
P.P. – Sim. Queremos que menos deputados sejam nomeados e que se reduza o número de parlamentares eleitos por via indirecta. Ao persistir o sufrágio indirecto, poucas pessoas ligadas às instituições de caridade, por exemplo, têm hipótese de ser eleitas, por não reunirem o apoio da maioria. No entanto, não me parece que vá haver mudança quanto ao sufrágio indirecto. Quanto aos nomeados, é mais fácil que venham a reduzir o número de deputados. Tentarei impulsionar uma mudança neste sentido. No primeiro mandato do Chefe do Executivo, Edmund Ho, defendi o sufrágio directo e universal. Apercebi-me então de que não era possível na altura. Porque não permitir que seja a população a votar nos membros da Comissão dos Assuntos Eleitorais? Isso não significa que esqueça o princípio uma pessoa, um voto; estou apenas a encontrar uma solução de compromisso.

CL – As legislativas anteriores foram marcadas pela corrupção eleitoral. Acha que incidentes do género poderão repetir-se?
P.P. – Quando estava a recolher as minhas nomeações para apresentar a candidatura, houve quem me dissesse que fez um cartão de eleitor, porque outros amigos lhe disseram que seria rentável... Além disso, outro residente recordou que nas últimas eleições, chegou a receber presentes, em Zhuhai, em troca de votos. Quando falo com alguns cidadãos, sobretudo idosos, tenho consciência que muitos não sabem como agir. A Comissão Eleitoral da Assembleia Legislativa tem de informar as pessoas. Caso contrário, continuam a pensar que ir até à China para receber presentes não é um  problema. Não tenho confiança no actual sistema político.

CL – Concorda que deputados, cujos nomes estiveram envolvidos em processos  de corrupção eleitoral, se possam candidatar novamente?
P.P. – Não me posso pronunciar sobre os outros candidatos. Mas, se lhes perguntar, provavelmente dirão que, de acordo com a lei, são inocentes. Talvez o Governo deva incentivá-los a expressar as suas ideias através de outros canais, que não a Assembleia Legislativa. E se sucederem nestas eleições mais casos de corrupção eleitoral, o Governo terá de fazer qualquer coisa. Não se pode, pura e simplesmente, afirmar que não há forma de confirmar se foram eles os mentores de tais casos.

CL –Foi um dos 14 membros do Colégio Eleitoral que não nomeou Chui Sai On. Significa isso que não concorda com o seu nome para Chefe do Executivo?
P.P. – Devia haver outros candidatos. Analisando o seu trabalho enquanto secretário para os Assuntos Sociais e Cultura, posso dizer que, em particular, o segundo mandato não foi muito mau. Mas a população – e eu – continuamos sem perceber por que se tem de esperar pelo Governo Central para saber quem é o candidato certo. Defendo que qualquer pessoa, com vontade e confiança, deve avançar sem medo. Tentei ser independente. Não o nomeei, porque já tinha nomeações suficientes.

CL – Irá votar nele?
P.P. – Se disser que sim, o que é que isso significa? Pareceria que estou a tentar compensar o facto de não o ter nomeado. Não quero responder, porque não quero influenciar ninguém.

CL –Sendo os assuntos sociais uma área que tão bem conhece, como avalia o trabalho de Chui Sai On enquanto secretário que tutelava esta área?
P.P. – No geral, quando penso, por exemplo, na área da educação, parece-me que houve algumas contribuições positivas. Se foi por mérito dele ou por mérito do director dos Serviços de Educação e Juventude, Sou Chio Fai, não sei... O segundo mandato foi melhor do que o primeiro. No que toca à saúde, ainda há muito a fazer. Por exemplo, extinguiu o Conselho Consultivo de Reforma da Saúde – de que eu era membro, – sem pensar numa alternativa. O sistema de saúde continua a não ser bom. Devíamos ter mais um hospital. 

CL – Já está à frente da Caritas há quase duas décadas. Pondera, num futuro próximo, abandonar o cargo?
P.P. – Só se existir uma pessoa certa que queira desempenhar este trabalho... Não quer dizer que fique aqui para sempre, mas, se sair, vou ficar mais pobre e vazio. Por enquanto, continuo por aqui a ajudar os outros.

O número 2

Apesar de, nesta altura do campeonato, ainda não haver certezas nem estar formada a lista, Paul Pun revelou que será composta por mais quatro elementos – entre os quais se encontram pessoas ligadas à protecção do ambiente. O número 2 é Leong Kam Chung, o presidente da Associação de Auditores e Técnicos de Macau. Assinala-se, assim, um regresso à política por parte do antigo deputado durante a administração portuguesa. «Respeito-o por ser um bom pai e marido. É um grande profissional e um bom católico, envolvido na comunidade. Tem expressado as suas preocupações sobre a auditoria de obras públicas. Poderá ajudar-nos a pensar de forma mais abrangente e não apenas em termos de serviços sociais», afirmou Paul Pun.

 

LUCIANA LEITÃO

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