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Ano Paulino |
40 perguntas sobre S. Paulo |
Aqui são também vários os factores que devem ser levados em conta para se chegar a uma resposta mais ou menos completa, pois trata-se de um assunto complexo e difícil. Como na resposta anterior, vou apenas indicar alguns dos factores a serem aprofundados num eventual estudo que se queira fazer. Em primeiro lugar, a consciência a respeito da problemática social era diferente. A situação dos cristãos no Império Romano era diferente da sua situação, hoje. Tomemos como exemplo a América Latina. Hoje, nós, cristãos, temos mais de quinhentos anos de idade, somos mais ou menos 90% da população do continente e temos uma tremenda responsabilidade histórica na origem da estrutura anti-evangélica que existe por aqui. Nos tempos de Paulo, os cristãos não tinham sequer trinta anos de idade, não chegavam sequer a meio por cento da população do Império e não estiveram presentes na origem, quando foi criado o sistema explorador do Império Romano. Em segundo lugar, a análise que hoje fazemos da sociedade não existia naquele tempo. Havia consciência do problema social, mas este não era percebido de maneira tão clara como hoje. A pergunta é legítima, mas é uma pergunta a partir das nossas preocupações, a partir do nosso nível de consciência e da nossa análise do problema social. Uma resposta mais completa exigiria um uso maior das ciências sociais no estudo dos textos de Paulo, o que já acontece na América Latina. Em terceiro lugar, convém lembrar que os judeus, desde a destruição de Jerusalém em 587 a.C., viviam sob governos estrangeiros e acostumaram-se a isso. Chegaram a ver nisto uma expressão da vontade de Deus. Esdras chegou a identificar a Lei de Deus e a lei do rei (Esd. 7, 26). Em quarto lugar, Paulo teve uma experiência profunda de Deus. Uma experiência assim relativiza todo o resto, tanto a riqueza como a pobreza, tanto o possuir como o não possuir. Eis alguns textos: «como indigentes e, no entanto, enriquecemos a muitos; nada tendo, mas tudo possuindo» (II Cor. 6, 10). «Aprendi a viver na necessidade e na abundância; estou acostumado a toda e qualquer situação: viver saciado e passar fome, ter abundância e passar necessidade. Tudo posso naquele que me fortalece!» (Fl. 4, 11-13). «Se temos que comer e com que nos vestir, fiquemos contentes com isso» (I Tm. 6, 8). «O tempo tornou-se breve. Aqueles que choram, como se não chorassem; aqueles que se alegram, como se não se alegrassem; aqueles que compram, como se não possuíssem; os que tiram partido deste mundo, como se não desfrutassem. Porque a aparência deste mundo é passageira» (I Cor. 7, 29.30-31). Em quinto lugar, havia em Paulo a consciência clara do novo tipo de fraternidade a ser vivida na comunidade cristã. Nela devia estar superado todo o tipo de relacionamento de dominação proveniente da religião (judeu-grego), da classe (livre-escravo), do sexo (homem-mulher) ou da raça (grego-bárbaro). Pois não podia haver mais diferença entre «judeu e grego, escravo e livre, homem e mulher, grego e bárbaro» (cf. Gl. 3, 28; Cl. 3, 11; I Cor. 12, 13). Uma comunidade assim não deixa de ser profundamente revolucionaria, uma semente explosiva, mesmo que os seus membros não tenham plena consciência deste aspecto. Em sexto lugar, comparando os conflitos da primeira viagem missionária (Act. 13, 1-14, 28) com os da segunda (Act. 15, 36-18, 22), percebe-se o seguinte: 1 – Um envolvimento progressivo do Império e das suas instituições nestes conflitos; 2 – O Império tem pessoas boas e simpáticas ao Cristianismo, como o procônsul Sérgio Paulo de Chipre (Act. 13, 6-12), mas tem leis e instituições que são usadas contra os cristãos (Act. 13, 50; 14, 5; 16, 19-24.35-37; 17, 5-9; 18, 12-16); 3 – Na primeira viagem, o conflito com o mundo pagão era mais ao nível religioso (Act. 14, 8-18), enquanto na segunda viagem já se situava mais ao nível económico (Act. 16, 16-40), cultural e ideológico (Act. 17, 16-34); 4 – Nestes conflitos, os cristãos aparecem sem poder: não conseguem que a opinião pública esteja a seu favor, nem conseguem ter a classe alta a seu favor; 5 – As instituições do Império e a classe alta conseguem ser usadas contra os cristãos por quem se sente prejudicado pela mensagem cristã, mas não conseguem ser usadas pelos cristãos para defender a justiça e a verdade contra a injustiça e a falsidade. Tudo isto revela uma incompatibilidade crescente entre o Império e o Evangelho. Em sétimo lugar, é possível que Paulo, como judeu da diáspora, tenha tido uma certa simpatia para com o Império Romano. O mesmo se diga de Lucas, que escreveu os Actos dos Apóstolos. Mas mesmo tendo uma possível simpatia, Paulo não adaptou o Evangelho as suas simpatias, caso contrário, não teria provocado aquela escalada progressiva do Império contra as comunidades. E não convém esquecer que Paulo morreu, condenado pelo Império Romano, por causa do amor que tinha ao Evangelho.(CONTINUA)
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ECCLESIA / LUSA |
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