A Herança das Américas |
Trópico das cores e dos sabores |
A partir de 1500, a chegada dos portugueses e dos espanhóis a um mundo tão inesperado como eram as Américas, ao ponto de muitas nações lhes terem chamado as índias ocidentais, revolucionou de tal forma a vida dos europeus que, com o passar do tempo, alterou profundamente a sua dieta alimentar. |
A procura dos metais preciosos – ouro e prata – mas também das muitas gemas, algumas desconhecidas até então, motivaram expedições constantes, só tornadas rentáveis para Portugal a partir do final de Seiscentos, no caso do ouro, e no princípio da centúria seguinte, especialmente com os diamantes. Já para Castela a cronologia foi diversa, pois a prata e as esmeraldas afluíram à Europa, provenientes da chamada América Espanhola, desde o século XVI. Ao longo dos séculos seguintes, a exploração das diversas gemas americanas permitiu revolucionar a joalharia. Ouro, prata, diamantes, esmeraldas, águas marinhas, ametistas, crisoberilos, espinélios, granadas, quartzos, topázios e turmalinas permitiram a produção de jóias pessoais e de alfaias litúrgicas, nas quais a cor e o brilho se evidenciam. Nos séculos XVIII e XIX criaram-se jóias de todas as tipologias, – isto é, para ornamento da cabeça, das orelhas, do pescoço, do corpete, dos braços e das mãos, sem esquecer botões, presilhas e fivelas para o vestuário, chapéus e calçado, respectivamente. Assim, temos alfinetes, anéis, abotoaduras, brincos, botões, gargantilhas, presilhas de chapéu e peças diversas com motivos florais, zoomórficos e fitomórficos. Refira-se ainda que vários adornos eram trémulos, o que permitia um movimento natural e constante. Entre as jóias de uso corrente, aliás sempre presentes na iconografia quer masculina quer feminina, contam-se as insígnias e os hábitos das ordens militares e, mormente, da Ordem de Cristo, que indicavam um certo estatuto social, pois constituíam instrumentos de prestígio por parte de quem os podia exibir, demonstrando, desse modo, a sua condição. O ouro permitiu ainda a proliferação da talha dourada, bem como, em conjugação com as gemas do Brasil, a realização de píxides, cálices e custódias, especialmente nos reinados de D. José e de D. Maria I. Primeiro veio o pau-brasil O continente americano possuía uma vegetação exuberante que, de imediato, começou a ser utilizada pelos Europeus. Recordemos que, no Brasil, a principal actividade económica, da primeira metade do século XVI, foi a obtenção do pau-brasil, de nome tupi, ibirapitanga. Além desta madeira, utilizada sobretudo na tinturaria, Portugal beneficiou de outras, nomeadamente jacarandá que, originariamente, podia ser encontrado nas Caraíbas, México, América Central e América do Sul; e vinhático, designado popularmente por amarelinho. O interesse das madeiras americanas para a construção naval e para a construção civil, sem esquecer a confecção de móveis, foi frequentemente evidenciado ao longo dos tempos. No Brasil colonial e na metrópole realizaram-se móveis para casa e mobiliário religioso (com destaque para os arcazes, os móveis sacros por excelência), inspirados nos estilos e modelos da Península Ibérica, especialmente, mas não exclusivamente, em jacarandá e vinhático. As peças eram realizadas por artífices portugueses ou por seus descendentes e, posteriormente, por artífices locais. Entre o mobiliário doméstico contam-se arcas, bancas de estrado, bofetes com e sem gavetas, caixas, catres, contadores, escritórios, leitos e, ainda, molduras de espelhos, de jacarandá; cadeiras, caixas, guarda-roupas e mesas, de vinhático. Havia ainda peças confeccionadas com outras madeiras, como por exemplo: armários bofetes, caixas e leitos de pau-amarelo; armários, bofetes e tamboretes de pau-branco; bofetes, leitos e molduras de espelho, de pau-roxo e outros. Algumas peças eram forradas com couro, isto é, «sola lavrada», como então se dizia, e possuíam pregaria dourada. A utilidade das madeiras brasileiras, concretamente as da Baía, para a construção, quer naval (cedro, jetaí amarelo, pau-de-arco, pau-de-jangada, pau-roxo, sapocaia, sucupira merim), quer civil (ajetaipebá, louro, massarandubá, pau-roxo, putumuju, vinhático), quer ainda para o mobiliário (canduru e jacarandá para «todo o traste curioso da casa»), acabaram por suscitar as reflexões de Domingos Vandelli, enquanto membro da Academia Real das Ciências de Lisboa. Os usos originais do tabaco Entre a herança americana, o único produto pernicioso à saúde, mas não aos cofres da Coroa, foi o tabaco ou fumo, como começou por ser designado. Inicialmente localizouse na região andina, entre o norte da Argentina, a Bolívia, o Chile e o Peru. Era uma das principais ervas da cultura tupi, chamada pelos índios petim ou petum. Nas cerimónias especiais dos pagés (feiticeiros) era utilizado para estabelecer contacto com os antepassados, uma vez que estimulava o transe místico dos índios. Estes rituais eram conhecidos por santidades, o que levou à adopção da designação de erva-santa para o tabaco. O consumo de tabaco era largamente utilizado nas sociedades indígenas com fins mágico-religiosos, medicinais e para recreação. No Brasil, a aculturação deu-se de forma rápida. Alguns brancos, mamelucos e índios dedicavam-se ao prazer de fumar, o que não os isentou de criticas. Outras utilizações tinham menos adeptos. Recordemos que o tabaco podia ser comido, bebido, mascado, chupado, cheirado ou fumado. Na Europa, o tabaco começou por ser usado para fins terapêuticos. O uso recreativo conheceu adeptos e críticas desde cedo. Porém, o tabaco viu a sua importância económica alargar-se, à medida que foi passando da utilização medicinal, de duvidosa qualidade terapêutica, para o consumo meramente recreativo. Novos géneros alimentícios O legado mais significativo do continente americano terá sido constituído pela descoberta e aproveitamento dos novos alimentos. Não esqueçamos que a integração dos produtos americanos na dieta mediterrânica constituiu a principal diferença entre a alimentação medieval e a alimentação moderna. Consequentemente, trata-se de uma das mais importantes heranças americanas legadas à Europa. A influência de Portugal e de Castela na introdução desses produtos dos «novos mundos dados ao mundo» foi uma realidade incontestada. Porém, entre a descoberta desses novos bens alimentares e a sua introdução no quotidiano das populações europeias houve um espaço de tempo considerável, embora diferente, de espécie para espécie, pois algumas só se impuseram, definitivamente, nos séculos XVIII e XIX. Nem todos os novos produtos descobertos foram adoptados, até porque o seu cultivo nem sempre era possível na Europa de então e havia muitos casos em que o transporte não se justificava, quer pelo preço, quer pelo facto de se deteriorarem. Contudo, houve alguns que foram superando as dificuldades, embora por vezes tardiamente, e conseguindo impor-se, nomeadamente o ananás, as diversas espécies de maracujá, o cacau a batata, a batata-doce, o tomate, o milho mais e o peru. Com o passar do tempo, a adopção de diversos alimentos modificou o quotidiano alimentar das populações europeias, dando origem a uma revolução alimentar. O facto de alguns desses novos alimentos se passarem a cultivar ou a criar na Europa – caso do milho maís, da batata-doce, da batata, do tomate e do peru – também facilitou a integração dos novos produtos no sistema alimentar europeu, incluindo na dieta mediterrânica. Mas, mesmo no caso em que a cultura foi tardia e limitada – os ananases em São Miguel (Açores) e os maracujás na Madeira – a importação permitiu superar algumas dificuldades, especialmente com o desenvolvimento dos transportes marítimos. Mas, nestes casos, o consumo foi, durante muito tempo, limitado às elites. Muito diferente foi o percurso do cacau. Nunca se cultivou na Europa, mas foi aí objecto de consumo crescente. A sua importação do Brasil e da América Espanhola e a posterior aclimatação da planta a outros espaços, em diferentes continentes, como por exemplo São Tomé e Timor, permitiu que este produto de luxo se fosse estendendo a diversas camadas da população e se democratizasse. O contacto com produtos desconhecidos oriundos do continente americano levou os europeus a descreverem as novas plantas, os novos animais, bem como os minerais. Nessas descrições, a cargo de missionários, mareantes, mercadores, aventureiros e outros, está patente um enorme deslumbramento, a par de admiração, pela abundância, variedade e qualidade de muitos dos produtos. A estranheza pelas novas formas, sabores, odores e cores levou ao fascínio pela natureza e pelas suas potencialidades e a descrições muitas vezes pouco sistematizadas, algo ingénuas, quase sempre pormenorizadas e com claras preocupações utilitárias. Nestas exposições, as analogias, sobretudo relativas ao cheiro, ao sabor, à forma e ao tamanho, estiveram presentes com muita frequência, uma vez que nem sempre os desenhos acompanhavam os produtos e, mesmo quando tal acontecia, o recurso às comparações tomava o discurso mais facilmente compreensível. Se quase todos os bens americanos fascinaram os europeus, uns já eram conhecidos, caso dos metais preciosos e dos diamantes, mas não outras gemas, como, por exemplo, os topázios imperiais; nem todos entraram nos hábitos das populações do velho continente. Mas houve mais. À recepção seguiu-se a transformação. Em Portugal e na restante Europa, a utilização dada ao tabaco e às madeiras era diferente da que originariamente se verificava no continente americano. As jóias eram confeccionadas por europeus e, mais tarde e secundariamente, por artesãos locais, que com estes tinham aprendido. Foi igualmente muito claro que o conhecimento de uma planta esteve longe da sua adopção imediata na alimentação do Velho Mundo. O facto de certos alimentos serem consumidos pelas populações autóctones levou, por vezes, a algumas desconfianças e más vontades, mas a qualidade e o sabor, especialmente dos frutos, acabaram por se impor. Em muitos casos, os novos alimentos foram preparados, cozinhados e apresentados de modo diferente.
NA FOTO: Beija-Flor em ramo de maracujá. Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa.
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