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FORA DO BARALHO

Kaifeng, judia e exuberante

 

PARA os chineses, Kaifeng é uma das sete capitais do Império do Meio, e, como tal, respeitada. Para os turistas estrangeiros, atraídos pelo exotismo da arquitectura tradicional dos seus templos e casas, Kaifeng é um dos seus destinos favoritos na província de Henan, dito berço civilizacional da China.

Situada nas planícies aluviais do Rio Amarelo, Kaifeng serviu de capital ao Império do Meio durante sete dinastias. Com mais de dois mil e setecentos anos, é conhecida, sobretudo, por ter sido a primeira cidade chinesa habitada por judeus. A sua presença na região é ainda um mistério – a teoria das dez tribos disseminadas pelo mundo é uma possibilidade, – mas tudo leva a crer que ali tenham chegado, enquanto comerciantes, através da Rota da Seda; ou tenham emigrado a partir das comunidades judaicas já existentes na costa sudoeste da Índia.

O centro histórico, delimitado por pedaços de muralha ainda existentes e visíveis, envolve de imediato o visitante, que se sente convidado de uma cidade feita à sua dimensão. Para isso contribui a reconstituição da Cidade Imperial da dinastia Song, que actualmente funciona como área comercial. A avenida principal estende-se ao longo de 400 metros, dando acesso a réplicas de edifícios antigos que expõem ao público artesanato local, antiguidades, pinturas e petiscos da região. Ao fundo desta avenida, ensanduichados pelos famosos lagos de Yangjia e Panjia, situam-se os Pavilhões dos Dragões, estruturas construídas sobre as ruínas dos palácios imperiais das dinastias Song, Jin e Ming. Este é, sem dúvida, o local mais visitado em Kaifeng.

À entrada, vendedores ambulantes tentam despachar peças de jade, bugigangas e caixinhas de música que ocultam pequenos grilos de metal que desatam aos cris-cris logo que se ergue a tampa de cartão verde. Aliás, também nas inúmeras lojas situadas intramuros esta é a lembrança mais solicitada pelos visitantes. De Taiwan chega o maior contingente de turistas estrangeiros; mas também os há ocidentais e, sobretudo, do Japão.

A Torre de Ferro, pagode octogonal de treze andares com quase 60 metros de altura erigido em 1049, destaca-se pela beleza dos seus tijolos vermelhos ricamente decorados com seres celestiais, budas e músicos da China antiga.

Kaifeng é conhecida pelos seus manjares de imperadores, tendo como prato forte a «carpa servida em molho doce amargo», acompanhado por «massa dragão urso», uma especialidade de «vermicelli, fina como os cabelos», que se for estendida pode «atingir vários quilómetros de comprimento!» No entanto, muitos dos bons garfos que rumam a Kaifeng fazem-no em busca da «galinha em salmoura à Kaifeng», marinada, ao que consta, «num molho confeccionado há mais de um século». No domínio da doçaria a deliciosa marmelada de batata-doce, composta ainda por pétalas de rosa, açúcar, óleo de sésamo e baga de espinheiro.

Mas para sentir em toda a sua plenitude os paladares de Kaifeng não deve perder o seu mercado nocturno, verdadeiro regalo para os sentidos. Os pregões misturam-se com o burburinho da população que ocorre diariamente em peso, como ocorre ao mercado dos legumes e fruta pela manhã cedo. Mercados nocturnos são importantes focos de atracção turística na Ásia, e o de Kaifeng é um dos mais interessantes e coloridos de toda a China.

Prova-se de tudo um pouco. Os preços são acessíveis e a tentação é enorme. Podemos perfeitamente começar pela geleia de feijão frito, petisco bastante popular que na sua receita reúne «batata-doce, inhame verde, molho de feijão, cebola, alho, gengibre e óleo de sésamo»; continuar com o pudim, também frito; depois nabo em escabeche «segundo uma receita secreta transmitida de geração em geração»; ainda o tofu seco picante; e terminar com «doce de amendoim», leguminosa cultivada na região em abundância. Para digerir, rega-se tudo isto com chá de amêndoa, especialidade local servida de um modo bastante peculiar. A taça é colocada perto do solo, a um metro de distância do samôvar onde permanece quente a infusão. Observar o líquido que tomba em bica no recipiente é um verdadeiro espectáculo, que os seus protagonistas fazem questão de perpetuar. Com o mesmo nome, «chá de amêndoa», existe ainda um pastel, ao que consta «servido na corte imperial», e que consiste em farinha refinada de amêndoa, amendoins, sementes de sésamo, pétalas de rosa, passas, cerejas e vários outros ingredientes existentes apenas na região.

Mas se Kaifeng é uma terra de paladares também o é de flores, crisântemos para sermos mais exactos, a flor oficial da cidade. Organizado anualmente pela municipalidade, o «Festival de Crisântemos», é cabeça de cartaz das festividades em Kaifeng. De 28 de Outubro a 28 de Novembro os parques e as ruas principais da cidade apresentam a inúmeros visitantes, mais de cem espécies diferentes de crisântemos plantados em quase meio milhão de pequenos vasos de cerâmica. Por essa altura desenrolam-se várias actividades desportivas, entre elas a dança de gongos e tambores, e lutas de galos. No outro lado do calendário, por volta do décimo quinto dia do primeiro mês lunar, realiza-se o «Festival das Lanternas», altura em que a cidade fica repleta de pontos luminosos provenientes de lanternas de todos os tamanhos e feitios.

 


Texto e Foto: JOAQUIM MAGALHÃES DE CASTRO

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