COISAS & LOISAS |
O património de todos nós |
De entre vários exemplos, destaque para a renovação das casas na zona do Tap-Seac, feita há vários anos. A primeira, que deu às vivendas aquele aspecto que ainda hoje ostentam, nada mais foi do que, precisamente, um «lavar de cara». Uma fachada bonita, muito bem cuidada, enquanto que no interior as paredes continuam a cair a pouco e pouco. Mesmo nas traseiras a intervenção foi limitada. Só mais tarde, em intervenções seguintes, se procedeu aos trabalhos de recuperação, dos interiores, transformando por completo a fisionomia dos edifícios. Basta ver o que foi feito na Galeria de Exposições e no Arquivo Central. A traça original do interior desapareceu, dando lugar a edifícios que só com muita imaginação podemos considerar históricos. Este exemplo do Tap-Seac é perfeito para exemplificar os erros cometidos pelas diferentes Administrações. Mais recentemente, e como marca indelével da transferência de soberania, temos o excelente exemplo daquilo que não deve ser feito. E, nada melhor do que o edifício que simboliza o poder nesta terra: a Sede do Governo. Até 1999 conhecido como Palácio da Praia Grande. A intervenção ali realizada, logo após 20 de Dezembro do 1999, foi de tal forma atentatória ao bom gosto que, actualmente, as fotografias turísticas do edifício ilustram apenas o seu exterior. É que o resultado das obras de «melhoramento» daquelas instalações foram de tal ordem que ninguém consegue perceber o que ali se passou. Lembro-me do dia em que a Comunicação Social foi convidada para ver, em primeira mão, o resultado de meses de obras. O espanto foi tal que a arquitecta responsável não conseguiu justificar a inspiração para tal obra. Dizia-se por aí que se tinha inspirado na Casa Branca! No entanto, ninguém conseguia compreender a relação entre a sede do Governo americano com o da RAEM, principalmente tendo em conta o valor histórico de um edifício como o do Palácio da Praia Grande. Agora veio a público a intervenção feita na Pousada de Santiago, com muitos de nós, a ficarmos indignados com a realidade. Devíamos, isso sim, ficar indignados com a falta de intervenção dos vários sectores sociais neste completo assassinato da herança que nos foi deixada pelos nossos antepassados. Neste caso falamos de património de características portuguesas, o que, de certa forma, nos toca mais fundo. Contudo, também o património de características chinesas é alvo de afrontas. Cito por exemplo a intervenção que vem sendo feita na famosa Casa do Mandarim. Há vários anos que se arrastam as obras, sem fim à vista! Por várias vezes alguns sectores chineses vieram a público alertar para a falta de rigor mas, apesar do alarido causado aquando das notícias tornadas públicas, rapidamente acabou por cair no esquecimento sem que nada tenha mudado. O caso da Pousada de Santiago não é mais do que uma nova chamada de atenção que deve ser levada a sério por todos nós. Pois, só assim, se pode forçar as pessoas com Poder de decisão, – sejam elas do Instituto Cultural, sejam de qualquer outro departamento, – a mudarem de posição e, de uma vez por todas, ouvirem a opinião das pessoas desta terra que, muito provavelmente, sabem mais do que quem nos governa. As polémicas a envolver os concursos lançados para renovação de edifícios do Governo são também um espelho do que se vai fazendo. Veja-se, por exemplo, o concurso para a elaboração do projecto para a nova Biblioteca Central, a ser instalada no antigo tribunal e que, de acordo com os dois projectos escolhidos (curiosamente da mesma autora), vai ver toda a sua traça original ser alterada. O edifício é o último grande exemplo da arquitectura do período do Estado Novo ainda existente em Macau (o mesmo será dizer em toda a Ásia). De acordo com o que se pode ver nos projectos escolhidos, pouco ou nada restará em breve! Outro caso que vale a pena seguir é o das actuais obras no Teatro D. Pedro V. Especialmente porque se tratam de obras no interior. Como sabemos, e constatamos pelo exemplo do Palácio atrás referido, não bastam as aparências. Quando se presenciam desrespeitos desta índole por parte das entidades governamentais como se pode exigir que os privados que detêm os direitos de exploração de edifícios classificados respeitem o seu legado histórico? Aparências olímpicas Vão a meio os Jogos Olímpicos de Pequim. Porventura dos eventos mais antecipados e polémicos da história do desporto. Nos últimos sete anos a capital chinesa foi alvo de um completo planeamento, que a transformou de, uma capital feudal e antiquada, para uma metrópole que se quer cosmopolita e moderna. No entanto, nem tudo o que parece é. Um ditado muito usado aqui por estes lados onde as doutrinas de Confúcio imperam e que, desta vez, se aplica na perfeição. A Comunicação Social, como sempre deve fazer, nunca deixou esquecer as promessas e os compromissos assumidos pela China junto do Comité Olímpico Internacional e da Comunidade Internacional. Porém, não passaram de promessas. Promessas de liberdade de Imprensa, promessas de livre acesso à internet, promessas de livre circulação. E, quanto ao Comité Olímpico, nada a acrescentar, visto que, como sempre, enterrou a cabeça na areia, dando a entender que não percebe o que se está a passar! E assim, viva as olimpíadas livres para todos!
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