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Inquéritos |
| O filme «Rua de Macau» estreia no Centro Cultural. Esta é uma obra cinematográfica produzida e realizada na RAEM. Concorda que este tipo de manifestação artística deve ser fortemente apoiado pelo Governo? |
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FORA DO BARALHO |
«A Famosa» dos malaqueiros |
A construção da fortaleza «A Famosa» marca a possessão lusa da cidade por mais de um século. Em 1614, após um cerco de oito meses, Malaca cai nas mãos dos holandeses que, em 1824, a cedem aos ingleses em troca de um porto na ilha de Samatra. Recentes projectos imobiliários erguidos em terra reclamada à zona ribeirinha, relegaram para segundo plano os monumentos e os edifícios que recordam a passagem de todos estes povos pela península malaia. Apesar da modernização, Malaca permanece um local com intrigantes ruas chinesas, lojas de antiguidades, velhos templos taoistas, cemitérios e variadas reminiscências do poderio colonial europeu. A sua principal área de interesse centra-se na parte velha da cidade, que tem como marco de referência a «Dutch Square». Atrás, ergue-se uma colina onde se situava a antiga fortaleza e onde existem ainda as paredes da igreja de São Paulo e algumas pedras tumulares com inscrições em português. Construída em 1571, esta igreja foi regularmente visitada por Francisco de Xavier, que viu seu corpo transportado para aqui, após a sua morte, na China. Aqui permaneceu durante nove meses, até ser transferido para Goa, onde presentemente jaz. Umas escadarias conduzem à «Porta de Santiago», único sinal visível da outrora imponente fortaleza. A uma centena de metros, junto ao rio, situa-se o Museu Marítimo e a réplica de uma nau portuguesa. 2. Os herdeiros dos quarenta cavaleiros que acompanharam Albuquerque na conquista de Malaca encontram-se espalhados pela península malaia. Mas é no kampung portugis — bairro português — que a sua face é mais visível. Apelidos como Lázaro, Fernandes, Teixeira, Sequeira e Araújo sofrem aqui ligeiras alterações, passando a ser escritos Lazaroo, Fernandis, Teserah, Sequira e Aranjo. Como bons católicos, os malaqueiros celebram condignamente o Natal, o Entrudo, a Páscoa, o São João e, sobretudo, a Festa de São Pedro, padroeiro dos pescadores. Durante estas festividades, mas também aos domingos, nos baptizados e casamentos, reencontram-se os residentes com os seus familiares de Kuala Lumpur e outras cidades malaias. Gozam de excelente reputação estes kristang, conhecidos pelo seu espírito jovial e dotes culinários e artísticos. No país e em Singapura, ocupam os mais diversos ramos de actividade profissional – políticos, funcionários públicos, jornalistas, médicos, músicos, actores... A sua preponderância na sociedade é tal, que é à minhota que traja uma das quatro raparigas que interpretam o hino nacional malaio no fecho da emissão do canal televisivo estatal! Resultado do estatuto de bumiputra (filho da terra) que conseguiram obter, ao contrário dos chineses ou dos indianos. Só os malaios têm esse estatuto de pleno direito. Lamentavelmente, poucos são os que têm consciência do que é realmente Portugal e os portugueses. O único contacto connosco limita-se a encontros esporádicos com os ocasionais visitantes. A verdade é que alguns deles se sentem esquecidos, e – como alerta, o malaqueiro Patrick Felix – «se nada for feito para alterar a situação, passaremos de museu vivo, que agora somos, a uma simples decoração folclórica para turista ver». 3. «O representante do Governo malaio tomou a liberdade de anunciar a louvável candidatura, mas esqueceu-se de mencionar quem é que lhes sugeriu a ideia», comenta, a propósito da atribuição da UNESCO, António de Maues-Collaço, ex-leitor de português, pelo Instituto Camões, em Kuala Lumpur. «A ideia da candidatura a património da UNESCO surgiu do estreito trabalho que eu tinha vindo a desenvolver com o professor Shaharil Talib, responsável máximo pelo Departamento de Estudos do Sudeste Asiático da Universidade Malaya», acrescenta. Para além da sugestão, Maues-Collaço, que contava com o apoio de Shaharil Talib, tinha outros projectos em vista. Entre eles um museu português no centro de Malaca e o reequipamento – com imitações de armaduras, capacetes, astrolábios, cartas de marear, etc. – da réplica museu da nau de Albuquerque, Frol de La Mar, que se encontrava então encerrada para obras. «O museu, por falta de apoios, nunca chegou a passar de uma ideia, mas a nau está hoje aberta ao público, graças à iniciativa local. Portugal, verdade seja dita, nunca manifestou qualquer interesse pela cidade», desabafa Maues-Collaço. Outra das iniciativas deste professor foi a exposição Aventura das Plantas e os Descobrimentos Portugueses, na Universidade Malaya, ao longo da qual foram servidos pratos tradicionais confeccionados por pessoas do bairro português de Malaca e actuaram ranchos folclóricos. «Pela primeira vez» , recorda Maues-Collaço, «o branyo, dança tradicional dos luso-descendentes, foi confrontado com o joguete, dança do folclore malaio de origem portuguesa». No fundo, o evento foi apenas o início de um trabalho que era, e ainda é preciso desenvolver, de modo a «reabilitar» a imagem dos portugueses na Malásia. «É urgente desmistificar o conceito de que nós fomos os inimigos do Islão», afirma. «E não é difícil provar-lhes o contrário. Portugal e a Malásia têm imensos pontos de união que é preciso revelar e valorizar».
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