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ARQUITECTURA CONTEMPORÂNEA PORTUGUESA |
Seis décadas de revolução permanente |
Em síntese, arquitectura é a arte e a técnica de compor espaços e volumes que se definem pela sua utilidade e habitabilidade e, expressão do seu autor ou autores. O livro «Arquitectura Contemporânea Portuguesa», editado pelos CTT, de Ana Tostões e Fernando Guerra, proporciona, através do texto e da imagem, «uma visão da multiplicidade de aproximações praticadas pelos arquitectos» portugueses nos últimos 50 anos, «um período, sem precedente, de grande liberdade e competente criatividade». |
Na década de 50, constata-se na cultura arquitectónica portuguesa «a emergência de uma consciência que transcende as categorias até há pouco estabilizadas». Como refere a autora de «Arquitectura Contemporânea Portuguesa», «é o momento em que a maioridade é atingida». A modernidade, enformada também pelo que se fazia lá fora, é plenamente assumida. «O universo das ideias e da resposta social é ampliado, na medida em que a obsessão estetizada pela abstracção dá lugar a uma relação de empatia: com o contexto, com a história, com a tradição, com os utentes». A obra da sede e museu da Fundação Calouste Gulbenkian, da autoria de Alberto Pessoa, Pedro Gid e Ruy d’Athouguia, edificada na década de 60, é a confirmação do grau de maturidade que o projecto moderno atingiu entre nós e tornou-se uma obra de referência da arquitectura à escala internacional. «Paradigma de qualidade, os seus autores souberam aliar à eficácia de uma objectividade radical, um sensível entendimento da relação entre espaço interno e natureza exterior». O movimento que se generalizou por toda a cultura ocidental, de crítica ao simplismo que tinham caracterizado os anos anteriores, estimulou também em Portugal um ambiente de grande realismo. Como disse Fernando Távora, em 1964, na revista Arquitectura, num artigo sobre o seu projecto para a Escola do Cedro, «a arquitectura mitificada, a intocável virgem branca tornou-se numa manifestação de vida (…) e o mito desfez-se. E entre a obra-prima e a choupana (viu) que existiam relações como (sabia) existirem entre o pedreiro (ou qualquer outro homem) e o arquitecto». «Herdeiro do testemunho espiritual de Távora, Álvaro Siza Vieira – refere Ana Tostões – assenta a sua arquitectura no valor do espaço, encarado como o actor principal ao invés das formas». A Casa de Chá da Boa Nova, em Leça da Palmeira, construída no início da década de 60, é reveladora da sua preocupação com o contexto, que o conduziu a um projecto aberto que valoriza as potencialidades da morfologia envolvente. Também o atelier de Nuno Teotónio Pereira tenderá a constituir-se como um contrapoder. Funcionará partir dos finais do decénio de 50, nessa altura já com a presença de Nuno Portas, como o mais importante espaço de debate. As preocupações com o contexto urbano, com a utilização e usufruto dos espaços, com a reflexão e a subversão dos programas, revelam a procura de um realismo sem precedentes, como demonstra a concepção da igreja do Sagrado Coração de Jesus, em Lisboa. Essa busca de novos caminhos de expressão arquitectónica correspondeu também a uma época de transformação económico-social do país. Na cidade começam a surgir os grandes edifícios de serviços, sedes de prestígio de novas empresas e constroem-se os primeiros empreendimentos turísticos. De um modo geral, a escala de intervenção dos arquitectos altera-se. É a fase da «profissionalização», que dá lugar à formação de gabinetes de projecto e gestão de obra, como o celebrado atelier de Conceição Silva, autor do Hotel do Mar, em Sesimbra. Foi neste contexto que se projectaram obras incontornáveis da história da arquitectura portuguesa, como o edifício «Franjinhas», gerador de grande polémica, que trouxe a arquitectura e a discussão do processo de fazer cidade para os jornais. São mudanças que têm continuidade no aparecimento de novas maneiras de pensar a relação entre a arquitectura e o espaço público urbano, formalizadas, designadamente, na concepção do bairro municipal do Alto do Restelo, de Teotónio Pereira e Nuno Portas, e dois conjuntos habitacionais em Chelas, o de Gonçalo Byrne e Reis Cabrita, popularmente conhecido por «Pantera Cor-de-Rosa», e o projecto da Zona I, de Tomás Taveira. Também a conservação de monumentos e sítios patrimoniais adquire uma nova linguagem, ultrapassando o conceito de objecto histórico e alargando-o ao de conjunto histórico, de que é exemplo a adaptação, por Alcino Soutinho da praça-forte de Vila Nova de Cerveira a Pousada D. Dinis. «Mas é também um tempo de uma arquitectura erudita de autor, fixada em obras de dimensão e pesquisa “artesanal”», como realça Ana Tostões. O projecto de habitação unifamiliar é campo de experimentação de soluções que depois são retomadas em obras de maior dimensão. É o caso de uma casa projectada por Sérgio Fernandez, em Caminha, e outra, concebida por Matos Ferreira, em Freixo-de-Espada à Cinta, ambas com uma estreita ligação à paisagem circundante e à topografia do lugar. Depois do 25 de Abril e a adesão à CEE A arte é expressão do gosto e da sensibilidade do autor, mas também da sociedade em que se insere. A revolução de 25 de Abril de 1974 teve, portanto, inequívocas repercussões na arquitectura desse período, como o aparecimento de projectos empenhados «numa forma alternativa de fazer cidade e de dar resposta às carências habitacionais, que levaram a arquitectura portuguesa além-fronteiras», como refere Ana Tostões. Obras como as integradas no programa SAAL (Serviço de Apoio Ambulatório Local) criaram uma situação sem precedentes, tendo a sua importância sido entendida imediatamente pela crítica europeia como uma contribuição original, e a revista Architecture d’Aujourd’hui publicado uma monografia sobre esta nova realidade. No âmbito do SAAL constituíram-se cerca de cento e setenta equipas e foi a oportunidade para muitos arquitectos intervirem dentro da cidade em operações de claras implicações urbanas, especialmente no Porto, ou de actuar em zonas urbanas periféricas ou até rurais. Com o fim do período revolucionário, a década de 80 ficou marcada, sobretudo, por uma «arquitectura de “estilo empresarial”», com pouca intervenção dos autores mais qualificados. Apenas alguns arquitectos são chamados a obras de maior peso institucional e com impacto nas cidades. Mas é nesses anos que se constrói o conjunto das Amoreiras, projecto de Tomás Taveira. «Primeiro grande complexo com centro comercial, terciário e habitação, traz para Portugal a imagem de uma arquitectura-espectáculo, que era ao tempo inusitada». Obra controversa, tornou-se tema de debate recorrente na sociedade. Quase logo a seguir, num outro registo, este de natureza pós-modernista historicista, mas também com algum impacto na paisagem urbana, construíram-se dois equipamentos: a Torre do Tombo e a sede da Caixa Geral de Depósitos, ambos de Arsénio Cordeiro. Entretanto, o edifício dos Paços do Concelho de Matosinhos, de Alcino Soutinho, concretizava um novo entendimento das estruturas e consubstanciava uma contemporânea e inovadora dignidade institucional. «Por esta altura também o programa público de construções escolares recebia um impulso dignificante com Raul Hestnes Ferreira a marcar um novo sentido tectónico na construção e um rigor de composição invulgar», como se frisa no volume «Arquitectura Contemporânea Portuguesa», editado com a chancela dos CTT. É nesta sequência que, após a adesão de Portugal à Comunidade Económica Europeia, em 1986, os anos 90 parecem ser um período de «todas as descobertas: do património, das formas classicizantes, dos planos de ordenamento, tudo temperado por uma extrema disponibilidade para aceitar fontes e referências várias». São os anos da reafirmação de Siza Vieira a nível nacional e como o arquitecto português de dimensão internacional, e do surgimento de uma nova geração em que é patente uma profunda e original criatividade, expressa no mais variado tipo de escalas e programas, e que responde qualificada e inventivamente a uma grande variedade de situações. O surto desenvolvimentista, incrementado pela disponibilidade de fundos comunitários, possibilitou a realização de programas que «contribuíram para a afirmação de uma qualificada produção erudita para um leque de arquitectos que, até aí, se havia confrontado com obras de sentido e dimensão mais artesanal». É neste quadro que se concretiza o Centro Cultural de Belém. Projecto da dupla Vittorio Gregotti, italiano, e Manuel Salgado, assente num «reenquadramento dos valores da monumentalidade e de resgate dos conceitos matriciais da cidade europeia e da sua história», no dizer de Ana Tostões, tornou-se uma referência da urbe lisboeta. A reconstrução das cidades Mas este novo fôlego da arquitectura portuguesa contemporânea é também caracterizado por uma electiva descentralização, com a realização de obras que pontuam Portugal de norte a sul e do litoral ao interior, incluindo as ilhas. Ainda nos anos 80, Manuel Graça Dias projecta dois edifícios em Chaves, em que combina a paixão pelo vernáculo, o interesse pelo purismo e o expressionismo modernista. A partir de 1986 associa-se a Egas José Vieira e são desta dupla obras tão distintas como a sede da Ordem dos Arquitectos, construída a partir de um edifício de banhos de Oitocentos, o Pavilhão de Portugal na Exposição Universal de Sevilha 92 ou conjunto residencial Salgueiras Sul, em Guimarães. Na esfera da construção de infra-estruturas do ensino superior tomaram forma diversos projectos arquitectónicos assinaláveis, onde se destaca o Campus da Universidade de Aveiro. Obra plural, coordenada por Nuno Portas, no âmbito do Centro de Estudos da Faculdade de Arquitectura do Porto, o seu plano articula no espaço os diversos departamentos, equipamentos e serviços que constituem a instituição como se se tratasse de uma cidade. Da Biblioteca, de Siza Vieira, ao Departamento de Engenharia Civil, de Morais de Oliveira, da Residência de Estudantes; de Adalberto Dias, aos Anfiteatros, de Vitor Figueiredo, «os edifícios, embora projectados por diferentes autores, relacionam-se entre eles com regras urbanas e arquitectónicas claras e coerentes, sendo “unidos” por um percurso unitário». Provavelmente, Eduardo Souto Moura é mais conhecido como autor do Estádio Municipal de Braga, mas a sua obra, onde sobressai o culto do objecto, a resistência à banalidade e à lógica de mercado, revela-se, entre outros projectos, também na Casa das Artes, no Porto, em múltiplas casas unifamiliares, ou na Pousada do Bouro. Nelas «tem vindo a afirmar quer os valores da inovação, quer a manutenção das virtudes da cultura tradicional, contra a dispersão dos tempos actuais». Num registo bem diferente, Carrilho da Graça privilegia a abordagem minimal, austera, de poderoso rigor conceptual e construtivo, na procura de uma ordem essencial, bem patente, entre muitas mais realizações, na Pousada de Flor da Rosa, no Crato, ou na Escola Superior de Comunicação Social, em Lisboa. Mas um dos autores cujas obras mais se reconhecem como radical e minimalmente modernas é Álvaro Siza Vieira: o Bairro da Malagueira, em Évora, a Faculdade de Arquitectura do Porto ou a igreja de Santa, em Marco de Canavezes são apenas alguns exemplos. Na última década confirma-se não só a envergadura da arquitectura portuguesa, como se revela uma aproximação dos arquitectos aos novos territórios, ao urbano, o que implicou o entendimento da arquitectura como actividade organizadora do espaço onde se insere a sociedade. Em Lisboa, a marcação de duas frentes ribeirinhas, entre Belém e o Oriente, que é como quem diz entre a Exposição de 40 e a de 90, define uma cidade outra, qualificada e estimulada por novos espaços de vida. A proposta do Centro Cultural de Belém veio colocar em discussão a possibilidade de uma arquitectura racional, feita para durar, implicada directamente com o desenho da cidade. O Plano de Reconstrução do Chiado, de Siza Vieira, é uma obra de referência, confirma Ana Tostões, porquanto «no momento em que a arquitectura de autor parecia condenada à afirmação da idiossincrasia de cada arquitecto, assente num formalismo de ruptura com o tecido urbano e a leitura da cidade, tantas vezes gratuito, a escolha corajosa de fazer de novo cidade em continuidade com as permanências deixou lastro para o futuro. De facto, constituiu, em plenos anos 90, sinal inequívoco, com a autoridade do mais mediático e internacional arquitecto português, de que era possível voltar a fazer cidade sem recorrer à ruptura pela afirmação forçada do novo e diferente, com espalhafato e afirmação formal». A Oriente, a partir da realização da Expo 98, a transformação, segundo um plano de Manuel Salgado, de uma zona industrial em decadência num pólo de atracção urbana para o futuro, foi também uma ocasião para a arquitectura portuguesa revelar a sua competência e capacidade de realização. Da qualidade geral dos objectos arquitectónicos ressaltam o Pavilhão do Conhecimento, de Carrilho da Graça, o Pavilhão de Portugal e a sua celebrada pala, de Álvaro Siza. Além destas obras, edificaram-se alguns conjuntos mais amplos capazes de articular quarteirões, como e o caso do Complexo Multifuncional Oriente, edifício de habitação escritórios e comércio concebida pela Promontório Arquitectos. No extremo ocidental deste arco ribeirinho, a entrada do Tejo é balizada pelo edifício do Centro de Coordenação e Controlo de Tráfego Marítimo do Porto de Lisboa, de Gonçalo Byrne, urna obra delicada, que concilia a tecnologia e elegância. Como se refere em «Arquitectura Contemporânea Portuguesa», no Porto e ainda no quadro da revalorização das cidades, o programa de intervenção nos espaços públicos, articulado no âmbito da Capital Europeia da Cultura 2OO1, possibilitou a recuperação como equipamentos públicos de alguns edifícios com forte carga patrimonial, como é o caso do Centro Português de Fotografia – Edifício da Cadeia da Relação do Porto (1997-2001) e a reconversão da Alfândega em Museu dos Transportes e Comunicações e Centro de Congressos do Porto, intervencionados por Eduardo Souto Moura. Entretanto, na zona oriental, o Plano das Antas, da autoria de Manuel Salgado, e onde se integra o Estádio do Dragão, foi desenhado para criar uma nova centralidade numa operação de reabilitação urbana de uma zona desqualificada da cidade, na medida em que foi pensado como um projecto urbano, integrando a escala da arquitectura. A par deste, o Plano da Frente Ribeirinha do Douro valorizou o cenário único de curvas com variações sucessivas e contrastantes ao longo das margens do rio. Aliás, como refere Nuno Portas, a história das suas muitas pontes revela a extraordinária importância do rio que divide, mas que é suficientemente estreito para unir as duas margens em aglomerados e movimentos de pessoas e bens. Mas esta renovação das cidades não se cingiu a Lisboa e ao Porto, excluídas do Programa Pólis. Este desígnio de reestruturação urbana alavancou muitos projectos e ideias direccionados para a valorização do sentido de cada cidade, de Coimbra à Guarda, passando por Ílhavo, Vila Real ou Viana do Castelo. Descentralização e equipamentos culturais Também o Programa da Rede Nacional de Bibliotecas Públicas proporcionou intervenções articuladas com edifícios existentes, como em Tavira, uma obra de Carrilho da Graça, ou de construções novas, como a Biblioteca Central da Universidade dos Açores, em Ponta Delgada, da autoria de Célia Gomes e Machado Costa. Ao mesmo tempo, o lançamento da Rede Nacional de Teatros e Cine-Teatros, como objectivo de dotar as capitais de distrito e sedes de concelho com actividade cultural relevante criou oportunidades de encomenda, não só para autores consagrados, como também para jovens em início de carreira ou mesmo, até então, desconhecidos da produção arquitectónica mais divulgada, como aconteceu com Carlos Veloso, que venceu o concurso para o Teatro Municipal da Guarda. Embora este programa visasse a reconversão dos antigos cine-teatros, em alguns casos as exigências técnicas actuais e a necessidade de albergar funções mais alargadas impôs a construção de um edifício novo, como sucedeu no Cartaxo, onde Cristina Veríssimo e Diogo Burnay projectaram um centro cultural que se transformou num novo ícone da cidade. Em Almada, o Teatro Municipal de Almada, o Teatro Azul, de Graça Dias e Egas José Vieira, representa magnificamente a natureza excepcional destes programas e o potencial simbólico que lhes está associado, factores capazes de estimular novas relações com os contextos urbanos onde se inserem. Como conclui Ana Tostões na sua obra «Arquitectura Contemporânea Portuguesa», ilustrada com centenas de fotografias de Fernando Guerra, no universo da produção arquitectónica erudita em Portugal, onde se enquadra o trabalho de veteranos e novíssimos, continuidade poderá ser a palavra-chave, «num processo que entende a construção como a ciência primeira da a Arquitectura, como o seu instrumento técnico e, nessa medida, o seu limite. Que entende a arquitectura como “coisa mental”, como acto de concepção e o arquitecto como um artífice capaz de reunir e produzir a síntese das questões, constrangimentos e desejos. O arquitecto capaz de organizar o espaço».
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