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OLHANDO EM REDOR

Partido Socialista está na rua da amargura

 

O PARTIDO Socialista (PS) português está em profunda crise e na rua da amargura. Por muito que os militantes de topo o escondam, a realidade está aí para quem a quiser ver. As recentes críticas do fundador do partido, Mário Soares, e do radicalismo evidenciado pelo poeta Manuel Alegre, dois históricos socialistas, evidenciam a fracturação partidária, o que em suma é o prenúncio mais evidente de uma crise anunciada.

Primeiro, foi o aviso que Mário Soares deu ao Governo liderado pelo também socialista José Sócrates. Mário Soares teme que o partido possa perder votos à esquerda, se o Governo não conseguir travar as «escandalosas desigualdades sociais» e se não resolver as questões essenciais, que tanto afectam a maioria dos portugueses.

Depois, foi a iniciativa apartidária organizada, essencialmente, pelo Bloco de Esquerda (BE), Manuel Alegre (deputado do PS), José Soeiro (deputado do BE) e Isabel Allegro Magalhães. A festa, que se realizou no Teatro Trindade e contou ainda com a presença do líder do BE, Francisco Louçã, comemorou «Abril e Maio – Agora Aqui» e serviu para se debaterem as desigualdades, as injustiças sociais e a corrupção em Portugal.

Não bastavam as posições públicas tomadas pelos dois históricos socialistas, para que os vários sectores económicos do País encetassem uma autêntica contestação ao Governo socialista. A recente paralisação dos pescadores e, já esta semana, a greve dos camionistas legitimam o descontentamento social generalizado que se vive em muitos pontos de Portugal. No passado dia 5 de Junho, a CGTP - Intersindical conseguiu mobilizar cerca de 200 mil manifestantes em Lisboa, para apontar baterias à má governação do Primeiro-Ministro José Sócrates. No mesmo dia, mas de noite, foi a vez de Manuel Alegre admitir que pode deixar as fileiras socialistas, depois de ter sido duramente criticado por militantes do partido, devido à sua presença na festa de esquerda e às duras críticas que dirigiu ao Governo e ao PS.

Manuel Alegre – recorde-se – foi candidato às últimas presidenciais. Embora tenha arrecadado 20,72 por cento dos votos, não conseguiu, no entanto, evitar a vitória à primeira volta de Cavaco Silva. Mesmo assim, obteve um resultado superior ao de Mário Soares, candidato oficial dos socialistas. O poeta nunca se deu bem ao lado do poder. É mesmo um contestatário nato. Mas o PS tem mais a perder do que a ganhar com a sua saída. E caso venha a fundar um novo partido, Manuel Alegre só vai enfraquecer ainda mais o PS, levando à perda de mais votos à esquerda. O PSD e demais forças partidárias vão seguramente agradecer a «gentileza» de Manuel Alegre. Ciente dessa negra possibilidade, os comentários de muitos socialistas pautaram-se por alguma contenção para com o poeta. Acima de tudo não o querem irritar ou dar-lhe um pretexto para ele bater de vez com a porta. Mas tudo dentro de um dado limite. Manuel Alegre, esse, é que não se cala. Fala do que lhe vai na alma, perante o desespero da cúpula socialista. Mas a bomba poderá «explodir a qualquer momento e com danos imprevisíveis para o PS.

Oposição em 2009 ganha consistência

Custe o que custar, a realidade é só uma. O PS não é actualmente o partido mais viável para melhorar a vida dos portugueses. A alternativa começa a ganhar ênfase no PSD, liderado por Manuela Ferreira Leite. Mais à esquerda, poder-se-ão alimentar algumas esperanças no Partido Comunista Português (PCP) ou no Bloco de Esquerda (BE). As palavras do social-democrata Pacheco Pereira são disso sintomáticas: «O caminho para que o PS perca as eleições [legislativas do próximo ano] e haja uma alternância política está claramente aberto à nossa frente». E eu acrescentaria até que, caso a situação continue a degradar-se, causando enorme sofrimento no seio da população portuguesa, só um cego ou um inculto da política nacional é que não vê isso.

Entretanto, são muitos os políticos, alguns dos quais do Governo, que se deliciam na Suíça com a campanha da Selecção Nacional no Euro2008. O País, esse, parece que vai, por agora, ser governado à velocidade de cruzeiro. Até porque o que importa é o Europeu.

Comemorações do 10 de Junho (CAIXA)

O Governo socialista registou, com orgulho, o facto de as comemorações do 10 de Junho terem tido a presença de cinco ministros e 14 secretários de Estado que assinalaram o Dia de Portugal junto dos portugueses residentes no estrangeiro, em comemorações que decorrem entre os dias 8 e 15 de Junho. A comitiva-recorde distribui-se pelos quatro cantos do mundo, desde Londres (Inglaterra) a Newark (Estados Unidos), de Sydney (Austrália) a Pretória (África do Sul), de Montevideu (Uruguai) a São Paulo (Brasil), etc. A vinda a Macau de Filipe Baptista, secretário de Estado Adjunto do Primeiro-Ministro, – à última da hora teve de substituir o secretário de Estado Adjunto e da Educação, Jorge Pedreira - não veio dar solução aos problemas que afectam a comunidade portuguesa na RAEM. Ao invés, Filipe Baptista mostrou, até, que não estava preparado. Daí que no discurso que proferiu na residência consular, tenha preferido enveredar por uma muito clara propaganda governativa, sobre as preocupações e as soluções que afectam os portugueses de Portugal. E, como se não bastasse, chegou atrasado às comemorações do 10 de Junho, tendo falhado à cerimónia do hastear da bandeira no Consulado de Portugal e à romagem à Gruta de Camões.

A vinda de Filipe Baptista ao território pode considerar-se, por isso mesmo desnecessária. Primeiro, porque perdeu a essência das comemorações. Depois, porque custou dinheiro ao erário público português, o que em tempo de crise, deveria ser evitado.

Apesar de estar do outro lado do mundo, sou conhecedor de ginjeira da retórica e da demagogia que muitos políticos portugueses gostam de empregar sempre que se deslocam à RAEM. Por isso, senhor Filipe Baptista, siga o meu conselho e na próxima visita aproveite primeiro para melhor se inteirar sobre a realidade de Macau. É que a quem por aqui vive e trabalha pouco (ou mesmo nada) interessa saber como vai o défice público em Portugal, ou saber que medidas é o que o Governo de Sócrates está a implementar para, segundo as suas palavras, melhorar o nível de vida dos portugueses em Portugal. Se possível, fale dos assuntos que nos tocam mais de perto, por exemplo, nesta ocasião, dos dossiers EPM e IPOR. Os portugueses estabelecidos neste recanto oriental agradecem algumas respostas.

 

NA FOTO: Dos avisos do sempre presente e atento Mário Soares, e do inconformismo constante de Manuel Alegre, à surdez, cegueira e teimosia de José Sócrates.

 


PEDRO DANIEL OLIVEIRA

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