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FORA DO BARALHO

Segunda mão

 

1. EM declarações proferidas aquando a publicação do seu livro «A Exortação dos Crocodilos», António Lobo Antunes dizia que em Portugal não tínhamos romancistas. Segundo ele, «o Eugénio, o Vasco Graça Moura, o Pedro Tamen são poetas, e os outros quase todos não. Também todos os novos prosadores que vou lendo, aquilo é tudo tão mau, embora haja uma rapariga que parece ter muito talento, Ana Teresa Pereira. Há um rapaz de que vi o manuscrito, não sei se está publicado, Alexandre Andrade, que me parece muito bom; há uma rapariga, Margarida Vale do Gato que me parece ter muito talento; mas, de uma forma geral desiludo-me».

Pelos vistos Lobo Antunes – que não será romancista, pois na sua opinião não há romancistas em Portugal (mas para quê andaram a queimar pestanas o Eça, o Brandão, o Aquilino?) – só se encantava com a escrita de Hawthorn, Austen, Brönte e quejandos. Tudo muito british, pois então.

E como se não bastasse, embirrava também com o aspecto físico dos portugueses. Quanto à continuidade da sua residência em Portugal, Antunes admitiu que «é difícil escrever sem estar aqui. Por causa da língua. E gosto do clima. E das pessoas do meu país. Porque somos feios, pequeninos, mas ao mesmo tempo fiquei com uma grande admiração pelos rapazes que estavam comigo na tropa; nunca vi ninguém recusar-se a ir para o mato».

Resumindo e concluindo: António Lobo Antunes, um dos nossos escritores mais lidos no estrangeiro, para além do azedume, parecia andar com alguns problemas de identidade. Ficou, porém, tudo esclarecido quando o próprio confessou ter tido «uma péssima relação» com a sua imagem, «quando era novo, com a minha cara, com o meu corpo».

Pois é! Acontece a muito bom português. Mas não é com crises de falta de estima que deixaremos de ser quem somos.

2. Adivinhe o leitor qual foi um dos temas musicais escolhidos pela tropa de elite da GNR para render a guarda na residência oficial do Presidente da República. Nada mais, nada menos que o tema Ymca, da banda de disco «Sound Village People». Facto que, como ficou registado nas televisões, deleitou uma turista norte-americana que, em Portugal, pode «recordar o seu país com muito prazer», embora tenha deixado uma transeunte nacional estupefacta por aquela coisa «tão pouco apropriada a este género de cerimónias». Realmente! Já agora, para dar mais colorido à coisa, por que não vestir os GNR de operários de construção civil, de marinheiros, de motards, de cobóis e de índios; por que não vesti-los à imagem e semelhança dos rapazes do «Village People»?

3. Entre os mil e um brindes oferecidos pelos jornais incluem-se os fascículos. Daqueles que se encadernam posteriormente dando origem a excelentes enciclopédias. Ora, apesar de se destinarem a leitores nacionais (embora a proveniência seja estrangeira), nos ditos cujos nunca se faz qualquer menção a portugueses ou a personagens que no nosso país tenham medrado.

Tomemos, a título de exemplo, o dicionário visual «O Corpo Humano e Outras Grandes Máquinas». O avião, o automóvel e o barco são as grandes máquinas aí referidas. Se bem que no que diz respeito aos dois primeiros, e se exceptuarmos a passarola do Bartolomeu Gusmão, não demos contribuições significativas à humanidade; no que se refere ao terceiro, tivemos todos os trunfos na mão e fartamo-nos de os pôr na mesa.

O capítulo «Navios e Navegação» do referido fascículo menciona os «primeiros barcos», os «navios gregos e romanos», os «barcos vikings», mas quando avança para os «navios de guerra e de comércio» e o «desenvolvimento da vela» não é feita uma única referência ao povo que dominou os mares durante mais de um século, legando ao planeta os mais belos mapas.

Vejamos então o que nos tem para dizer esse fascículo, que não é mais do que tradução do «Visual Dictionary, Ships and Sailing», publicado em 1991 pela editora londrina Dorling Kinderslay.

Diz-se aí que «a partir do século XVI, os navios passaram a ser construídos com uma nova forma de casco forrado com tabuado liso», apontando como exemplo «os navios de guerra dessa época, como o Mary Rose, do rei Henrique VII da Inglaterra». Menciona-se de seguida os «dhows que transportavam escravos da costa leste de África para a Arábia» e os juncos nos quais os «chineses navegavam para a África Oriental e a Arábia».

Mas, se até o insuspeitável Carl Sagan nos desprezou, ao falar da «suprema importância dos holandeses na expansão do século XVI», sem fazer uma única menção ao pioneirismo dos portugueses, já nem é de admirar a branca histórica que perpassou as mentes dos responsáveis da Dorling Kinderslay.

Mas não podiam, ao menos, os responsáveis pelos suplementos dos jornais portugueses fazer a devida adaptação ao texto, enriquecendo-o e dando-lhe rigor histórico? Ou melhor ainda: chamando a atenção do editor inglês para a lacuna? Pois pode dar-se o caso deste último desconhecer os feitos lusitanos.

Isto, para que deixemos de ser um país em segunda mão. Que é o que somos aos olhos do mundo.

 


Texto e Foto: JOAQUIM MAGALHÃES DE CASTRO

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