Turquestão Chinês e o nacionalismo uigur |
O próximo barril de pólvora |
«O Xinjiang é uma região rica em petróleo e gás natural e é em pleno Taklamakan, «o deserto do não retorno», nas imediações do lago de Lop Nur, que os chineses conduzem todos os seus testes nucleares. É, por isso, considerada uma zona de enorme importância geoestratégica. A animosidade entre chineses e uigures é mais óbvia aqui do que no Tibete, pois são ainda mais gritantes as diferenças que separam comunidades «obrigadas» a viver em conjunto. A religião surge como principal factor de clivagem.Os uigures professam um islamismo moderado, de inspiração sufi. Descendem de tribos turcas e estão nestas paragens desde o século XI, coabitando, entre outros, com uzebeques, cazaques, tajiques, quirguizes, tártaros, mongóis e russos». |
As autoridades chinesas atribuíram a responsabilidade «a maus elementos» que «exercem influência perniciosa na sociedade». Foi apontado o dedo ao Hizb ut-Tahiri al-Islam, grupo radical que pugna por um estado islâmico à escala planetária. Duas semanas antes, a polícia anunciara a descoberta de uma tentativa de transporte de materiais inflamáveis num voo com destino a Pequim por parte de uma mulher uigur acompanhada por dois paquistaneses. Se bem que inspirados pelos acontecimentos no Tibete, as recentes manifestações no Xinjiang obedecem a um descontentamento nacionalista já com longo historial, que se contrapõe a uma secular reivindicação histórica da China baseada em períodos de ocupação nunca aceites pelas tribos nómadas locais. Um descontentamento que continua a assumir contornos violentos. Convivência forçada O Xinjiang é uma região rica em petróleo e gás natural e é em pleno Taklamakan, «o deserto do não retorno», nas imediações do lago de Lop Nur, que os chineses conduzem todos os seus testes nucleares. É, por isso, considerada uma zona de enorme importância geoestratégica. A animosidade entre chineses e uigures é mais óbvia aqui do que no Tibete, pois são ainda mais gritantes as diferenças que separam comunidades «obrigadas» a viver em conjunto. A religião surge como principal factor de clivagem. Os uigures professam um islamismo moderado, de inspiração sufi. Descendem de tribos turcas e estão nestas paragens desde o século XI, coabitando, entre outros, com uzebeques, cazaques, tajiques, quirguizes, tártaros, mongóis e russos. Antes das vagas migratórias de colonos chineses de etnia han, processo iniciado nos anos 50, as minorias constituíam 80% da população do Xinjiang, a «Nova Fronteira», como a apelidaram os manchus. Hoje, a percentagem baixou para os 40%. Os uigures são agora uma minoria num território que é um terço da área total da China. A população han domina a economia local e, sobretudo, a estrutura do poder, se bem que, numa tentativa de equilibrar a balança, o presidente Hu Jintao tenha recentemente promovido dirigentes comunistas uigures (e também tibetanos) a cargos no governo central. Os han acusam os uigures de ingratidão, por ignorarem «o desenvolvimento que lhes trouxe a China». Elementos mais radicais não hesitam até em afirmar que «os uigures não têm cultura» e que não tentam modificar os seus «péssimos hábitos», acusando-os de falta de honestidade e de serem arruaceiros. O certo é que uso de drogas duras tem aumentado significativamente entre os mais jovens uigures, assim como o número de casos de Sida. História de uma rebelião O nacionalismo uigur está presente em dezenas de organizações espalhadas pelo mundo, umas optando por meios violentos, outras rejeitando-os veementemente. Dentro de fronteiras, as actividades separatistas existem desde os anos 70 e traduzem-se em assassinatos de elementos da polícia e do exército, assaltos a bancos e atentados bombistas – actividades que se intensificaram após o desmembramento da União Soviética. Em 1990, uma querela entre um uigur e um chinês na localidade de Atso provocou a morte do primeiro e deu origem a um motim. Chamados a intervir, os militares perseguiram os revoltosos até uma aldeia nas proximidades, acabando por cair numa cilada. O alto comando chinês não hesitou: enviou aviões para bombardear a aldeia. O líder da rebelião, Zahideen Yusuf, e outros 50 militantes foram mortos, enquanto os sobreviventes escapuliram-se para as montanhas onde, durante semanas, travaram uma luta de guerrilha com o exército, antes de passarem para o outro lado da fronteira. Quanto aos prisioneiros, foram transportados na caixa de camiões pelas ruas da cidade, exibidos publicamente, momentos antes de serem executados com um tiro na nuca, como era usual. Desde então a China manteve o exército em alerta em todo o Xinjiang. Mas a actividade separatista estender-se-ia a todo o país. Em 1997 houve ataques à bomba num autocarro em Pequim e noutros lugares, factos que a China teve o cuidado de ocultar. Adoptaria, contudo, uma outra atitude quando, em 2000, combatentes talibãs arriscaram incursões no Xinjiang, a partir do Afeganistão. Foi então constituída, por iniciativa da China, a Organização para a Cooperação de Xangai (SCO), que junta este país aos seus vizinhos, com o duplo objectivo de combater os movimentos islâmicos radicais e fortalecer as relações comerciais, reforçando a vigilância nas fronteiras. Após os atentados de 11 de Setembro, a China não hesitou em apresentar-se ao mundo como «vítima do terrorismo islâmico», admitindo os ataques a que foi sujeita e divulgando uma lista pormenorizada dos incidentes. A senda de atentados, entretanto, continuou. Em 2004, militantes uigures estiveram envolvidos numa explosão na província paquistanesa do Baluchistão, que vitimou três engenheiros chineses. No ano seguinte, dois bombistas suicidas mataram 13 pessoas e feriram outras 18 na fronteira com o Cazaquistão. Em Janeiro de 2007, de novo em Atso, numa razia a um alegado campo de treino da ETMI, 18 islamitas foram abatidos e um vasto arsenal de explosivos e armas foi desmantelado. Dele fazia parte um vídeo onde se apelava aos muçulmanos que «aproveitassem todas as oportunidades» para dar ao conhecer ao mundo «o sofrimento do povo uigur», classificando o território chinês como «campo para a guerra santa». A China reagiu a tudo isto com mão de ferro. São muitos os prisioneiros. Números oficiais falam de sete execuções desde o 11 de Setembro, mas tudo leva a crer que seja mais elevado. A poucos meses dos Jogos Olímpicos, e com o Tibete na ordem do dia, teme-se que o Xinjiang venha a conhecer novos distúrbios. O barril de pólvora mantém-se cheio. A aguardar novos rastilhos. Causa sem visibilidade Após os atentados de 11 de Setembro, a China não só não teve qualquer dificuldade em associar os nacionalistas uigures ao terrorismo internacional, como conseguiu que os Estados Unidos e a própria ONU classificassem de terrorista o Movimento Islâmico do Turquestão Oriental (ETIM), organização com pouca expressão no Xinjiang. E fizeram-no com base nas alegadas ligações da ETIM à Al Qaeda, em cujos campos militares recebe recrutamento um número indeterminado de uigures, se bem que sejam mais uigures da diáspora do que propriamente habitantes do Xinjiang. Mais do que uma hipotética comunhão de ideais com a Al Qaeda – até porque os uigures perfilham o sufismo, antagónico do salafismo preconizado por essa rede terrorista – são o desemprego e a assimilação à cultura han os verdadeiros motivos que colocam os uigures no trilho da revolta. O impedimento de jejuar durante o Ramadão e a proibição de acesso às mesquitas a jovens com menos de 18 anos, assim como do uso de barba comprida e de lenços na cabeça a quem desempenhe cargos na função púbica, são alguns exemplos apontados como atentatórios à identidade cultural dos uigures. Que também se queixam da escassa publicação de livros no seu idioma e do facto da instrução escolar ser ministrada em mandarim. Não falta quem tente apresentar ao mundo o Xinjiang como «o outro Tibete da China»; só que os uigures não têm qualquer líder carismático nem as múltiplas organizações que os representam conseguem expressão que se veja a nível internacional. Também não existe uma individualidade com credenciais disposta a apoiar a sua causa, como acontece com a causa tibetana que tem no actor Richard Gere, assumido lamaísta, um verdadeiro paladino. Como se não bastasse, e pelo facto de serem muçulmanos, os uigures vivem sob o espectro da «desconfiança» e do «medo do terrorismo». Wuer Kaixi, um dos estudantes revoltosos de Tiananmen, uigur de nascimento, poderia ser um trunfo, não fosse o caso do dissidente nunca ter demonstrado qualquer interesse por essa matéria. Antes pelo contrário. Exilado em Taiwan, Kaixi parece perfeitamente integrado na comunidade han e planeia até entrar na política activa da ilha nacionalista. A integração é, aliás, o caminho seguido pelos uigures mais pragmáticos, que podemos encontrar por toda a China, envolvidos em diferentes tipos de negócio, lícitos ou não. Eles vêem a integração na cultura dominante han como um caminho certo para o sucesso. Mas também há quem tenha aprendido a conviver pacificamente com os han, sem nunca abdicar das suas tradições. E esses constituem a esmagadora maioria da população no Xinjiang.
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