Padre Luís Sequeira sobre as Legislativas de 17 de Setembro

Padre Luís Sequeira

«Há sede de poder e de autoridade».

Um candidato ideal para o padre Luís Sequeira é aquele que pensa genuinamente nas pessoas, em vez de querer alcançar posição social, mesmo tocando nos problemas mais graves que afectam a sociedade. A’O CLARIM, o jesuíta critica as plataformas ligadas aos casinos e a falta de seriedade da classe política e dos governantes.

O CLARIMEstamos a poucos dias das eleições legislativas. Sendo a Igreja Católica uma instituição influente na sociedade civil, continua a fazer sentido que se mantenha distante da política?

PE. LUÍS SEQUEIRA – Penso que todo o cristão tem de ter responsabilidades na sociedade onde está inserido. Para mim, entendo que todo o bom cristão deve participar neste acto político como maneira de ajudar à transformação da sociedade, porque cada lista traz os seus valores e as suas características. Traz o seu projecto e os projectos variam. Há projectos políticos que são definitivamente para a transformação da sociedade, para o bem da sociedade, como inclusivamente haverá projectos sem grandes preocupações nesse sentido.

CLPode concretizar?

P.L.S. – Sou bastante crítico, por exemplo, com a problemática da economia. Quando estamos a aprender que a economia está a actuar num sistema bastante corrupto…

CLCorrupto?

P.L.S. – Corrupto, sim senhor. É dito por cientistas, e não por economistas sérios… Neste desenvolvimento anda tudo à procura do lucro, quando em princípio devia ser o material a ajudar as pessoas.

CLPassa-se o mesmo em Macau?

P.L.S. – Há uma preocupação forte da economia com uma certa influência de uma ideologia marxista-comunista, em que a economia é o motor. E aqui – diria mesmo – se é mais capitalista também a preocupação é o dinheiro. Sou bastante crítico, não que seja chamado a administrar bem os dinheiros. A questão é o corte com a pessoa e com o bem de Macau. E em Macau não escapamos a que por vezes haja decisões, ou orientações, em que a preocupação é a economia, mas nem sempre a valorização da pessoa, nem a nossa maneira de viver para que seja mais rica em termos do desenvolvimento humano.

CLPode exemplificar?

P.L.S. – Sou crítico quanto aos casinos. Os casinos exploram a fragilidade humana. Exploram vícios e pessoas obsessivas que não têm controlo sobre si. Além disso, o que vemos? Comer, beber e vestir. São coisas fundamentais. No entanto, vejo que a gastronomia, e coisas do género, desenvolvem apetites de maneira excessiva; e com a superabundância nos hotéis há um grande desperdício de comida. Depois, há que vestir bem sem olhar a meios. Há uma sucessão obsessiva, assente no consumismo. É digno de uma sociedade?

CLTem mais críticas a fazer?

P.L.S. – Há por outro lado a sede de poder e de autoridade. Esses jogos de poder, seja de famílias, seja de pessoas, seja nas responsabilidades que tenham, inclusivamente na [Assembleia] Legislativa, assenta mais uma vez no dinheiro e no poder. Os debates em geral [realizados na Assembleia Legislativa] são muito pobres em termos de reflexão sobre as problemáticas de Macau.

CLTendo em conta os preceitos da Doutrina Social da Igreja, sem nomear candidatos, há listas que defendem esses valores?

P.L.S. – Haverá uma ou outra, sim. Mas também vejo muito um certo populismo. Há vários [candidatos] que falam sobre questões sociais, inclusivamente aqueles que estão muito ligados aos casinos. Para mim é um bocado falacioso, porque dão apoio aos empregados, mas se a estrutura [da indústria do Jogo], como tal, é de exploração humana… Outros falam da educação e da cultura, mas nitidamente é um populismo à procura de votos. São candidatos a querer posição política, em vez de estarem genuinamente preocupados com o desenvolvimento social. É ambíguo, porque as questões que põem têm valor, mas por vezes exageram ou fazem de tal maneira, a atacar o Governo em proveito próprio. Há falta de transparência da classe política. E não é só em Macau…

CLPara si qual é o perfil do candidato ideal?

P.L.S. – Acima de tudo, uma pessoa honesta, de princípios e de verdade. Há muita mentirita por ali. E eu, na minha experiência, vi algumas. Não tenho muita [experiência], mas às vezes lidando com os políticos… Há muito jogo! [O candidato ideal] deve ter uma genuína preocupação pelas pessoas.

CLEncontra diferenças significativas entre estas eleições e outras que tiveram lugar num passado recente?

P.L.S. – Não diria que haja muita diferença. Desejaria que as preocupações dos deputados não fossem tão levadas pelos seus próprios negócios. Mais uma vez, a preocupação pela população: ainda há muito empresário, muita gente ligada aos negócios do imobiliário. E veja-se agora o que aconteceu com o tufão [Hato]. Onde está o sistema de árvores? E o sistema dos esgotos e da electricidade? Tudo isso ficou a nu. Não digo que seja fácil…

CLQue leitura faz da passagem do tufão?

P.L.S. – Por um lado temos a beleza da cidade. Por outro lado temos as infra-estruturas, que são a raiz. O tufão pôs tudo isso a nu. A beleza dos pátios e dos jardins foi toda ao ar. E as raízes, que são as infra-estruturas, ficaram todas à mostra. Isto para dizer que defendo a beleza do ambiente, mas se não temos as estruturas, que são as grandes raízes, não há tufão que resista. Estamos a falar há dezenas de anos de infra-estruturas, e para que se faça algo mais sério, com base e com profundidade.

CLÉ ponto assente que a preocupação da classe política e dos governantes é manifestamente outra?

P.L.S. – É aqui que vejo, mais uma vez, a falta de planos de fundo e de programação a médio e a longo prazo. Eu até dizia: agora, com este tufão, se todos fizessem um debate sério sobre a visão da cidade, sobre o território… Fazem-no? Ou são só comichões ou comissões [governamentais]? Mas isso dos debates seria muito válido, pôr gente a sério a pensar sobre o que aconteceu, desde a beleza externa destruída, até à revelação da pobreza das infra-estruturas.

CLVoltando um pouco atrás, é evidente a corrupção ao mais alto nível?

P.L.S. – Não me atrevo a dizer isso. Agora, falta de seriedade sobre as realidades sociais, particularmente das pessoas com poder, penso que sim.

PEDRO DANIEL OLIVEIRA

pedrodanielhk@hotmail.com

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