Padre Armindo Vaz, professor de Sagrada Escritura na Universidade Católica Portuguesa

Padre Armindo Vaz

«O inferno é o não sentido de uma pessoa».

A Bíblia não pode ser interpretada à letra, defende o padre Armindo Vaz, que exulta os fiéis a descobrir o sentido dos textos bíblicos. A’O CLARIM, o professor catedrático convidado de Sagrada Escritura na Universidade Católica Portuguesa, em Lisboa, fala sobre as raízes do Cristianismo, a relação com o Judaísmo e o parentesco com o Islamismo, sem esquecer a cruz onde padeceu Jesus Cristo, os falsos profetas, a espiritualidade, o Reino dos Céus, o inferno e a vida para além da morte.

O CLARIMAlguns ramos do Cristianismo interpretam a Bíblia de forma literal. No entanto, a Teologia Católica ensina que, para além do sentido literal, também há o sentido espiritual, que se divide nos sentidos analógico, moral e escatológico. Pode explicar melhor estes conceitos?

PE. ARMINDO VAZ – A leitura literal, ou seja “literalista”, que também é historicista, constitui um sério problema para a própria Igreja, que tem de gerir este tipo de leitura por parte dos fiéis. É um sério problema porque os seus eventuais leitores poderão pensar que o que consta na Sagrada Escritura teria de ser entendido tal e qual como está escrito. Ou seja, por exemplo, que o mundo foi criado em seis dias por Deus, tendo descansado ao sétimo dia; que no principio da existência do Universo foi Deus quem criou Adão e Eva, colocando-os no paraíso terreal, onde já seriam seres humanos históricos – tradicionalmente chamados os nossos primeiros pais; que em determinado período histórico cometeram um pecado original, sendo depois castigados por Deus, também em tempo histórico, com todas as penas da vida, como o sofrimento e a morte; e que este mal teria sido transmitido de geração em geração a todos os descendentes. Ora, não se pode fazer esta leitura “literalista”. Temos que superar a literalidade, a materialidade literal do texto, para ir além do que diz à letra.

CLParece que a Igreja Católica tem alguma dificuldade em explicar isso mesmo aos seus fiéis…

P.A.V. – Não diria assim. A Igreja, através dos seus órgãos oficiais, como é o caso da Comissão Bíblica Pontifícia, tem um documento de 1993 com regras, princípios, critérios e métodos de leitura e interpretação da Sagrada Escritura, por via da Igreja.

CLE porque geralmente essa informação não chega aos fiéis, por via dos párocos…

P.A.V. – Basta cumpri-la, porque o documento, além de bastante acessível, está bem traduzido para Português e para todas as línguas ocidentais. Este dever de informar os fiéis é de todos. Seja da Igreja, seja dos próprios fiéis, que também terão de se interessar um bocado e procurar descobrir ou perguntar como se pode ler o texto da Sagrada Escritura. É preciso superar a literalidade, ao procurar o sentido que o texto bíblico pretende comunicar. Ou seja, procurar a mensagem, que é humana e profundamente espiritual.

CLFalou até agora do sentido literal. E quanto aos três ramos do espiritual?

P.A.V. – O sentido espiritual aponta para a existência concreta, para a nossa vida de hoje. Ou seja, para a vida do Homem com os seus problemas concretos, que também são de todos os tempos, seja do século XVI, do século XIX ou do século XXI… Embora esteja em linha com o sentido literal, ou original, o sentido espiritual deve aplicar-se de modo a iluminar as nossas vidas de hoje. Os Padres e os monges da Idade Média desdobraram-no nos sentidos analógico, moral e escatológico. O analógico é o sentido que um texto tem por analogia com outros textos bíblicos. O moral é o sentido que a Igreja viu num determinado texto bíblico para iluminar o comportamento moral dos fiéis. O escatológico é o sentido que um determinado texto bíblico aponta para as pessoas – são as realidades últimas da existência humana. É o sentido que podemos encontrar em Deus, que não promete o Poder, seja político, seja militar ou social, mas promete um reino, o chamado Reino de Deus, que é o reino da felicidade humana integral.

 

Raízes

CLO mundo actual não é só constituído por católicos ou cristãos, porque também há hindus, judeus, budistas, muçulmanos, ateus… De que forma a Bíblia encara toda esta diversidade?

P.A.V. – A Bíblia percebe que a História da Salvação, ou seja, a História do Povo de Deus e da Igreja Primitiva, se insere num conjunto de religiões já precedentes. O início da própria religião bíblica, a chamada religião revelada, arranca de uma religião que era praticada por vários outros povos na paisagem do antigo Próximo Oriente. A veneração e o culto do “Deus do Pai” era uma religião praticada por vários povos desde o sul da Mesopotâmia, no actual Iraque, até ao norte da Mesopotâmia, onde encontramos a Turquia e a Síria, descendo depois para a terra de Canaã, onde agora é Israel. O povo de Israel está perfeitamente consciente de que havia um mundo de religiões à sua volta, com as quais convivia e foi absorvendo, adoptando, e também adaptando, vários elementos. A religião bíblica foi-se enriquecendo desde Abraão até Jesus, com vários elementos que provinham de outras religiões. A Bíblia dá-nos um exemplo da perfeita convivência entre várias religiões, que quase por osmose vão interagindo entre si. Mas Israel deixou-se influenciar por elementos de outras religiões com certeza, mantendo sempre o mais possível a pureza da sua religião.

CLO mundo vive em grande convulsão, especialmente no Médio Oriente. Porque o Cristianismo e o Islamismo descendem de Abraão (o último por via de Ismael), será que os cristãos podem considerar os muçulmanos como seus irmãos ou parentes?

P.A.V. – A própria Bíblia justifica a existência de outras tendências religiosas a partir do tronco inicial, que é Abraão. Ismael é apresentado pela Bíblia como o filho de Abraão, por parte da escrava Agar, e não da sua esposa Sara. Ismael é descendente de Abraão. Portanto, com alguma razão os muçulmanos se fazem descender de Abraão e a ele remontam, assim como os judeus e os cristãos. Abraão é, por assim dizer, a raiz comum às três religiões monoteístas, cada qual com as suas especificidades. O Cristianismo provém indeclinavelmente do Judaísmo. O próprio Jesus Cristo era judeu. E Paulo também era judeu, mas percebeu que começava em Jesus uma nova realidade. Os judeus em geral não perceberam isso, excepto aqueles que aderiram pela fé à pessoa de Jesus, contando-se entre eles Paulo.

CL – Será a cruz onde Jesus Cristo foi crucificado o evidente sinal de uma religião com tendência para celebrar mais a morte do que a vida?

P.A.V. – A cruz, sendo para nós cristãos símbolo do Cristianismo, foi durante séculos muito mal interpretada, ao ser considerada de suplício e de tormento. A cruz é símbolo do Cristianismo, mas enquanto lugar onde se revelou o supremo amor de Deus para com a Humanidade, através de Jesus Cristo. É expressão de amor e não de sofrimento!

CLA Bíblia diz que, segundo Jesus Cristo, depois dele virão muitos falsos profetas (Mateus 24:11). Não estaria certamente a falar de Maomé. Ou estaria?

P.A.V. – Com certeza que não! Esses falsos profetas não viriam só de fora da fé cristã, porque também poderiam vir dela própria. De facto, a História comprova que muitos desses falsos profetas nasceram no próprio Cristianismo, deturpando-o, desfigurando-o radicalmente e adulterando-o.

CLA Bíblia foi escrita e compilada pelo Homem, que está longe de ser perfeito…

P.A.V. – A Bíblia foi escrita por seres humanos, que vivendo da sua própria fé no povo de Deus no devido período, seja no Antigo Testamento, seja no Novo Testamento, procuraram exprimir da maneira mais perfeita a sua fé em Deus. É verdade que em certos períodos do Antigo Testamento houve uma procura de Deus às “apalpadelas”. Obviamente que os primeiros israelitas ainda não tinham uma imagem perfeita de Deus.

CLÉ preciso também não esquecer que o Cristianismo surgiu muito depois do Hinduísmo, do Judaísmo e do Budismo…

P.A.V. – O Cristianismo integra-se num universo de vida religiosa e de religiões várias. O Cristianismo não é a primeira religião a aparecer na procura de Deus por parte dos seres humanos. Mais: o Cristianismo brota espontaneamente do Judaísmo.

 

Espiritualidade

CLO Cristianismo defende a ressurreição de Jesus Cristo e dos seus filhos. No entanto, o Hinduísmo e o Budismo são a favor da reencarnação. Qual é a explicação?

P.A.V. – O Cristianismo, quando fala de ressurreição, quer dar precisamente o sentido último à existência humana. É a verdade suprema do Cristianismo, porque nos leva a dar sentido à nossa existência. Sem a ressurreição, tal existência ficaria fechada na imanência, limitada à sua radical finitude. Ou seja, a vida terminaria fisicamente ao nos transformarmos em terra, acabando tudo assim. Não me parece que seja esta a forma de dar o sentido definitivo à existência humana.

CLFalou do transcendente, o mesmo será dizer da vida para além do circulo fechado da matéria. Pode explicar?

P.A.V. – Pelas palavras de Jesus Cristo percebe-se que a vida não acaba no mundo físico, porque continua no mundo metafísico. Ou seja, continua para além do físico, a nível do espírito. Para a Bíblia, o espírito é uma dimensão que está no próprio ser humano, como também está em Deus, pondo em contraste com a transcendência. Ora, aqui entramos em contacto e em comunhão com Deus, através do seu Espírito, que os cristãos chamam a terceira pessoa da Santíssimo Trindade [o Espírito Santo].

CLPara onde vamos depois de morrermos?

P.A.V. – A vida para além da morte física não é uma vida que esteja num lugar. Desconheço onde possa ser. Usamos símbolos, ao dizermos que vamos para o Reino dos Céus, que vamos para o Reino de Deus…

CLExiste o inferno?

P.A.V. – Com certeza que existe.

CLE o purgatório?

P.A.V. – Também existe. O inferno existe, contanto que não seja interpretado à letra como um lugar de fogo para onde seriam lançadas as almas dos defuntos, que aí padeceriam os tormentos eternos. É uma imagem do livro do Apocalipse que é preciso entender bem. O inferno é o não sentido de uma pessoa, diria mesmo do seu espírito. O inferno é definitivo/eterno para estas pessoas, da mesma maneira que o céu é definitivo/eterno para quem for capaz de dar sentido transcendental à sua existência e entrar no Reino dos Céus e da felicidade sem fim.

PEDRO DANIEL OLIVEIRA

pedrodanielhk@hotmail.com

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