Category Archives: Cultura

Bengala e o Reino do Dragão – 4

O cristão de São Tomé

O cristão de São Tomé

Para minha surpresa constato que, em Hugli, há quem esteja ao corrente de alguns dos aspectos ligados à saga dos jesuítas João Cabral e Estêvão Cacela. É o caso do pároco local Toni Keli, originário da diocese de Meliapor, «cristão de São Tomé», como orgulhosamente faz questão de salientar.

Na realidade, como foi aqui dito a semana passada, João Cabral regressaria a Hugli em 1632, após duas estadas no Tibete, tendo então presenciado um dos acontecimentos mais dramáticos da história da cidade.

Reflexão sobre vários patrimónios

Valmor e outras arquitecturas

Valmor e outras arquitecturas.

Quando morreu, em 1898, Fausto de Queiroz Guedes, visconde de Valmor, mal imaginava quantas viriam a ser as interpretações dadas ao galardão que ele acabara de instituir para o futuro, assim expresso no seu testamento: “Deixo mais cincoenta contos à Cidade de Lisboa afim de que esta quantia forme um Fundo cujos rendimentos anuais constituam um Prémio que será anualmente dado em duas partes iguais ao Proprietário e ao Architecto do mais bello prédio ou casa edificada em Lisboa, com a condição porém de que essa casa nova, ou restauração de edifício velho, tenha um estylo architetónico Classico, Grego ou Romano, Romão-Gothico ou da Renascença, ou algum tipo artístico Portuguez, enfim um estylo digno duma cidade civilizada”.

Bengala e o Reino do Dragão – 2

O porto pequeno de Satgaon

O porto pequeno de Satgaon

Tomé Pires e Duarte Barbosa são os primeiros a dar-nos notícias dos reinos de Bengala povoados por “gente de peleja e de trato”, ou seja, guerreiros e mercadores, chamando desde logo a atenção para riquezas como o algodão, o açúcar, o gengibre e os “panos pintados e finos”. Foi apenas uma questão de tempo até que os portugueses começassem a chegar, aportando ao principal porto fluvial (com o nome de Bengala), e percorrendo depois o leito do rio a jusante ao longo de dois dias até chegar ao porto de Satgaon, que passaria a ser designado como “Porto Pequeno”, para diferenciá-lo de Chatigão, também conhecido como Porto Grande de Bengala, e onde os portugueses se encontravam instalados pelo menos desde 1518.

Bengala e o Reino do Dragão – 1

De Cochim a Bengala

De Cochim a Bengala

Pequena e enigmática monarquia budista, o Butão emerge como entidade política e social no início do século XVII, numa altura em que os jesuítas portugueses devassavam faldas, vales e cumes da cadeia dos Himalaias em busca de rotas que os conduzissem ao mítico Cataio onde esperavam encontrar irmãos na fé, tresmalhados da ortodoxia de Roma, é certo, mas possíveis aliados na resistência e luta contra os muçulmanos, eternos rivais e indomável travão ao esforço luso de hegemonia política, religiosa e mercantil na Ásia.

Fora do Baralho

Duas viagens no meus país

Duas viagens no meus país

A primeira viagem é a Rio de Onor, aldeia raiana de fortes laços comunitários. É hoje uma espécie de local de romaria para ambientalistas, os pretensos e os outros. Apesar de integrar o Parque Natural de Montesinho, em Trás-os-Montes, e ter sido baptizada com o enfatuado nome de “aldeia preservada”, continua aí a ser possível desvirtuar livremente a traça original do casario da região. Vilipendiado à fartazana após o regresso triunfante, das franças e das alemanhas, dos emigrantes locais. Um regresso mais endinheirado, mas nem por isso mais instruído ou sensibilizado.

Cartas do Bornéu – 32

Totens e o basto dos daiaques

Totens e o basto dos daiaques

Povoam, aqui e ali, a área da aldeia cultural de Santubong, com lago ao centro, uns intrigantes toros de madeira totalmente esculpidos com figuras geométricas, ou de animais, que ao contrário dos seus imensamente coloridos contrapartes dos povos nativos do Canadá – os designados First Nation – primam pela ausência de cor. São tão escuros que à distância difícil se torna identificar as figuras neles esculpidas. Uma das razões de ser da sua existência é, afinal, e quem diria, de carácter funerário. Na realidade, o dito totem pode não passar de uma simples urna erigida no solo. Numa das salas dos vários museus de Kuching que visitei (já não me lembro qual) encontrei a explicação de como a coisa se passa.

Cartas do Bornéu – 31

A resistência dos Penan

A resistência dos Penan

Oval e com tecto de colmo, a moradia tradicional dos bidayuh – um dos ramos dos daiaques – tem por hábito arvorar uma estatueta de um calau protector. Era o caso da que visitei e onde se mantinha no seu posto, apesar do horário cumprido, um figurante da aldeia cultural. No caso, um velho artesão que da rude madeira materializava pífaros, utensílios de cozinha e estatuetas de Cristo e da Virgem Maria, pois, ao contrário de muitos dos seus pares, fora já cristianizado. Tendo em conta a sua provecta idade, aproveitei para lhe perguntar se havia na memória do seu povo alguma referência à passagem dos portugueses por aquelas paragens.

Cartas do Bornéu – 30

Piões e sopa de ninhos-de-andorinha

Piões e sopa de ninhos-de-andorinha

Em Kuching, a dita “cidade dos gatos”, cabeça do Bornéu, o clima é quente e húmido e os duriões degustam-se no exterior e jamais dentro dos carros de aluguer, pois há um custo acrescido, para limpeza do veículo, aplicável aos prevaricadores. Embora pareça exigência exagerada, a verdade é que o odor desse fruto é de tal forma pungente que durante vários dias, semanas até, se mantém impregnado nos estofos, no tabliê e até na bagageira, sítio onde muito provavelmente o incauto condutor decidirá arrecadar tão espinhoso fruto pensando poder, desse modo, ver-se livre do pivete.

Cartas do Bornéu – 29

O morrião e as lápides

O morrião e as lápides

Outrora um reservatório de água, o Taman Budaya é hoje jardim público com bancos abrigados por gigantescas copas de acácias-javanesas e castanheiros da Índia e um quiosque-restaurante onde velhos e novos merendam laksa e jogam ao dominó. Há ali perto a escola primária de Santa Teresa, o colégio de São José e uma igreja católica frequentada maioritariamente por chineses. Mesmo ao lado, encosta acima, um cemitério esparramado por um terreno matoso na idêntica medida em que o é esmerado o interior do templo.

Cartas do Bornéu – 28

Marfim de calau e cabeças fumadas

Marfim de calau e cabeças fumadas

No Museu de Sarawak, instituição à moda antiga, existe uma pequena galeria dedicada ao naturalista Russel Wallace, o que me parece perfeitamente justo, pois foi dele que partiu a iniciativa de ali congregar muito do material que até então recolhera. Inauguraria-o, em 1891, Charles Brooke, o segundo rajá branco, pois também o governante pretendia expor artefactos tribais. Resumindo: numa das vitrinas temos o busto do co-autor da teoria da evolução das espécies, uma imagem do seu afamado anfíbio – o sapo-voador-de-Wallace – a espingarda e a caixa que simultaneamente lhe servia de assento, mesa e local para armazenar os bichos prontos a dissecar e a entrar no catálogo. Há ainda uma folha com trechos do seu livro “O Arquipélago Malaio”.

Um passeio na Ria de Aveiro

Navegador esquecido

Navegador esquecido

Mais por deferência para com uma amiga estrangeira de passagem pelo nosso país do que por convicção, acedi fazer um passeio de moliceiro nos dois troços da Ria de Aveiro disponíveis para tal. Para quem não saiba, essa é, nos dias que correm, actividade bastante popular na cidade dos ovos moles e conta com muita e variada oferta de serviços. Óptimo. Não só isso é factor gerador de emprego, como contribui para a continuidade no activo de uma embarcação que eu, para ser sincero, julgava quase extinta. Aquilo até já parece uma Veneza em miniatura. Nas ruas do Rossio aveirense, agitando panfletos e volantes multilingues, os funcionários das diferentes empresas fluviais, t-shirt da casa a preceito, tentam cativar os (cada vez mais) turistas que por ali vagueiam.

Cartas do Bornéu – 27

Coletes mágicos e um brinco minhoto

Coletes mágicos e um brinco minhoto

Kuching regista um dos maiores níveis de precipitação do mundo e quando chove é a cântaros e durante horas a fio. Dia de chuva é excelente dia para perdermos tempo à vontade nos museus sem ficarmos com aquela sensação de culpa de que devíamos era estar ao ar livre a desfrutar da energia do astro rei e a apreciar o azul do céu. Que por estas bandas, diga-se de passagem, são coisas raras, daí serem tão invejadas e apetecidas.

Quanto a espaços museológicos, Kuching não se pode queixar.

Cartas do Bornéu – 26

Vestígios coloniais

Vestígios coloniais

A acção do novo Governo de James Brooke veio inevitavelmente mexer com os padrões vigentes na miríade das diferentes comunidades que habitavam o extenso território, agora sob nova jurisdição. A imposição de condicionamentos ainda hoje se reflecte no tecido social. Caso flagrante, o encorajamento à emigração massiva de chineses para Sarawak, gente que logo tratou de abrir estabelecimentos comerciais junto aos fortes impactando profundamente a economia local assente na troca directa de produtos da selva.

Cartas do Bornéu – 25

O rajá branco

O rajá branco

Na orla de Sarawak desembarcou, em 1839, o aventureiro inglês James Brooke, nascido trinta seis anos antes na antiga feitoria portuguesa de Bandel, nas margens do Hooghly, a norte de Calcutá. Essa figura viria mais tarde a inspirar personagens de alguns filmes e romances, entre os quais os consagrados Lord Jim, de Joseph Conrad, e Sandokan, o Tigre da Malásia, de Emilio Salgari. Não era a primeira vez que Brooke tentava a sorte – ou seja, negócios – no Oriente. Fizera-o antes, embora sem sucesso.

Fundadores da Cidade do Santo Nome de Deus

A casta dos mercadores soldados

A casta dos mercadores soldados

Como é sabido, Macau é fruto da teimosia não só dos missionários mas também, e sobretudo, de uma determinada casta de gente habituada a andar por conta própria – nessa já longínqua segunda metade do século XVI – livre do freio imposto pelas autoridades sedeadas em Lisboa ou em Goa.

Muitos deles embarcavam porque eram filhos segundos, ou seja pessoas que do ponto de vista da lógica económica das famílias – podemos dizê-lo – estavam deserdados, porque normalmente o património era herdado pelo filho mais velho e mantinha-se intacto, não sendo fraccionado.