Category Archives: Cultura

Carta do Bornéu – 2

Do vício e da virtude

Do vício e da virtude

À semelhança do que acontece noutros reinos que chafurdam em poços de nafta – vulgo Emirados, Kuwait, Qatar, e, claro, esse exemplo de probidade moral e política, oh!, ditoso paraíso, chamado Arábia Saudita – no sultanato do Brunei-Darussalam as virtudes querem-se públicas, os vícios mantêm-se privados. Interdição total de venda de álcool, proibição de fumar em todos os lugares públicos, inexistência de discotecas ou bares com música ao vivo, são três factores distintivos do sultanato, daí que haja quem improvise o Karaoke em casa e os bares de alterne, quando ansiados, buscam-se além fronteiras, em Kota Kinabalu e em Miri, verdadeiro enclave étnico chinês de Sarawak, sucursal de micro clínicas e pensões baratas, que foi avançando floresta adentro porque, findo o período da mineração do estanho, o petróleo começou ali a jorrar.

Cartas do Bornéu – 1

Selamat Hari Natal

Selamat Hari Natal

Enquanto o politicamente correcto, essa novel e pegajosa maleita do século presente, medra e se derrama por esse mundo fora, atingindo, inclusivamente, foros de irracionalidade em países como o Canadá, que recentemente interditou por decreto governamental que todo e qualquer organismo público desejasse aos cidadãos em geral, e visitantes em particular, o “Feliz Natal”, como sempre se fez ao longo dos tempos naquele vasto e florestado território, apresentando como alternativa a socialmente aceitável e anódina saudação “Festas Felizes”, e isto (veja-se lá onde chega a histeria!), dizem eles, “para não ferir as suceptibilidades das comunidades não cristãs do País”, na Malásia, nação maioritariamente muçulmana, gigantescos cartazes publicitários junto às intersecções viárias e centros comerciais exibiram durante largas semanas bem legíveis desejos de “Selamat Hari Natal” e “Merry Christmas”, sem complexos nem rodriguinhos culpabilizadores, dirigidos a crentes e a descrentes; a nazarenos ou maometanos, a hindus, budistas, taoístas, animistas; a afins, avatares e aos eventuais extraterrestres que por lá tenham passado. E por tal atrevimento nenhum mal veio ao mundo.

Fora do Baralho

Dias casamenteiros e de muito vermelho

Dias casamenteiros e de muito vermelho

As urbes por toda a China vivem o Ano Novo Lunar e com mais artifícios luminosos do que nunca. Consumir, consumir, consumir sempre!, permanece a palavra de ordem. Numa cidade como Xangai, por exemplo, anualmente e em média, juntam os trapos cem mil casais. São, por isso, muitos os compromissos assumidos nesta auspiciosa quadra. Para a generalidade dos jovens chineses o casamento é a mais importante data das suas vidas, daí que não olhem a despesas.

Costa da Memória

Ponta das Almedias

Ponta das Almedias

Diogo Gomes, protótipo do navegador-mercador, refere a descoberta de “um promontório formosíssimo entrando no mar, a que chamaram Cabo Verde”, reparando que “neste lugar começa a linha equinocial, porque os dias e as noites aí são sempre iguais no Inverno como no Verão, e aquelas gentes são na maior parte negros”. Essa península, onde, em 1444, arribara Dinis Dias, o primeiro europeu a deparar com tais virentes paragens, daí a designação, seria visitada também por Luís de Cadamosto.

Costa da Memória

Cabo Verde do Senegal

Cabo Verde do Senegal

Depois de várias horas no pára-arranca, chegámos ao terminal terrestre, local caótico e saturado com ruídos motorizados. O pior de tudo era a ausência de luz, a não ser os faróis fugazes e intermitentes das viaturas, partindo e chegando. Sair dali ileso, em busca de transporte que me levasse até ao centro da cidade, foi um verdadeiro milagre. Bem avisavam os guias de viagem: «Evite a todo o custo chegar ao terminal de Dakar durante a noite». Só fiquei tranquilo quando finalmente me encontrei com o Faisal, amigo marroquino do João surfista, garante de alojamento para essa e as noites que se seguiriam. E foi em boa hora, pois a tosse era cada vez mais assustadoramente seca e contínua.

Costa da Memória

As Signare de Rio Fresco

As Signare de Rio Fresco

Para consumo local, camadas de pedaços de peixe a secar, em cestos de vime, em bidões ou simplesmente disseminados pelo areal. Um estendal não muito bonito de se ver exalando um fedor insuportável. Será que se destinava a ser comercializado? Quem teria a coragem de preparar o almoço com uma mixórdia daquelas?

A praia era utilizada também para a prática do futebol – com aliados e oponentes devidamente equipados – e para os muçulmanos enterrarem os seus mortos.

Costa da Memória

Natal em Saint-Louis

Natal em Saint-Louis

Que mais posso dizer sobre Saint-Louis? Que ali passei as passas do Algarve, ardendo em febre e cuspindo parte da finíssima areia do deserto acumulada nos pulmões a ponto de provocar sangue, tentando tudo para a debelar, desde inúteis xaropes a um bizarro tratamento natural à base de manteiga de amendoim recomendado pelo guarda da pensão onde fiquei alojado mas que se revelou, tal como suspeitava, ineficaz. Contra uma rinite nada como um bom anti-histamínico. Teria de esperar por Dakar, e um médico decente, para chegar a essa conclusão.

Costa da memória

Terra verde à vista

Terra verde à vista

Sabia bem que a passagem da fronteira em Rosso não iria ser pêra doce, e por isso estava algo apreensivo. Enfim, não era propriamente a periclitante travessia do rio numa barcaça a remos que apoquentava os estrangeiros, antes os múltiplos e perversos estratagemas utilizados pelos corruptos funcionários da imigração mauritanos, de modo a conseguir os tão apetecidos euros. De facto, lá estavam os ditos-cujos, abrigados da canícula do meio-dia em frente a gigantescas ventoinhas. Indolentes e hostis, aguardavam a chegada de uma possível vítima.

Costa da Memória

Um Rioja no Adrar

Um Rioja no Adrar

Entre os estrangeiros que conheci no Auberge des Caravannes contavam-se dois guineenses, que ali trabalhavam sazonalmente e sonhavam viver em Portugal – «não me consegue arranjar um visto de entrada?», perguntava o mais jovem – e um bando de catalães bastante divertidos. Na sua companhia regressei a Nouackhot, desta feita numa furgoneta. Ernest Molluna, o chefe do grupo, deslocava-se a Portugal com regularidade.

Costa da Memória

Feitorias portuguesas no deserto

Feitorias portuguesas no deserto

Visitada Chinguetti, o próximo destino só podia ser Ouadane. Mas antes disso, breve paragem em Tinigi, junto ao Ouad ar-Rghaywiyya, sensivelmente a meio caminho. A primeira menção a esta cidade de menor importância é feita por Cadamosto, em 1506. O navegador descreve-a como uma “aldeia habitada por azenegues vassalos de uma raça de alarves que se chamam Ludea”. De facto, tudo o que resta é um amontoado de pedras a justificar o conhecido provérbio mauritano “mais abandonada do que Tinigi”.

Costa da Memória

Os manuscritos de Chinguetti

Os manuscritos de Chinguetti

Ao longo dos séculos XVII e XVIII reactivar-se-iam consideravelmente as caravanas no planalto de Adrar (actual Mauritânia) com os habitantes a desempenhar importantes funções. Proprietários de postos, transportadores e intermediários, trocando produtos do Norte ou produtos locais (sal, trigo, papel, cobre, tâmaras) pelo ouro, marfim, penas de avestruz e escravos. Mais tarde, já nos séculos XIX e XX, o desenvolvimento do comércio atlântico e o empreendimento colonial da África do Oeste, assim como a mudança das rotas comerciais, fariam retroceder o desenvolvimento económico de Chinguetti, que se viu limitada a um mero ponto de passagem das caravanas de sal originárias de Idjil rumo ao Sul e Leste do País.

Costa da Memória

As cidades santas

As cidades santas

Para bem apreciar a beleza do planalto há que passear pelas redondezas de Atar, feitas de montanhas esboroadas e cumes achatados, verdadeiras mesas, arbustos e terra vermelha. O Parque Nacional de Terjit, por razões óbvias, surge no topo das prioridades do candidato a visitante, que se alojará na povoação com dúzia e meia de palhoras cónicas que dão nome ao parque, plantada num pequeno oásis de palmeiras. Ali, com uma diária entre mil e mil e quinhentos dirhams, pode degustar compota de tâmaras e visitar as pinturas rupestres de Legouera, a quarenta minutos de caminhada.

Costa da Memória

A sombra dos salafitas

A sombra dos salafitas

«– Não tenho dúvidas de que o cancelamento do Lisboa-Dakar teve a mão do Sarkozy», afirmava semanas depois do atentado mencionado na crónica da semana passada (estava eu já no Senegal) Rene, um marselhês que, depois de reformado, decidira viajar e escrever livros. Outras razões, que não a simples segurança de cidadãos europeus, teriam justificado a anulação de tão relevante acontecimento desportivo (também por aqui se falava em negócios de petróleo).

Costa da Memória

Atentado no deserto

Atentado no deserto

A véspera do festival tabaski foi vivida por alguns dos hóspedes do albergue com apreensão. Motivo: a presença do Jefferson Matt, um norte-americano de trinta e dois anos recentemente convertido ao Islão.

«– Os jovens estrangeiros conversos assustam-me», dizia a argelina Selma, em périplo africano na companhia do marido francês.

Costa da Memória

Arguim num mar de areia

Arguim num mar de areia

As avarias naquela região são frequentes, mas para isso estão os outros estrangeiros que dão sempre uma mãozinha. É grande a solidariedade entre eles, cientes de que podem ser as próximas vítimas.

No posto onde nos abastecemos com combustível havia um poço e meia dúzia de cabras num redil, os únicos sinais de vida num perímetro de muitas dezenas de quilómetros. Rodeava-nos um deserto alaranjado preenchido com bonitas dunas onde nos apetecia rebolar.