Category Archives: Cultura

Bengala e o Reino do Dragão – 44

O fruto sem semente

O fruto sem semente

Como já aqui dissemos, a tentativa de converter os butaneses saiu gorada e os padres João Cabral e Estêvão Cacela bem frustrados se devem ter sentido, pois o esforço foi muito. Só séculos depois, já em meados da centúria passada, voltaria um jesuíta a assumir papel de destaque no Reino do Dragão. Mas não era essa a intenção, quando William Mackey deixou o Canadá em 1946 destinado à missão de Darjeeling, capital da província indiana himalaica do Sikkim, onde a congregação tinha a seu cargo, e há já mais de um século, escolas, clínicas e igrejas. Originalmente, sob a batuta de padres belgas; logo após a Segunda Guerra Mundial, regidas por homólogos canadianos. O padre Mackey adaptar-se-ia de imediato à nova realidade.

Bengala e o Reino do Dragão – 43

O relato de Cabral

O relato de Cabral

A viagem ao Butão foi também documentada por João Cabral. Ou melhor dizendo, parte dessa viagem, pois a missiva enviada a Roma em 1628 por esse jesuíta abordava sobretudo a estada dos dois padres portugueses no Utsang (Tibete Central) e a fundação aí (ou tentativa disso) de uma missão católica. Como afirma logo no início, “nas cartas de Outubro passado escrevemos a Vossa Reverência o sucesso da nossa missão até à chegada e estada com o Droma Raja ou Lama Rupa (Shabdrung)”, Cabral referia-se à “Relação” de Cacela, escrita no ano anterior, a 4 de Outubro de 1617. Naquela que ele próprio redigiu dá-nos “conta da mudança que fizemos para o Reino de Utsang, no qual já nas outras fazíamos referência”.

Bengala e o Reino do Dragão – 42

A partida para o Tibete

A partida para o Tibete

Em 1627, Estêvão Cacela parte para Xigatsé, onde chega em Novembro desse ano. “Resolvemo-nos a fazer esta mudança porque achamos que todos os favores do Lama Rupa eram traças para nos impedir nosso intento, movido do zelo da sua falsa seita”, escreve o português. Pouco depois, em Dezembro ou início de Janeiro, é a vez de João Cabral rumar a Xigatsé, tendo atingido essa localidade a 20 de Janeiro de 1628. Não se sabe qual o trajecto utilizado por ambos os padres. Uma das possibilidades é que tenham seguido o vale de Chagri rumo a Lingzhi, através do passo de Yale La, onde existe ainda hoje um mosteiro fortificado. Outra hipótese é a de terem optado pela rota mais usual, a que de Paro ruma à cidade tibetana de Pagri, via vale de Chumbi.

Bengala e o Reino do Dragão – 41

As tentativas de conversão

As tentativas de conversão

No decorrer da estada dos dois jesuítas na corte butanesa, Shabdrung ordenaria que três dos seus monges os acompanhassem em permanência. Dois deles eram muito jovens ainda. Um de doze anos, “muito ingénuo e de habilidade”, e outro de dezanove, “que tem particular aplicação em aprender o que se lhe ensina”. Cacela e Cabral, aproveitando a proximidade, foram-nos catequizando, ou como o primeiro diz, instruindo-os “nas cousas da nossa Santa Fé”. O autor da “Relação” refere ainda um quarto monge, “de 27 anos, mui principal e de muitos parentes” que durante todo o tempo acompanhava o monarca, “ajudando-o nas obras da sua curiosidade de pintura, escultura e marcenaria em que está sempre ocupado para ornato da imagem do seu pai”.

Bengala e o Reino do Dragão – 40

O Horizonte Perdido

O Horizonte Perdido

É muito provável que James Hilton, autor do romance “Horizonte Perdido”, escrito em 1933, tenha tido acesso a algumas das cartas enviadas pelos jesuítas portugueses no já distante primeiro quartel do século XVII, fosse a “Relação” de Cacela, a missiva de Cabral ou as cartas de António de Andrade, esse o verdadeiro pioneiro na região himalaica. Atente-se à seguinte passagem da obra do escritor britânico: “O mosteiro, no entanto, tinha mais a oferecer do que simples exibições de chinoiserie. Uma das suas características, por exemplo, era uma biblioteca muito agradável, alta e espaçosa (…). Conway, após uma rápida olhadela a algumas das estantes, encontrou motivos de sobra para se surpreender.

Bengala e o Reino do Dragão – 39

A identificação do Shangri-La

A identificação do Shangri-La

No decorrer das suas investigações em torno do mítico reino do Cataio, que até então não tinham logrado identificar, os jesuítas João Cabral e Estêvão Cacela ouviriam falar de um outro misterioso reino. “É porém aqui muito célebre um reino que dizem ser muito grande, e se chama Xembala, e fica junto a outro que chamam Sopo”, escreve Cacela na sua “Relação”. Sabia o padre que o dito reino do Sopo era habitado pelos tártaros (mongóis), “como entendemos pela guerra que este rei nos diz que aquele Reino tem de contínuo com a China”, acrescentando depois que, apesar do reino da China estar populado por muita mais gente, “a do Sopo é mais esforçada”, e por isso tinha por hábito vencer os chineses em todas as batalhas travadas.

Bengala e o Reino do Dragão – 38

O arco e a flecha

O arco e a flecha

Estêvão Cacela traça-nos um retrato dos butaneses apresentando-os como gente branca, “ainda que a pouca limpeza com que se tratam faz que o não pareçam tanto”. O cabelo traziam-no comprido, cobrindo-lhes as orelhas e parte da testa, e o rosto estava desprovido de barba. E para se certificar que assim continuava faziam uso, com bastante frequência, de umas tenazes que traziam penduradas ao peito, “que só servem de arrancar tudo o que aponta”. O traje dos butaneses não diferia daquele utilizado por outros povos tibetanos, pois “os braços trazem despidos, e do pescoço até aos joelhos se cobrem com um pano destes de lã, trazendo mais outro pano grande por capa”.

Bengala e o Reino do Dragão – 37

Butão e os reinos vizinhos

Butão e os reinos vizinhos

Estêvão Cacela reserva algumas das páginas do seu relato para nos fazer uma descrição geral do reino que tiveram o privilégio de calcorrear. Diz-nos que o Butão “é assaz grande e estendido e muito povoado, tendo a este rei uma sujeição ao jeito voluntária sem obrigação de lhe haverem de deferir nem seguir sua doutrina, nem ele ter poder de gente para constranger ninguém a nada; antes como sua principal renda está no que lhe dão voluntariamente, a ninguém quer ter descontente, e cada um é muito livre para fazer o que quiser, como o mesmo rei por muitas vezes nos disse, falando-nos ainda acerca dos seus lamas que são os mais sujeitos”.

Bengala e o Reino do Dragão – 36

A aprendizagem do Butanês

A aprendizagem do Butanês

Também ficamos a saber, ao ler a “Relação”, que os nossos padres logo desde o período inicial de itinerância deram os primeiros passos no idioma local. Como confessa Cacela, “em estes meses procuramos com toda a diligência aprender a língua”. Em Chagri os padres continuariam com a aprendizagem do Butanês, mas com grande dificuldade devido à falta de mestres adequados. Como já se viu, o monge que os acompanhava era de Chaparangue, no Tibete Central, onde se falava uma língua totalmente diferente. Cacela chama a atenção para as diferenças notórias nos dialectos do universo tibetano: “(…) posto que estes reinos tenham todos a mesma língua, há muita variedade na pronunciação e nas terminações, e a corrupção dela em algumas partes a faz quase outra, particularmente neste Reino, que, por ficar neste canto sem trato, nem muito comércio dos outros reinos, está muito mudada”.

Bengala e o Reino do Dragão – 35

Diálogos teológicos

Diálogos teológicos

Durante a nossa curta visita a Chagri tenho a oportunidade de compartilhar com os guelões locais – para seu deleite, devo dizê-lo – a extraordinária aventura de Estêvão Cacela e João Cabral. E também eles me fornecem preciosos dados sobre a vida e obra do seu líder espiritual e temporal, anfitrião dos padres portugueses. Apontam, por exemplo, a data do seu nascimento, 1594, informando ainda que Shabdrung, com a idade de 23 anos, «no Ano do Dragão de Fogo», juntar-se-á às hostes do lama Hoptshopa de Gyon e com eles viajará até ao Butão. Aos 27 anos, «que é o Ano do Macaco de Ferro», após a conclusão da pirâmide funerária de prata contendo as relíquias do pai, estabelecerá então o seu próprio corpo monástico «que contava inicialmente com trinta monges». Esse seria o começo da ordem do Palden Drukpa no País.

Bengala e o Reino do Dragão – 34

A arte e o intelecto do monarca

A arte e o intelecto do monarca

Os eremitérios espalhados pelos montes em redor do mosteiro de Chagri continuam hoje a ser ocupados por eremitas que ali permanecem vários meses em recatado silêncio e sem qualquer contacto com os seus semelhantes, nem mesmo aqueles que os abastecem à distância com alimentos, isto no caso dos ditos ascetas não estarem a cumprir estritos períodos de total jejum. Nos seus escritos Estêvão Cacela refere os objectos manufacturados por Shabdrung durante esse retiro espiritual. Entre eles “uma imagem de vulto de Deus em sândalo branco, pequena mas excelentemente feita” e algumas pinturas que ainda hoje são motivo de reverência por parte dos butaneses.

Bengala e o Reino do Dragão – 33

O retiro de Shabdrung

O retiro de Shabdrung

Pelo depoimento prestado por Estêvão Cacela, depreende-se que os jesuítas viajaram com Shabdrung em diferentes partes do reino antes de ficarem definitivamente hospedados em Chagri. Lembra o padre Cacela que “nestas serras e noutras o acompanhamos dois meses até chegar a sua casa que está naquela serra onde teve o seu recolhimento sem ter consigo mais do que os seus lamas”. Como bem salienta o padre português, o palácio fora propositadamente erguido para dar guarida ao rei e a alguns dos seus monges apenas. Situava-se num local agreste e de difícil acesso pois “para fazer aí uma casa é necessário muita penedia e aplainar com muito trabalho algum espaço da serra, que é muito alcantilada”.

Bengala e o Reino do Dragão – 32

Punakha e o fácies ocidental do ministro

Punakha e o fácies ocidental do ministro

Fugido à perseguição religiosa no Tibete, no século XVII, o rei Ngawang Namgyel (esse o verdadeiro nome de Shabdrung Rinpoche, literalmente, “aquele a cujos pés todos se prostram”) teve o mérito de criar um país unificado e com identidade distinta a partir daquilo que era até então uma manta de retalhos de pequenos feudos em guerra.

O que pode ser designado como segunda fase do programa de Shabdrung para governar o Butão começaria com o período de construção dos mosteiros-fortalezas de que falávamos numa das últimas edições, iniciado em Simtokha em 1629 e concluído em Lingzhi e Gasa por volta de 1646.

Bengala e o Reino do Dragão – 31

Os canhões da unificação

Os canhões da unificação

Situada a dois mil metros de altitude naquele que é considerado um dos mais belos vales do País, Paro foi desde tempos imemoriais relevante rota de comércio que ligava o Tibete ao subcontinente indiano e hoje ostenta (ainda) alguns dos mosteiros mais emblemáticos do Butão. Erguido em 1645, a mando de Shabdrung, o dzong de Rinpung (inconfundível devido ao seu telhado amarelo) usufrui de vista privilegiada sobre o vale de Paro. Durante séculos serviria este imponente edifício de cinco andares como eficaz meio de deterrência às inúmeras tentativas de invasão por parte dos tibetanos, e, já na era actual, tornar-se-ia mundialmente conhecido por terem sido aí filmadas muitas das cenas do filme “O Pequeno Buda”, de Bernardo Bertolucci.

Bengala e o Reino do Dragão – 30

Os dzongs defensivos

Os dzongs defensivos

A costumeira itinerância do monarca butanês deve-se também ao período conturbado da época. Datam dessa altura os inúmeros dzongs (mosteiros-fortalezas) que vemos espalhados pelo País, muitos dos quais construídos por iniciativa do monge guerreiro. Aliás, deve-se a ele esse conceito arquitectónico tão sui generis. O dzong de Simtokha, datado de 1629, o primeiro dos muitos que o “unificador do Butão” mandou erguer, funciona hoje como centro monástico e administrativo, e abriga um dos principais institutos de aprendizagem de Dzongkha, o idioma oficial do reino. Resistiu a inúmeros ataques, sendo um deles liderado por cinco lamas descontentes em estreita colaboração com o exército invasor tibetano.