Category Archives: Cultura

Cartas do Bornéu – 28

Marfim de calau e cabeças fumadas

Marfim de calau e cabeças fumadas

No Museu de Sarawak, instituição à moda antiga, existe uma pequena galeria dedicada ao naturalista Russel Wallace, o que me parece perfeitamente justo, pois foi dele que partiu a iniciativa de ali congregar muito do material que até então recolhera. Inauguraria-o, em 1891, Charles Brooke, o segundo rajá branco, pois também o governante pretendia expor artefactos tribais. Resumindo: numa das vitrinas temos o busto do co-autor da teoria da evolução das espécies, uma imagem do seu afamado anfíbio – o sapo-voador-de-Wallace – a espingarda e a caixa que simultaneamente lhe servia de assento, mesa e local para armazenar os bichos prontos a dissecar e a entrar no catálogo. Há ainda uma folha com trechos do seu livro “O Arquipélago Malaio”.

Um passeio na Ria de Aveiro

Navegador esquecido

Navegador esquecido

Mais por deferência para com uma amiga estrangeira de passagem pelo nosso país do que por convicção, acedi fazer um passeio de moliceiro nos dois troços da Ria de Aveiro disponíveis para tal. Para quem não saiba, essa é, nos dias que correm, actividade bastante popular na cidade dos ovos moles e conta com muita e variada oferta de serviços. Óptimo. Não só isso é factor gerador de emprego, como contribui para a continuidade no activo de uma embarcação que eu, para ser sincero, julgava quase extinta. Aquilo até já parece uma Veneza em miniatura. Nas ruas do Rossio aveirense, agitando panfletos e volantes multilingues, os funcionários das diferentes empresas fluviais, t-shirt da casa a preceito, tentam cativar os (cada vez mais) turistas que por ali vagueiam.

Cartas do Bornéu – 27

Coletes mágicos e um brinco minhoto

Coletes mágicos e um brinco minhoto

Kuching regista um dos maiores níveis de precipitação do mundo e quando chove é a cântaros e durante horas a fio. Dia de chuva é excelente dia para perdermos tempo à vontade nos museus sem ficarmos com aquela sensação de culpa de que devíamos era estar ao ar livre a desfrutar da energia do astro rei e a apreciar o azul do céu. Que por estas bandas, diga-se de passagem, são coisas raras, daí serem tão invejadas e apetecidas.

Quanto a espaços museológicos, Kuching não se pode queixar.

Cartas do Bornéu – 26

Vestígios coloniais

Vestígios coloniais

A acção do novo Governo de James Brooke veio inevitavelmente mexer com os padrões vigentes na miríade das diferentes comunidades que habitavam o extenso território, agora sob nova jurisdição. A imposição de condicionamentos ainda hoje se reflecte no tecido social. Caso flagrante, o encorajamento à emigração massiva de chineses para Sarawak, gente que logo tratou de abrir estabelecimentos comerciais junto aos fortes impactando profundamente a economia local assente na troca directa de produtos da selva.

Cartas do Bornéu – 25

O rajá branco

O rajá branco

Na orla de Sarawak desembarcou, em 1839, o aventureiro inglês James Brooke, nascido trinta seis anos antes na antiga feitoria portuguesa de Bandel, nas margens do Hooghly, a norte de Calcutá. Essa figura viria mais tarde a inspirar personagens de alguns filmes e romances, entre os quais os consagrados Lord Jim, de Joseph Conrad, e Sandokan, o Tigre da Malásia, de Emilio Salgari. Não era a primeira vez que Brooke tentava a sorte – ou seja, negócios – no Oriente. Fizera-o antes, embora sem sucesso.

Fundadores da Cidade do Santo Nome de Deus

A casta dos mercadores soldados

A casta dos mercadores soldados

Como é sabido, Macau é fruto da teimosia não só dos missionários mas também, e sobretudo, de uma determinada casta de gente habituada a andar por conta própria – nessa já longínqua segunda metade do século XVI – livre do freio imposto pelas autoridades sedeadas em Lisboa ou em Goa.

Muitos deles embarcavam porque eram filhos segundos, ou seja pessoas que do ponto de vista da lógica económica das famílias – podemos dizê-lo – estavam deserdados, porque normalmente o património era herdado pelo filho mais velho e mantinha-se intacto, não sendo fraccionado.

Cartas do Bornéu – 24

O antigo porto de Cerava

O antigo porto de Cerava

A frente ribeirinha do rio Sarawak é destino natural para qualquer visitante de Kuching que se preze. Mesmo para aquele que, como eu, antes de aí assentar arraiais em busca de recatez e surpresas decida fazer uma incursão pelos arredores da cidade (vantagens do aluguer de veículos nos aeroportos) optando, por exemplo, pela reserva natural de Matang assinalada a oeste por um atractivo e verdejante morro onde em época adequada e com uma boa dose de sorte se podem avistar orangotangos e uma ou outra raflesia, a maior e mais mal cheirosa flor do mundo, além de múltiplas quedas de água e bicheza vária.

Cartas do Bornéu – 23

A monotonia dos palmeirais

A monotonia dos palmeirais

Se o primeiro contacto com Kota Kinabalu – onde chego, madrugada avançada, vésperas de ano novo, deparando com a cidade apinhada de turistas coreanos e chineses – é por via aérea, já o encontro com a contraparte Kuching, cabeça da província malaia de Sarawak, acontece por via terrestre. Numa primeira camioneta, com origem na capital do sultanato do Brunei, Bandar Seri Begawan, rumo à fronteiriça Mirin, essa invenção urbana chinesa com abundância de bares, restaurantes, salões de massagens e centros de maternidade (mais correcto será dizer clínicas para abortos) e a maior concentração de pensões e hotéis por metro quadrado que estes olhos já presenciaram.

Duarte de Sande, Jesuíta Vimaranense

DUARTE DE SANDE

O mentor de Matteo Ricci

Desde os tempos da escola primária que nos habituamos a associar Guimarães à figura de Dom Afonso Henriques e à origem da nação. Essa é uma realidade bem conhecida dos portugueses. São raros, no entanto, aqueles que conhecem a aventura vimaranense da época dos Descobrimentos, representada por alguns ilustres personagens. O jesuíta Duarte de Sande foi um deles, pois deixou a sua marca na China do século XVI. Inicialmente em Macau; e depois, em Zhaoqing, cidade da província de Cantão.

Cartas do Bornéu – 22

Joget e keke-lapiz

Joget e keke-lapiz

Após anos de viagens sem fazer um único registo fotográfico dos locais por onde ia passando acostumei-me, de uma década a esta parte, a não sair à rua sem a máquina fotográfica. Durante a minha estada em Kuching, capital do Estado malaio de Sarawak, no único fim de tarde em que quebro essa regra eis que me chegou aos ouvidos o que parecia ser um coro de mulheres da Beira Alta. Foi o suficiente para me levar de novo à beira-rio, ao tal coberto comunitário onde nos dias antecedentes ao Ano Novo Lunar me deliciara com excelentes interpretações de música tradicional chinesa a cargo de uma orquestra juvenil que ao longo de uma impecável apresentação fizera rodar maestros por devir, todos muito jovens.

Daniel Loviat, Antiquário

Daniel Loviat

O gosto pelos objectos

Começou muito novo nas lides de coleccionismo. Daniel Loviat, com «sessenta e muitos anos», de Londres rumou à Ásia, percorrendo a chamada “hippie road”. Istambul, Cabul, Índia – «três anos na Índia» – Nepal, Indonésia, Timor e, finalmente, Austrália. Ali ficou durante o tempo suficiente para conseguir a nacionalidade que lhe permitiria, doravante, maior facilidade de movimentação do que a sua nacionalidade original, a francesa. Ao longo dessa viagem começou a recolher objectos pensando que um dia poderia talvez abrir uma loja de antiguidades. A estrada foi levando-o por aí, com alguns bons momentos e outro menos bons. Mas não tem razões de queixa. «Estou satisfeito com a vida», conclui o nosso entrevistado.

Cartas do Bornéu – 21

As casas longas dos daiaques

As casas longas dos daiaques

De regresso ao Brunei, desta feita para uma visita rural. Um Nissan de motor bem apurado serve o propósito, rumo à fronteira com o que resta da selva do Bornéu. No caso, é todo o caminho, até a estrada acabar. Literalmente. Em Teraja, onde resiste uma “longhouse” – a dita “casa comprida”, típica habitação dos povos autóctones, sejam eles iban, orang ulus ou daiaques – credenciada pelo turismo local.

Antes de ali chegar, passagem obrigatória em Tutong, terra de feiticeiros.

Língua e Cultura Portuguesas entre Nipónicos

Um terreno por fertilizar

Um terreno por fertilizar

No Japão há uma apetência para a aprendizagem do Português e ela traduz-se em licenciaturas de estudos luso-brasileiros onde se ensina a história, a literatura, a cultura, a linguística. No departamento de estudos luso-brasileiros da Universidade de Quioto, por exemplo, leccionam a tempo inteiro onze professores – entre portugueses, brasileiros e japoneses – e outros nove em regime part-time. Um total de vinte professores para cerca de três centenas e meia de alunos.

Cartas do Bornéu – 20

Missionários na grande ilha

Missionários na grande ilha

Ao garrote dos castelhanos seguiu-se o poderio dos holandeses, que se apossaram de todas as nossas praças recorrendo a um poderio militar e um pragmatismo nunca antes visto. Com a perda de Malaca, em 1641, um ano após a restauração da independência nacional, a comunicação com o Bornéu passou a ser feita por aventureiros e missionários portugueses e com ligação directa ao porto de Macau, considerado – perdida Malaca – o último reduto no Extremo Oriente.

Cartas do Bornéu – 19

As lantacas do sultão

As lantacas do sultão

Em 1523, Simão de Abreu seria enviado de Ternate a Malaca pelo primo António de Brito, inaugurando, por assim dizer, uma nova rota regular entre as Malucas e Malaca, fazendo ao mesmo tempo a primeira aproximação oficial lusa ao arquipélago filipino. Era a via do Bornéu que se abria em toda a sua extensão (até então as viagens oficiais regressavam sempre ao porto de origem, ou seja, Malaca), muito mais curta do que o caminho de Java e Banda, e que seria oficializada em 1526 pela viagem de D. Jorge de Meneses, assistindo nós aqui a uma reedição da visita da frota de Magalhães cinco anos antes, pois também Meneses é recebido com honras e fausto na corte do sultão Bolkiah.