Category Archives: Cultura

Cartas do Bornéu – 23

A monotonia dos palmeirais

A monotonia dos palmeirais

Se o primeiro contacto com Kota Kinabalu – onde chego, madrugada avançada, vésperas de ano novo, deparando com a cidade apinhada de turistas coreanos e chineses – é por via aérea, já o encontro com a contraparte Kuching, cabeça da província malaia de Sarawak, acontece por via terrestre. Numa primeira camioneta, com origem na capital do sultanato do Brunei, Bandar Seri Begawan, rumo à fronteiriça Mirin, essa invenção urbana chinesa com abundância de bares, restaurantes, salões de massagens e centros de maternidade (mais correcto será dizer clínicas para abortos) e a maior concentração de pensões e hotéis por metro quadrado que estes olhos já presenciaram.

Duarte de Sande, Jesuíta Vimaranense

DUARTE DE SANDE

O mentor de Matteo Ricci

Desde os tempos da escola primária que nos habituamos a associar Guimarães à figura de Dom Afonso Henriques e à origem da nação. Essa é uma realidade bem conhecida dos portugueses. São raros, no entanto, aqueles que conhecem a aventura vimaranense da época dos Descobrimentos, representada por alguns ilustres personagens. O jesuíta Duarte de Sande foi um deles, pois deixou a sua marca na China do século XVI. Inicialmente em Macau; e depois, em Zhaoqing, cidade da província de Cantão.

Cartas do Bornéu – 22

Joget e keke-lapiz

Joget e keke-lapiz

Após anos de viagens sem fazer um único registo fotográfico dos locais por onde ia passando acostumei-me, de uma década a esta parte, a não sair à rua sem a máquina fotográfica. Durante a minha estada em Kuching, capital do Estado malaio de Sarawak, no único fim de tarde em que quebro essa regra eis que me chegou aos ouvidos o que parecia ser um coro de mulheres da Beira Alta. Foi o suficiente para me levar de novo à beira-rio, ao tal coberto comunitário onde nos dias antecedentes ao Ano Novo Lunar me deliciara com excelentes interpretações de música tradicional chinesa a cargo de uma orquestra juvenil que ao longo de uma impecável apresentação fizera rodar maestros por devir, todos muito jovens.

Daniel Loviat, Antiquário

Daniel Loviat

O gosto pelos objectos

Começou muito novo nas lides de coleccionismo. Daniel Loviat, com «sessenta e muitos anos», de Londres rumou à Ásia, percorrendo a chamada “hippie road”. Istambul, Cabul, Índia – «três anos na Índia» – Nepal, Indonésia, Timor e, finalmente, Austrália. Ali ficou durante o tempo suficiente para conseguir a nacionalidade que lhe permitiria, doravante, maior facilidade de movimentação do que a sua nacionalidade original, a francesa. Ao longo dessa viagem começou a recolher objectos pensando que um dia poderia talvez abrir uma loja de antiguidades. A estrada foi levando-o por aí, com alguns bons momentos e outro menos bons. Mas não tem razões de queixa. «Estou satisfeito com a vida», conclui o nosso entrevistado.

Cartas do Bornéu – 21

As casas longas dos daiaques

As casas longas dos daiaques

De regresso ao Brunei, desta feita para uma visita rural. Um Nissan de motor bem apurado serve o propósito, rumo à fronteira com o que resta da selva do Bornéu. No caso, é todo o caminho, até a estrada acabar. Literalmente. Em Teraja, onde resiste uma “longhouse” – a dita “casa comprida”, típica habitação dos povos autóctones, sejam eles iban, orang ulus ou daiaques – credenciada pelo turismo local.

Antes de ali chegar, passagem obrigatória em Tutong, terra de feiticeiros.

Língua e Cultura Portuguesas entre Nipónicos

Um terreno por fertilizar

Um terreno por fertilizar

No Japão há uma apetência para a aprendizagem do Português e ela traduz-se em licenciaturas de estudos luso-brasileiros onde se ensina a história, a literatura, a cultura, a linguística. No departamento de estudos luso-brasileiros da Universidade de Quioto, por exemplo, leccionam a tempo inteiro onze professores – entre portugueses, brasileiros e japoneses – e outros nove em regime part-time. Um total de vinte professores para cerca de três centenas e meia de alunos.

Cartas do Bornéu – 20

Missionários na grande ilha

Missionários na grande ilha

Ao garrote dos castelhanos seguiu-se o poderio dos holandeses, que se apossaram de todas as nossas praças recorrendo a um poderio militar e um pragmatismo nunca antes visto. Com a perda de Malaca, em 1641, um ano após a restauração da independência nacional, a comunicação com o Bornéu passou a ser feita por aventureiros e missionários portugueses e com ligação directa ao porto de Macau, considerado – perdida Malaca – o último reduto no Extremo Oriente.

Cartas do Bornéu – 19

As lantacas do sultão

As lantacas do sultão

Em 1523, Simão de Abreu seria enviado de Ternate a Malaca pelo primo António de Brito, inaugurando, por assim dizer, uma nova rota regular entre as Malucas e Malaca, fazendo ao mesmo tempo a primeira aproximação oficial lusa ao arquipélago filipino. Era a via do Bornéu que se abria em toda a sua extensão (até então as viagens oficiais regressavam sempre ao porto de origem, ou seja, Malaca), muito mais curta do que o caminho de Java e Banda, e que seria oficializada em 1526 pela viagem de D. Jorge de Meneses, assistindo nós aqui a uma reedição da visita da frota de Magalhães cinco anos antes, pois também Meneses é recebido com honras e fausto na corte do sultão Bolkiah.

Arquivo Histórico Ultramarino

ARQUIVO HISTÓRICO ULTRAMARINO

Um repositório de conhecimento

No Arquivo Histórico Ultramarino conserva-se grande parte do acervo documental das antigas colónias portuguesas, sobretudo a partir do século XVII. Este antigo palácio dos condes da Ega seria, durante o Estado Novo, adaptado para Arquivo Histórico Colonial com a documentação vinda da Biblioteca Nacional, hoje consultada por todos os que se interessam pela História da Expansão.

Cartas do Bornéu – 18

O trato e os padrões

O trato e os padrões

O trato de mercancia entre portugueses e a gente da ilha do Bornéu acontece na sequência da tomada de Malaca e da imediata necessidade de encetar cordiais relações com os sultanatos costeiros da região, quase todos islamizados, ficando à partida assegurado o apoio de reinos hindus e budistas sobreviventes à vaga proselitista, caso dos javaneses de Mahajpati e dos samatrenses de Minangakabau, que enviariam a Malaca, respectivamente, “ofertas de paz” e “quatro navios”, cortesias às quais Albuquerque correspondeu com igual peso e medida.

Cartas do Bornéu – 17

Atalaia marítima

Atalaia marítima

Embora nos garantam os serviços de turismo malaios que a zona norte do Bornéu está livre da ameaça de piratas, a verdade é que tudo pode acontecer, daí a existência de um posto de polícia junto à praia e da visita que me fizeram dois dos agentes escalados, a mim e à meia dúzia de estrangeiros presentes na altura. Pelo sim e pelo não, o melhor é proceder ao registo de todos os visitantes.

Confesso que me passou várias vezes pela cabeça a possibilidade de um rapto.

Cartas do Bornéu – 16

Porto de Nossa Senhora de Agosto

Porto de Nossa Senhora de Agosto

Assinala o ponto mais elevado da ponta do Bornéu um redondo monumento inaugurado em 2005 e não muito longe dele, com vista privilegiada para a baía em forma de lua crescente, uma placa de cimento a fazer lembrar as que ainda resistem no interior de Portugal, indicando quantos quilómetros faltam para os locais onde queremos chegar e lembrando-nos isso mesmo quando ali chegamos, com informação a respeito de um herói local, um chefe rungu. Diz-nos que o “bravo guerreiro” resistiu à agressão dos piratas invasores nessa baía, usual porto de desembarque desses predadores responsáveis pelo progressivo êxodo das tribos locais para o interior da ilha.

Cartas do Bornéu – 15

Posto de contemplação

Posto de contemplação

Boia o corpo inerte de uma tartaruga, inchado e de borco, nas águas da baía de Kudat, triste apontamento para um manso final de tarde nessa pacata cidadezinha onde aproveito para matar saudades de umas “parothas” e “teh tariks” como devem de ser. O “Madras”, restaurante tamil, é dos poucos a manter portas abertas até às dez da noite, grande é a ousadia pois o povo daqui deita-se com as galinhas.

Quem diria que foi outrora Kudat o mais importante entreposto do norte do Bornéu?

Cartas do Bornéu – 14

As casas longas dos rungus

As casas longas dos rungus

Do legado colonial de Jesselton três estruturas foram poupadas aos bombardeamentos aliados. Uma delas, a torre de Atkinson, com relógio e coruchéu de pontas recorvadas, qual pavilhão chinês, data de 1905 e deve-se à vontade de uma mãe inglesa em imortalizar o nome do filho, vitimido pelo tifo. Serviu de farol durante largos anos.

Após um olhar de relance aos edifícios dos Correios e do posto geral do turismo – as restantes sobrevivências – conversados ficamos quanto a cunhos históricos.

Cartas do Bornéu – 13

As convulsões de Api-Api

As convulsões de Api-Api

O solo agora ocupado pela capital da província malaia de Sabah estava ainda muitíssimo longe se tornar uma realidade urbana quando ao largo da sua costa, em Julho de 1521, bolinaram as naus Trinidad e Victoria, embora a região envolvente integrasse, desde a centúria de Quinhentos, o império do Brunei, cuja sede do poder os viajantes ibéricos tinham acabado de visitar.