Category Archives: Cultura

Java Menor – 4

JAVA MENOR – 4

Portos e crustáceos

Em 1552, Fatahillah, futuro Sunan Gunung Jati, abandona Banten com a missão cumprida, e vai pregar para Cirebon onde permanecerá até à data da sua morte, em 1570. Terá nessa altura abdicado em favor do filho Maulana Hasanudin (ou Pangeran Sedakingking), o segundo monarca muçulmano da história de Sunda. Seria o filho deste, Maulana Yusuf ou Pangeran Pasareyan (1570 a 1580), o carrasco responsável pelo golpe de misericórdia executado no que restava do reino hindu de Pajajaran, ao ocupar a sua capital no interior, Pakuan, actual Bogor, em 1579. Tratou-se, sem dúvida, de uma jogada de antecipação prejudicadora dos interesses dos portugueses, até então aliados dos reinos hindus de Sunda.

Memória Portuguesa no Nordeste da Índia e no Bangladesh – 1

Filhos dos soldados da fortuna

Filhos dos soldados da fortuna.

Os portugueses, como é sabido, comportavam-se de forma distinta dos restantes europeus que rumavam ao Oriente. Como lembra, e bem, o académico indiano David R. Syiemlieh, “eles não eram meros viajantes ou comerciantes. Muitos dos que partiam para o Oriente, aí permaneciam por longos períodos; alguns, o resto da vida”. Dado que só raras vezes se faziam acompanhar pelas mulheres, a maioria dos que permaneceram no subcontinente casaram-se com indianas. E elas, juntamente com as crianças entretanto geradas, invariavelmente adoptaram a crença dos seus maridos. “Do século XVI ao século XVIII, essa comunidade cresceria em número e importância, como aconteceu no sul e no oeste da Índia; ou cingir-se-ia a pequenos grupos, como em Bengala, sobretudo nas zonas costeiras mas também no interior montanhoso”. É esse aspecto particular de crescimento da população ao longo da Expansão Ultramarina Portuguesa que surge como padrão diferenciador em relação às restantes potências coloniais europeias, como a França, a Inglaterra, a Holanda, e outras. Com o passar dos anos, os territórios anteriormente sob administração do Estado de Índia assistirão a um influxo considerável de pessoas de extracção portuguesa, que, pese embora o progressivo descalabro económico-político português, tiveram um enorme impacto social nas regiões onde se encontravam implantadas.

Java Menor – 3

JAVA MENOR – 3

O santo-guerreiro de Cirebon

A conquista islâmica de Sunda – a avaliar pelo relato do cronista João de Barros – foi levada a cabo por um tal Fatiah Allah, “conquistador de Alá”, ou Fatahillah, “vitória de Deus”, nativo de Pasai, exilado da sua terra aquando da acção vitoriosa dos portugueses. Em Meca, onde terá passado três anos, aprofundou os seus conhecimentos religiosos, e ao regressar à sua terra, agora na qualidade de “caciz de Mafamede”, optaria pela cidade de Jepara onde terá logrado converter ao Islamismo o soberano local que, como forma de agradecimento, lhe concedeu a mão de uma das suas irmãs. Em quase completa contradição com a versão dos cronistas coevos portugueses está a crónica dos acontecimentos decorridos no principado de Cirebon, a Carita Purwaka Caruban Nagari, redigida em 1720. Segundo essa crónica (pouco fiável) Fatahillah seria de origem guzarate e teria desposado a irmã de Pangeran Trenggana, senhor de Demak, para tomar de seguida, em segundas núpcias, a irmã de Sunan Gunung Jati, um dos nove apóstolos muçulmanos de Java. Por sua vez, uma outra crónica local, a Babad Tanah Jawi, assegura que a mão da irmã mais nova de Sunan Gunung Jati, “que na época governava Cirebon”, fora concedida a Sunan Kalijaga, apóstolo como ele, mencionando ainda o casamento de Ratu Mas, “filha primogénita de Raden Patah”, ou seja, irmã mais velha de sultão Pangeran Trenggana, sem, contudo, indicar o seu nome.

Java Menor – 2

O poder do cavaquinho

O poder do cavaquinho

Entusiasma-me, de sobremaneira, constatar que a ré dos elegantes barcos de Indramayu é em tudo semelhante aos castelos das antigas naus portuguesas. Aqui mencionamos a ré; mas noutros locais de Java falaríamos de proas alteadas a fazer lembrar os nossos moliceiros ou os típicos barcos da arte da xávega. Num e noutro caso estamos perante um óbvio legado luso emprestado à indústria naval indonésia. Até hoje – ocupadíssimos que estão os nossos académicos com o revisionismo histórico – ninguém se deu ao trabalho de fazer de tão interessante matéria objecto de estudo. De novo me pergunto: tendo em conta a data da fundação desta cidade, 1523, será que não se terão por aqui fixado alguns dos portugueses habituais frequentadores dos portos da Grande Java? É muito provável. Tira-me desta reflexão especulatória o pregão de um vendedor de siomay, “delicacia” cujo segredo está no molho de amendoim, leguminosa aqui introduzida, como milhentas de outras plantas, pelos nossos antepassados.

Segue no encalço do pracista um bem disposto grupo de rapazes, aqui designados de punks. Não percebo muito bem a razão de tal título. É que de punks nada têm, nem mesmo as camisolas cujas estampas apontam mais para entusiasmos heavy metal. Ora, aos ditos punks indonésios sempre os acompanham cavaquinhos de fios de nylon – os juks –, e os que encontro nesta proximidade de orla marítima não são excepção. Na sua versão infantil, adolescente ou jovem-adulto, o tocador de juk permanece uma das imagens mais características da Indonésia. Aparece-nos pela frente, já em plena cantoria, estejamos nos semáforos à espera de uma luz verde ou sentados num restaurante a degustar um ikan-bakar bem condimentado. Buscam desta forma o seu meio de subsistência milhares de jovens indonésios, e ao fazê-lo revelam a mais evidente forma de herança lusitana presente no dia-a-dia desta surpreendente nação.

À medida que nos aproximamos do Mar de Java aumentam o número de embarcações atracadas, a maioria no activo, outras visivelmente fora de jogo e com a pintura a descascar. A seu lado, invariavelmente, emaranhadas redes de pescas amontoam-se como se tivessem vida própria. É uma fila interminável de barcos pesqueiros até ao canal desembocar num mar raso e lodoso onde entram e saem pares seus de diversos tipos, vindos da faina ou a caminho dela. Aliás, as praias lamacentas são a maior decepção desta costa norte de Java. Mas nem por isso se livra o comum cidadão da cobrança de um inexplicável ingresso. Incrível! As pessoas não só não se importam de tomar banho no lodo como até pagam para isso. Em termos de área construída há apenas uma pequena mesquita – ou melhor dizendo, uma mushola (capela) – em forma de barco.

Mesmo em frente, numa ilhota, avista-se Karang Song, a atracção turística número um de Indramayu. Trata-se de modesta reserva natural patrocinada pela omnipresente Pertamina (disso nos informam uma série de faixas e placas) que no mangal instalou uns passadiços de bambu entrelaçado e uns quantos barcos que em permanência sulcam as águas povoadas por tainhas, enguias e peixes-gato, transportando os visitantes que cumprirão o agradável percurso pedestre rodeados de “avicenas marinas” – comummente conhecidas como mangue, cinzento ou branco, aqui designado api-api – sarapintadas dos dejectos da passarada que se faz ouvir mas não se mostra. Domina estas redondezas o género garça nas suas mais variadas vertentes: branca-grande, de coral, vermelha, a garça do lago (típica de Java), a nocturna e a de dorso preto. Pouco provável será depararmos com algum dos membros da comunidade local de varanos – lagarto protegido por lei –, pois é bicho recatado e pouco dado a passeatas. Para os que eventualmente se possam sentir tentados, está lá, à vista de todos, o sinal de interdição de caça.

O nome Indramayu, “o jardim da deusa Indra”, remete-nos para o Hinduísmo, assim como kepala (coqueiro, em Bahasa) a “árvore da fortuna do paraíso de Indra”, graças à qual se podem obter os mais exigentes desejos, numa alusão ao carácter multiutilitário da planta. Esse Hinduísmo latente resistiria aos avanços do Islão, procedente das cidades portuárias a leste, tendo como foco de irradiação a região de Gresik, actual cidade de Surabaia. Aí estabeleceriam residência os primeiros nove apóstolos dessa religião, ainda hoje venerados na Indonésia. São os designados wali sanga e quase todos eles obtiveram o título póstumo de sunan, “reverendo, respeitável”. Assumiria neste domínio preponderante desempenho a cidade-Estado de Demak, mais a oeste, fundada pelo muçulmano chinês Chek Ko Po, conhecido como Raden Patah. Cedo Demak se tornaria o principal centro difusor do Islão nas áreas costeiras e, depois, no interior de Java. Mais tarde, em 1524, o filho de Raden Patah, assumindo o título de sultão Pangeran Trenggana, em pouco tempo irá usurpar o que ainda restava do poder hindu Mahajapati sedeado no interior do País, e que fora durante muito tempo respeitado e temido, inclusive pelas cidades costeiras agora nas mãos de muçulmanos recém-convertidos.

Joaquim Magalhães de Castro

Java Menor – 1

JAVA MENOR – 1

O porto de Cimanuk

Demoro algum tempo mas acabo por chegar à conclusão que a Indramayu que tantas vezes visito, afinal, corresponde à Cimanuk mencionada nos textos de Tomé Pires, boticário, autor do primeiro tratado geográfico europeu sobre aquelas paragens. Embarcaria o dito, como feitor, numa das naves da expedição ordenada pelo primeiro capitão de Malaca, Rui de Brito Patalim, encarregada da exploração da costa setentrional de Samatra e Java. Tratava-se de uma armada de quatro navios liderada por João Lopes de Alvim e a viagem duraria três meses e oito dias – de 14 de Março a 22 de Junho de 1513. Resultantes dela, na toponímia local, temos os nomes “Aguada do Alvim” ou “Aguada do Siguide” (do rio Ci Gede, actual Ci Sadane que banha Tangerang) – se bem que nalguns mapas a “Aguada do Siguide” surja junto ao rio Cimanuk, muito para lá de Jacarta – ou ainda “Aguada do Padrão”, pois seria aí colocado um padrão. Recorde-se que poucos meses depois desta jornada, havia já notícia de um português envolvido em negócios naquelas paragens. Trata-se de um tal Pero Barbosa, “provedor de defuntos de Malaca, que lá mandou pelo junco da viúva do tumungão (juiz) Aregimute Raja fazenda do recém-falecido feitor Pero Pessoa”, como escreve Tomé Pires.

Rivalidade Luso – Gaulesa na Corte do Filho Celestial

Um episódio médico

Um episódio médico

Em 1687, um século após o estabelecimento, em Shiuhing, da primeira Casa da Companhia de Jesus, assomava aos portões de Pequim um grupo de jesuítas franceses que viajara até à Ásia sob os auspícios e protecção do rei Luís XIV. Foram, é claro, prontamente recebidos pelos padres do Padroado que os alojaram nas instalações da Missão Portuguesa. Porém, bem cedo os gauleses mostraram ao que vinham: rivalizar com os lusos confrades, pois, no caso, os interesses de Estado suplantavam largamente os da Igreja. E a oportunidade de ouro não tardou a chegar…

Bengala e o Reino do Dragão – 55

Maamuni e o Elefante Branco

Maamuni e o Elefante Branco

Se verdade é que nos rios e ao longo da costa os mogóis sempre fracassavam frente aos arracaneses, convém não esquecer que o potencial dos primeiros – com um exército com mais de setecentos mil homens, admirável montante para a época – era infinitamente superior. A ambição de Thiri-thu-dhamma ia muito além da simples ampliação dos seus domínios: ele pretendia conquistar toda a Bengala. Ora, como poderia almejar semelhante coisa se não tivesse o apoio dos portugueses, mesmo que em contingente – umas centenas de homens – bastante limitado? Fosse como fosse, lutar contra o império mogol parecia ser propósito impraticável. Mesmo assim, Thiri-thu-dhamma estava disposto a correr o risco. Não era ele, afinal, o supremo guardião do Maamuni (o Buda) e Senhor do Elefante Branco e, como tal, o maior rei budista daquela região? Maior que o rei do Ceilão, maior que o rei do Sião, maior que o rei da Birmânia. Mais. Thiri-thu-dhamma acreditava que lhe caberia a ele o papel de “redentor do mundo”. Ou seja, esperava poder vir a reencarnar como Buda e assim unir o mundo desunido e a todos levar paz, felicidade e salvação. E só o conseguiria (saber se fora ele o escolhido) tentando algo de grandioso. Caso tivesse sucesso na cruzada contra o mogol muçulmano, então do seu destino seria senhor.

Bengala e o Reino do Dragão – 54

BENGALA E O REINO DO DRAGÃO – 54

A ilha dos tubarões

No local onde buscaram refúgio os fugitivos de Hugli, a ilha de Saugar (Sagar), todos os anos se realizava uma festividade hindu no decurso da qual os mais devotos, num gesto extremo de sacrifício aos seus sedentos deuses, se lançavam aos tubarões para que estes os devorassem. Este género de práticas vem retratado várias vezes nas páginas da “Peregrinação” de Fernão Mendes Pinto. Nessa ilha onde ninguém ousava viver com medo das incursões dos levantados portugueses de Dianga encontrou porto seguro a gente de Hugli. Abundava água de boa qualidade e era grande a quantidade de árvores de fruto. Uns quantos templos, visitados uma vez por ano pelos peregrinos, apresentavam-se como as únicas construções visíveis e em termos estratégicos o sítio rondava a excelência – não o podia atacar exército algum vindo por terra. Do ponto de vista comercial sobravam vantagens: estava Saugar a curta distância da aldeia de Hijli, frente à qual naufragara o navio onde viajava frei Sebastião Manrique, a caminho de Hugli.

Bengala e o Reino do Dragão – 53

O mastro do navio

O mastro do navio

Deixámos a semana passada os sobreviventes de Hugli em frenética fuga rio abaixo, perdendo no processo várias barcaças para o inimigo mogol; preservando outras tantas. Tinham até ultrapassado já o pontão e a corrente de argolas de ferro. Porém, ao chegar junto à aldeia de Betor (actual Jardim Botânico de Calcutá), 25 milhas a sul de Hugli, depararam com um último obstáculo: uma passagem estreita barrada por nova corrente de argolas de ferro. Navegável, apenas uma nesga de rio junto a uma das margens. Ali os aguardava um batalhão mogol munido de pesada artilharia. O momento seguinte seria o mais terrível da longa batalha! Não obstante, a flotilha, ou o que restava dela, conseguiu passar e continuar a descer o Hugli em direcção à foz até chegar à ilha de Sagar, sessenta milhas mais adiante.

Bengala e o Reino do Dragão – 52

A fuga fluvial

A fuga fluvial

O sucesso do ataque mogol a Hugli era só uma questão de tempo. Não obstante, os portugueses, apesar de muito desfalcados, guardavam na manga uma derradeira cartada. Os bombardeamentos cerrados e contínuos da artilharia inimiga tinham miraculosamente poupado a maior parte da frota fluvial da cidade, o que permitiria ao residentes airosa evacuação, rio abaixo, até perto do delta, longe do alcance das armas dos homens do vice-rei mogol. Aí chegados, a qualquer uma das várias ilhotas cravadas na parte mais ancha do Hugli, ficariam seguros, pois os mogóis não tinham nem os navios nem a habilidade marítima para os desalojar. Cedo se aperceberam os portugueses de Bengala ser essa a única forma de salvarem a pele. Mas tal decisão implicava o abandono de todos os seus pertences, à excepção do vil numerário.

Bengala e o Reino do Dragão – 51

O ataque a Hugli

O ataque a Hugli

Os argumentos do renegado Martim de Melo surtiram efeito e o “poeta” Shaista Khan num instante se transmutou em feroz guerreiro. Tratou logo de colocar à frente do combate o seu filho Ibrahim Khan (nos textos portugueses Inaiatulá Cã), arregimentador de uma tropa de 150 mil homens, munidos de artilharia e embarcações fluviais. Atente-se ao farto número! Se é certo que, atendendo aos exageros líricos da época, devemos manter reservas em relação a números sempre que se trata de disparidade de forças num campo de batalha, o presente caso – ousamos dizê-lo – traduz bem do temor provocado pelos portugueses junto dos seus inimigos, e quiçá, da própria fraqueza do exército mogol. A 26 de Junho o mesmo encontrava-se apenas a três milhas da cidade, facto causador de enorme comoção junto da lusa comunidade, apanhada de surpresa.

Bengala e o Reino do Dragão – 50

O renegado Martim de Melo

O renegado Martim de Melo

Todos os habitantes de Hugli eram tidos como vassalos do Grão Mogol e a ele pagavam direitos alfandegários que deixavam satisfeitos o governador da província recentemente conquistada. A alguns dos comerciantes, “os mais importantes da terra”, concedera em tempos Acbar, e depois Jahangir, uma série de privilégios e isenções, o que garantia prosperidade ao burgo e, sobretudo, a indispensável tranquilidade. Havia um pacto inerente, um pré-acordado “status quo”: aos senhores mogóis convinha-lhes a actividade comercial exercida pelos portugueses; a estes convinha-lhes manter-se de pedra e cal nesse local longe do controlo fiscal das autoridades de Goa e da opressiva moral dos metediços do Santo Ofício. Eram ciscos ferrugentos na oleada engrenagem o malfadado comércio de escravos e a venda de armas aos corsários do Golfo de Bengala…

Bengala e o Reino do Dragão – 49

Voo sobre os Himalaias

Voo sobre os Himalaias

A tranquilidade do formoso vale de Paro é quebrada apenas pelos voos em ziguezague das aeronaves da Bhutan Airlines e da Druk Air, as únicas companhias aéreas autorizadas a sobrevoar este estreito pedaço de terra bastante arado e cingido por uma cadeia de montanhas com uma média de altitude de cinco mil e quinhentos metros. Umas quantas vezes ao dia vêem-se romper do nada aviões rumo ao aeroporto, “o mais desafiador do Mundo”, cuja pista, de tão curta, não atinge sequer os dois mil metros. Contam-se pelos dedos das duas mãos os pilotos certificados para cumprir tão delicada tarefa. Voos em Paro são permitidos apenas durante o dia e sob condições meteorológicas de excelência, o que nem sempre é o caso no Verão, altura das monções, facto que origina alguns dissabores pois é o turista obrigado a recorrer ao meio aéreo pelo menos uma vez – à entrada ou à saída do Butão – podendo, como é lógico, e se for essa a sua vontade, fazê-lo em ambos os casos.

Bengala e o Reino do Dragão – 48

O cativeiro de Manuel Marques

O cativeiro de Manuel Marques

Após dez anos de actividade a missão no Ngari, Tibete Ocidental, fora desactivada, mas nem por isso se deram por vencidos os valorosos padres. Em Junho de 1636 chega a Agra, vindo de Goa, o padre António Pereira que um mês depois, acompanhado pelo experiente Alain dos Anjos, parte para Srinagar, nos contrafortes do Himalaias, disposto a seguir dali para o Tibete se as condições o permitissem. A 17 de Setembro, o visitador Francisco de Castro propõe ao provincial de Goa a transferência dos recursos reunidos na missão tibetana em Agra para a do Grande Mogol, contudo, Anjos acabaria por falecer em Srinagar, deixando uma vaga que seria preenchida em Janeiro de 1637 com a chegada de Stanislaus Malpichi, que aí se junta a António Pereira.

Bengala e o Reino do Dragão – 47

O insucesso da missão

O insucesso da missão

No mesmo ano em que era aberta a missão de Rutok, em 1627, Cacela e Cabral deixavam Cooch Behar, tendo chegado em pouco tempo a Paro, a capital do reino do Butão. Em Maio desse ano, viajava o padre João Godinho para Caxemira, e a 29 de Agosto era expedida de Agra uma carta colectiva – redigida por Andrade, Anjos e Oliveira – dando conta da perseguição do rei aos lamas e manifestando grande preocupação, pois estes, devido a essa atitude, previsivelmente se iriam tornar cada vez mais hostis. Andrade escreve ainda outra carta, na mesma altura em que Cacela enviava o seu relato directamente “do reino de Cambirasi”. Em Setembro chega António Pereira a Tsaparang e três meses volvidos é a vez de Anjos escrever uma carta antes da sua partida do Tibete para Goa, para aí se encontrar com o provincial dos jesuítas.