Category Archives: Cultura

Bengala e o Reino do Dragão – 52

A fuga fluvial

A fuga fluvial

O sucesso do ataque mogol a Hugli era só uma questão de tempo. Não obstante, os portugueses, apesar de muito desfalcados, guardavam na manga uma derradeira cartada. Os bombardeamentos cerrados e contínuos da artilharia inimiga tinham miraculosamente poupado a maior parte da frota fluvial da cidade, o que permitiria ao residentes airosa evacuação, rio abaixo, até perto do delta, longe do alcance das armas dos homens do vice-rei mogol. Aí chegados, a qualquer uma das várias ilhotas cravadas na parte mais ancha do Hugli, ficariam seguros, pois os mogóis não tinham nem os navios nem a habilidade marítima para os desalojar. Cedo se aperceberam os portugueses de Bengala ser essa a única forma de salvarem a pele. Mas tal decisão implicava o abandono de todos os seus pertences, à excepção do vil numerário.

Bengala e o Reino do Dragão – 51

O ataque a Hugli

O ataque a Hugli

Os argumentos do renegado Martim de Melo surtiram efeito e o “poeta” Shaista Khan num instante se transmutou em feroz guerreiro. Tratou logo de colocar à frente do combate o seu filho Ibrahim Khan (nos textos portugueses Inaiatulá Cã), arregimentador de uma tropa de 150 mil homens, munidos de artilharia e embarcações fluviais. Atente-se ao farto número! Se é certo que, atendendo aos exageros líricos da época, devemos manter reservas em relação a números sempre que se trata de disparidade de forças num campo de batalha, o presente caso – ousamos dizê-lo – traduz bem do temor provocado pelos portugueses junto dos seus inimigos, e quiçá, da própria fraqueza do exército mogol. A 26 de Junho o mesmo encontrava-se apenas a três milhas da cidade, facto causador de enorme comoção junto da lusa comunidade, apanhada de surpresa.

Bengala e o Reino do Dragão – 50

O renegado Martim de Melo

O renegado Martim de Melo

Todos os habitantes de Hugli eram tidos como vassalos do Grão Mogol e a ele pagavam direitos alfandegários que deixavam satisfeitos o governador da província recentemente conquistada. A alguns dos comerciantes, “os mais importantes da terra”, concedera em tempos Acbar, e depois Jahangir, uma série de privilégios e isenções, o que garantia prosperidade ao burgo e, sobretudo, a indispensável tranquilidade. Havia um pacto inerente, um pré-acordado “status quo”: aos senhores mogóis convinha-lhes a actividade comercial exercida pelos portugueses; a estes convinha-lhes manter-se de pedra e cal nesse local longe do controlo fiscal das autoridades de Goa e da opressiva moral dos metediços do Santo Ofício. Eram ciscos ferrugentos na oleada engrenagem o malfadado comércio de escravos e a venda de armas aos corsários do Golfo de Bengala…

Bengala e o Reino do Dragão – 49

Voo sobre os Himalaias

Voo sobre os Himalaias

A tranquilidade do formoso vale de Paro é quebrada apenas pelos voos em ziguezague das aeronaves da Bhutan Airlines e da Druk Air, as únicas companhias aéreas autorizadas a sobrevoar este estreito pedaço de terra bastante arado e cingido por uma cadeia de montanhas com uma média de altitude de cinco mil e quinhentos metros. Umas quantas vezes ao dia vêem-se romper do nada aviões rumo ao aeroporto, “o mais desafiador do Mundo”, cuja pista, de tão curta, não atinge sequer os dois mil metros. Contam-se pelos dedos das duas mãos os pilotos certificados para cumprir tão delicada tarefa. Voos em Paro são permitidos apenas durante o dia e sob condições meteorológicas de excelência, o que nem sempre é o caso no Verão, altura das monções, facto que origina alguns dissabores pois é o turista obrigado a recorrer ao meio aéreo pelo menos uma vez – à entrada ou à saída do Butão – podendo, como é lógico, e se for essa a sua vontade, fazê-lo em ambos os casos.

Bengala e o Reino do Dragão – 48

O cativeiro de Manuel Marques

O cativeiro de Manuel Marques

Após dez anos de actividade a missão no Ngari, Tibete Ocidental, fora desactivada, mas nem por isso se deram por vencidos os valorosos padres. Em Junho de 1636 chega a Agra, vindo de Goa, o padre António Pereira que um mês depois, acompanhado pelo experiente Alain dos Anjos, parte para Srinagar, nos contrafortes do Himalaias, disposto a seguir dali para o Tibete se as condições o permitissem. A 17 de Setembro, o visitador Francisco de Castro propõe ao provincial de Goa a transferência dos recursos reunidos na missão tibetana em Agra para a do Grande Mogol, contudo, Anjos acabaria por falecer em Srinagar, deixando uma vaga que seria preenchida em Janeiro de 1637 com a chegada de Stanislaus Malpichi, que aí se junta a António Pereira.

Bengala e o Reino do Dragão – 47

O insucesso da missão

O insucesso da missão

No mesmo ano em que era aberta a missão de Rutok, em 1627, Cacela e Cabral deixavam Cooch Behar, tendo chegado em pouco tempo a Paro, a capital do reino do Butão. Em Maio desse ano, viajava o padre João Godinho para Caxemira, e a 29 de Agosto era expedida de Agra uma carta colectiva – redigida por Andrade, Anjos e Oliveira – dando conta da perseguição do rei aos lamas e manifestando grande preocupação, pois estes, devido a essa atitude, previsivelmente se iriam tornar cada vez mais hostis. Andrade escreve ainda outra carta, na mesma altura em que Cacela enviava o seu relato directamente “do reino de Cambirasi”. Em Setembro chega António Pereira a Tsaparang e três meses volvidos é a vez de Anjos escrever uma carta antes da sua partida do Tibete para Goa, para aí se encontrar com o provincial dos jesuítas.

Bengala e o Reino do Dragão – 46

As viagens himalaicas

As viagens himalaicas

Em 1580, nas faldas montanhosas de Oleiros, Beira Alta, nasce António de Andrade, o homem a quem com toda a justeza se atribui o pioneirismo nos Himalaias e no planalto tibetano. Passariam dezasseis anos até que, em parte incerta, visse a luz do dia Manuel Marques, o companheiro de viagem de Andrade, e não menos pioneiro do que este. Protagonistas foram, um e outro, de uma das mais emocionantes jornadas encetadas por portugueses. Entretanto, em 1582, lá longe, no Oriente, Rodolfo Acquaviva, missionário italiano destacado no Norte da Índia pelo Padroado, enviava para a Europa as primeiras notícias acerca de um misterioso reino chamado Potente, ou seja, o Tibete.

Bengala e o Reino do Dragão – 45

A névoa da portela de Dochula

A névoa da portela de Dochula

No seu relato, Estêvão Cacela afirma ter-se dedicado de corpo e alma a aprender o idioma da região e, provavelmente, o Sânscrito, uma vez que menciona ter estudado “os livros dos lamas”. Ou seja, embora, à semelhança dos demais, justifique as dificuldades “em ministrar a catequese” com o desconhecimento da língua, este jesuíta tem a humildade de a aprender através do contacto com os lamas. No processo, certamente terá enxergado alguns dos preceitos do Budismo. Como dissemos, o jesuíta identifica “Chescamoni” – Sakyamuni, Buda – como o filho de Deus. Tomando como ponto de partida os mistérios e dogmas cristãos, Cacela revela-nos nas páginas do “diário” a sua percepção das crenças dos budistas butaneses, contrapondo-as a questões ligadas à Santíssima Trindade, à Encarnação, à Virgem Maria e à existência do inferno e do paraíso.

Bengala e o Reino do Dragão – 44

O fruto sem semente

O fruto sem semente

Como já aqui dissemos, a tentativa de converter os butaneses saiu gorada e os padres João Cabral e Estêvão Cacela bem frustrados se devem ter sentido, pois o esforço foi muito. Só séculos depois, já em meados da centúria passada, voltaria um jesuíta a assumir papel de destaque no Reino do Dragão. Mas não era essa a intenção, quando William Mackey deixou o Canadá em 1946 destinado à missão de Darjeeling, capital da província indiana himalaica do Sikkim, onde a congregação tinha a seu cargo, e há já mais de um século, escolas, clínicas e igrejas. Originalmente, sob a batuta de padres belgas; logo após a Segunda Guerra Mundial, regidas por homólogos canadianos. O padre Mackey adaptar-se-ia de imediato à nova realidade.

Bengala e o Reino do Dragão – 43

O relato de Cabral

O relato de Cabral

A viagem ao Butão foi também documentada por João Cabral. Ou melhor dizendo, parte dessa viagem, pois a missiva enviada a Roma em 1628 por esse jesuíta abordava sobretudo a estada dos dois padres portugueses no Utsang (Tibete Central) e a fundação aí (ou tentativa disso) de uma missão católica. Como afirma logo no início, “nas cartas de Outubro passado escrevemos a Vossa Reverência o sucesso da nossa missão até à chegada e estada com o Droma Raja ou Lama Rupa (Shabdrung)”, Cabral referia-se à “Relação” de Cacela, escrita no ano anterior, a 4 de Outubro de 1617. Naquela que ele próprio redigiu dá-nos “conta da mudança que fizemos para o Reino de Utsang, no qual já nas outras fazíamos referência”.

Bengala e o Reino do Dragão – 42

A partida para o Tibete

A partida para o Tibete

Em 1627, Estêvão Cacela parte para Xigatsé, onde chega em Novembro desse ano. “Resolvemo-nos a fazer esta mudança porque achamos que todos os favores do Lama Rupa eram traças para nos impedir nosso intento, movido do zelo da sua falsa seita”, escreve o português. Pouco depois, em Dezembro ou início de Janeiro, é a vez de João Cabral rumar a Xigatsé, tendo atingido essa localidade a 20 de Janeiro de 1628. Não se sabe qual o trajecto utilizado por ambos os padres. Uma das possibilidades é que tenham seguido o vale de Chagri rumo a Lingzhi, através do passo de Yale La, onde existe ainda hoje um mosteiro fortificado. Outra hipótese é a de terem optado pela rota mais usual, a que de Paro ruma à cidade tibetana de Pagri, via vale de Chumbi.

Bengala e o Reino do Dragão – 41

As tentativas de conversão

As tentativas de conversão

No decorrer da estada dos dois jesuítas na corte butanesa, Shabdrung ordenaria que três dos seus monges os acompanhassem em permanência. Dois deles eram muito jovens ainda. Um de doze anos, “muito ingénuo e de habilidade”, e outro de dezanove, “que tem particular aplicação em aprender o que se lhe ensina”. Cacela e Cabral, aproveitando a proximidade, foram-nos catequizando, ou como o primeiro diz, instruindo-os “nas cousas da nossa Santa Fé”. O autor da “Relação” refere ainda um quarto monge, “de 27 anos, mui principal e de muitos parentes” que durante todo o tempo acompanhava o monarca, “ajudando-o nas obras da sua curiosidade de pintura, escultura e marcenaria em que está sempre ocupado para ornato da imagem do seu pai”.

Bengala e o Reino do Dragão – 40

O Horizonte Perdido

O Horizonte Perdido

É muito provável que James Hilton, autor do romance “Horizonte Perdido”, escrito em 1933, tenha tido acesso a algumas das cartas enviadas pelos jesuítas portugueses no já distante primeiro quartel do século XVII, fosse a “Relação” de Cacela, a missiva de Cabral ou as cartas de António de Andrade, esse o verdadeiro pioneiro na região himalaica. Atente-se à seguinte passagem da obra do escritor britânico: “O mosteiro, no entanto, tinha mais a oferecer do que simples exibições de chinoiserie. Uma das suas características, por exemplo, era uma biblioteca muito agradável, alta e espaçosa (…). Conway, após uma rápida olhadela a algumas das estantes, encontrou motivos de sobra para se surpreender.

Bengala e o Reino do Dragão – 39

A identificação do Shangri-La

A identificação do Shangri-La

No decorrer das suas investigações em torno do mítico reino do Cataio, que até então não tinham logrado identificar, os jesuítas João Cabral e Estêvão Cacela ouviriam falar de um outro misterioso reino. “É porém aqui muito célebre um reino que dizem ser muito grande, e se chama Xembala, e fica junto a outro que chamam Sopo”, escreve Cacela na sua “Relação”. Sabia o padre que o dito reino do Sopo era habitado pelos tártaros (mongóis), “como entendemos pela guerra que este rei nos diz que aquele Reino tem de contínuo com a China”, acrescentando depois que, apesar do reino da China estar populado por muita mais gente, “a do Sopo é mais esforçada”, e por isso tinha por hábito vencer os chineses em todas as batalhas travadas.

Bengala e o Reino do Dragão – 38

O arco e a flecha

O arco e a flecha

Estêvão Cacela traça-nos um retrato dos butaneses apresentando-os como gente branca, “ainda que a pouca limpeza com que se tratam faz que o não pareçam tanto”. O cabelo traziam-no comprido, cobrindo-lhes as orelhas e parte da testa, e o rosto estava desprovido de barba. E para se certificar que assim continuava faziam uso, com bastante frequência, de umas tenazes que traziam penduradas ao peito, “que só servem de arrancar tudo o que aponta”. O traje dos butaneses não diferia daquele utilizado por outros povos tibetanos, pois “os braços trazem despidos, e do pescoço até aos joelhos se cobrem com um pano destes de lã, trazendo mais outro pano grande por capa”.