Category Archives: Cultura

Cartas do Bornéu -11

As andanças do “Carvalhinho”

As andanças do “Carvalhinho”

A este ponto da narrativa há um pormenor que merece particular atenção. Refiro-me ao mencionado “filho de Carvalhinho”, que teria cerca de oito anos de idade na altura em que foi feito refém e muito provavelmente passou o resto da vida na corte do sultão do Brunei. Ele foi, por assim dizer, o primeiro “brasileiro” a viajar para o Oriente e ali ficar.

Passo a explicar. Antes de ser alistado para a circum-navegatória tarefa, João Lopes de Carvalho era já piloto acostumado às correntes atlânticas, restingas e enseadas dessa nova terra prometida abundante em pau-brasil.

Cartas do Bornéu – 10

Os relatos dos cronistas

Os relatos dos cronistas

Cumprida a missão, a comitiva ibérica regressou aos navios e tudo não teria passado de mais um previsível início de relações comerciais entre povos de regiões antípodas, não fora um incidente que de modo dramático precipitou os acontecimentos. Informa-nos o cronista que na manhã de 29 de Julho, “uma segunda-feira”, viram aproximar-se das duas naus “mais de cem pirogas, divididas em três esquadrões”, e outros tantos “tungulis”, pequenas embarcações locais. Temendo vir a ser atacados à traição, os europeus desfraldaram as velas, e tão ansiosamente o fizeram que deixaram para trás uma das âncoras. As suspeitas adensaram-se quando se aperceberam de que oito embarcações de considerável porte, “chamadas juncos”, tinham ancorado na noite anterior na rectaguarda da Trinidad e da Victoria, interpretando o acto como uma estratégia de cerco levada a cabo pelos malaios.

Cartas do Bornéu – 9

Brocado, canela e cravinho

Brocado, canela e cravinho

Prosseguimos esta semana com o relato da recepção aos expedicionários da desmembrada frota de Fernão de Magalhães junto da corte do rei do Brunei, no já distante ano de 1521, tendo como fonte de referência a carta que nos legou António Pigafetta, o cronista oficial dessa assombrosa empreitada que alteraria a perspectiva que até então o homem europeu tinha do mundo.

Ao recebê-los o monarca afirmou que estava muito contente por saber “que o Rei de Espanha era seu amigo”, e que podiam abastecer-se com água e madeira e, se surgissem oportunidades, comerciar à vontade com os habitantes locais.

Cartas do Bornéu – 8

O encontro com o rajá Siripada

O encontro com o rajá Siripada

Uma centena de metros terra adentro, resguardados por um tecto de zinco, estão à vista uns quantos metros de pedras de granito – parte de uma área com um total de cem metros de comprido por cinco de largo, que foi alvo de escavações em 1980 – que constituíam a base da muralha que a pena de Pigafetta descreve como “um grande muro construído de grandes tijolos e com barbacãs, como nas fortalezas”. Erguida ao longo da costa, em frente à ilha artificial de Terindak, a sul, e, para norte, encarando terra firme, a muralha (idealizada numa maqueta à escala real exposta no Museu Marítimo) tinha dupla função: proteger Kota Batu de possíveis ataques e, simultaneamente, servir de via principal de acesso à dita cidade.

Cartas do Bornéu – 7

Ofertas de betel, arak e pães-de-açúcar

Ofertas de betel, arak e pães-de-açúcar

Regressemos ao ano de 1521 e ao dia após a chegada de tão exóticos visitantes, devidamente assinalada ao sultão local que logo mandou às naus Victoria e Trinidad uma luxuosa canoa cuja proa arvorava uma bandeira branca e azul “com penas de pavão no topo de uma vara”. Embarcados nessa canoa – que o italiano descreve como “uma espécie de fusta ou galera” – entre outros, flautistas e percussionistas, seguindo-a no encalço duas almadias, “que são barcos de pesca”. Oito dos “respeitáveis da ilha” subiram à nau capitânia, comandada por João Lopes Carvalho, e sentaram-se num tapete preparado para o efeito no castelo da popa.

Cartas do Bornéu – 6

A cidade de pedra

A cidade de pedra

Kota Batu, antiga capital do império do Brunei, não passa hoje de um parque arqueológico, ao que constato, e infelizmente, muito pouco frequentado, com a vantagem de ter como extras, nas proximidades, três unidades museológicas bastante interessantes e com entrada gratuita. Pena que o Museu Nacional, onde poderia encontrar alguma informação ou objectos relativos ao que se pode designar como “período português do Brunei”, esteja encerrado para obras de restauro, já lá vão alguns anos. Junto ao rio, o moderno Museu Marítimo é parcialmente patrocinado pela petrolífera francesa Total, financiadora das pesquisas subaquáticas da equipa de arqueólogos que em 1997 revelariam e resgatariam os despojos de um junco chinês naufragado ao largo da costa do Brunei, provavelmente o mais importante achado arqueológico do sultanato.

Cartas do Bornéu – 5

A “Regalia” e as corridas de barcos

A “Regalia” e as corridas de barcos

Nas horas de calor abrasivo não há vivalma nas ruas de Bandar Seri Begawan. Não fossem os visitantes do museu onde se exibem alguns dos presentes oferecidos ao sultão por altos dignitários estrangeiros (que mais se pode dar a quem já tudo tem?), dir-se-ia uma cidade fantasma. À noite, repete-se o panorama. Ruas e passeios públicos quase desocupados; excepção são os mercados nocturnos onde se degusta excelente peixe e se adquire por bom preço uma panóplia de frutos e deliciosos petiscos para levar para casa em saquinhos de plástico de todas as cores, nenhum deles reciclável.

Cartas do Bornéu – 4

A cidade no rio de Pigafetta

A cidade no rio de Pigafetta

Verdadeiro ex-libris, cúpula e extremidades dos minaretes cobertos a ouro, a grande mesquita de traça mogol de Omar Ali Saiffudin domina a paisagem do centro de Bandar Seri Begawan, e esperemos que assim continue por muitos mais anos. Por lei, no Brunei-Darussalam, nenhum outro edifício das vizinhanças pode ultrapassar em altura um templo dedicado a Alá. Graças à sensata medida, prédios com pretensões a arranha-céus mantêm baixa a bolinha; um sossego para a alma das bem-aventuradas e não deslumbradas criaturas obrigadas a acatar os bizarros ditames da dita sofisticada sociedade actual.

Cartas do Bornéu – 3

A ponte de Temburong e as aldeias palafita

A ponte de Temburong e as aldeias palafita

Em Bandar Seri Begawan nunca nos sentimos verdadeiramente numa cidade. Até nas horas de maior aperto o trânsito flui e é fácil encontrar espaço para estacionar. O Istana Nurul Iman, residência oficial do sultão, desenhado pelo arquitecto filipino Leandro V. Locsin e avaliado em 1,4 biliões de dólares, ocupa uma área gigantesca junto ao rio e conta com, ao que se diz, mil e oitocentas divisões. «Não é tudo quartos, também há salas de estar e outro tipo de espaços», tranquilizam os mais avisados, não esquecendo, no entanto, de realçar que o Nurul Iman «é o maior palácio do mundo», ultrapassando, em área e fausto, «o de Versalhes».

Carta do Bornéu – 2

Do vício e da virtude

Do vício e da virtude

À semelhança do que acontece noutros reinos que chafurdam em poços de nafta – vulgo Emirados, Kuwait, Qatar, e, claro, esse exemplo de probidade moral e política, oh!, ditoso paraíso, chamado Arábia Saudita – no sultanato do Brunei-Darussalam as virtudes querem-se públicas, os vícios mantêm-se privados. Interdição total de venda de álcool, proibição de fumar em todos os lugares públicos, inexistência de discotecas ou bares com música ao vivo, são três factores distintivos do sultanato, daí que haja quem improvise o Karaoke em casa e os bares de alterne, quando ansiados, buscam-se além fronteiras, em Kota Kinabalu e em Miri, verdadeiro enclave étnico chinês de Sarawak, sucursal de micro clínicas e pensões baratas, que foi avançando floresta adentro porque, findo o período da mineração do estanho, o petróleo começou ali a jorrar.

Cartas do Bornéu – 1

Selamat Hari Natal

Selamat Hari Natal

Enquanto o politicamente correcto, essa novel e pegajosa maleita do século presente, medra e se derrama por esse mundo fora, atingindo, inclusivamente, foros de irracionalidade em países como o Canadá, que recentemente interditou por decreto governamental que todo e qualquer organismo público desejasse aos cidadãos em geral, e visitantes em particular, o “Feliz Natal”, como sempre se fez ao longo dos tempos naquele vasto e florestado território, apresentando como alternativa a socialmente aceitável e anódina saudação “Festas Felizes”, e isto (veja-se lá onde chega a histeria!), dizem eles, “para não ferir as suceptibilidades das comunidades não cristãs do País”, na Malásia, nação maioritariamente muçulmana, gigantescos cartazes publicitários junto às intersecções viárias e centros comerciais exibiram durante largas semanas bem legíveis desejos de “Selamat Hari Natal” e “Merry Christmas”, sem complexos nem rodriguinhos culpabilizadores, dirigidos a crentes e a descrentes; a nazarenos ou maometanos, a hindus, budistas, taoístas, animistas; a afins, avatares e aos eventuais extraterrestres que por lá tenham passado. E por tal atrevimento nenhum mal veio ao mundo.

Fora do Baralho

Dias casamenteiros e de muito vermelho

Dias casamenteiros e de muito vermelho

As urbes por toda a China vivem o Ano Novo Lunar e com mais artifícios luminosos do que nunca. Consumir, consumir, consumir sempre!, permanece a palavra de ordem. Numa cidade como Xangai, por exemplo, anualmente e em média, juntam os trapos cem mil casais. São, por isso, muitos os compromissos assumidos nesta auspiciosa quadra. Para a generalidade dos jovens chineses o casamento é a mais importante data das suas vidas, daí que não olhem a despesas.

Costa da Memória

Ponta das Almedias

Ponta das Almedias

Diogo Gomes, protótipo do navegador-mercador, refere a descoberta de “um promontório formosíssimo entrando no mar, a que chamaram Cabo Verde”, reparando que “neste lugar começa a linha equinocial, porque os dias e as noites aí são sempre iguais no Inverno como no Verão, e aquelas gentes são na maior parte negros”. Essa península, onde, em 1444, arribara Dinis Dias, o primeiro europeu a deparar com tais virentes paragens, daí a designação, seria visitada também por Luís de Cadamosto.

Costa da Memória

Cabo Verde do Senegal

Cabo Verde do Senegal

Depois de várias horas no pára-arranca, chegámos ao terminal terrestre, local caótico e saturado com ruídos motorizados. O pior de tudo era a ausência de luz, a não ser os faróis fugazes e intermitentes das viaturas, partindo e chegando. Sair dali ileso, em busca de transporte que me levasse até ao centro da cidade, foi um verdadeiro milagre. Bem avisavam os guias de viagem: «Evite a todo o custo chegar ao terminal de Dakar durante a noite». Só fiquei tranquilo quando finalmente me encontrei com o Faisal, amigo marroquino do João surfista, garante de alojamento para essa e as noites que se seguiriam. E foi em boa hora, pois a tosse era cada vez mais assustadoramente seca e contínua.

Costa da Memória

As Signare de Rio Fresco

As Signare de Rio Fresco

Para consumo local, camadas de pedaços de peixe a secar, em cestos de vime, em bidões ou simplesmente disseminados pelo areal. Um estendal não muito bonito de se ver exalando um fedor insuportável. Será que se destinava a ser comercializado? Quem teria a coragem de preparar o almoço com uma mixórdia daquelas?

A praia era utilizada também para a prática do futebol – com aliados e oponentes devidamente equipados – e para os muçulmanos enterrarem os seus mortos.